Depois de quase quatro décadas no mercado imobiliário, cheguei a uma conclusão que costuma contrariar a lógica de muita gente: preço é um número. Valor é uma percepção. O urbanista dinamarquês Jan Gehl costuma dizer que primeiro moldamos as cidades e, depois, elas moldam a nossa vida. Eu acrescentaria: primeiro escolhemos onde morar; depois, esse lugar passa a definir a qualidade dos nossos dias. Enquanto o mercado insiste em discutir o preço do metro quadrado, eu prefiro discutir a qualidade de vida por metro quadrado.
Ao longo da minha carreira, uma frase acabou se tornando quase uma assinatura do meu trabalho: não existe imóvel ruim; existe imóvel fora de preço ou fora de contexto. Um imóvel aparentemente caro pode ser a escolha perfeita para uma família e totalmente inadequado para outra. O contexto muda tudo.
É claro que a metragem importa, mas está longe de contar toda a história. Um imóvel vale pela incidência do sol, pela ventilação, pela qualidade da planta, pela construção, pela segurança, pela mobilidade, pela arborização, pelos serviços próximos e, principalmente, pela experiência de viver naquele lugar.
Jane Jacobs defendia que uma cidade de qualidade nasce das relações que acontecem nas calçadas. Traduzindo para o mercado imobiliário: não basta olhar para dentro do condomínio; é preciso olhar para fora dos seus muros. Piscina, academia e espaço gourmet agregam valor, mas não substituem um bairro vivo, seguro, caminhável e agradável.
Existe um velho ditado que continua atual: é melhor ter o pior apartamento do melhor bairro do que o melhor apartamento do pior bairro. Também aprendi que boa arquitetura envelhece muito mais devagar do que os modismos. E o investidor experiente faz perguntas diferentes: como estará esse bairro daqui a dez anos? Existe escassez de terrenos? A infraestrutura vai melhorar? Quem desejará morar ali no futuro?
Vejo pessoas passarem meses tentando economizar 5% ou 10% no preço e, nessa busca, perderem justamente o imóvel onde imaginavam criar os filhos, caminhar até a padaria ou tomar um café olhando uma rua arborizada. Às vezes, economiza-se dinheiro e perde-se qualidade de vida. Porque um imóvel nunca é apenas patrimônio. É o cenário onde a nossa história acontece.
Lewis Mumford escreveu que as cidades existem para ampliar as possibilidades da existência humana. A moradia faz exatamente o mesmo. Por isso, quando alguém me pergunta qual é o melhor imóvel, minha resposta nunca começa pelo preço.
Ela começa com outra pergunta: como é a vida que você sonha viver? Porque o mercado define o preço. O contexto ajuda a determinar o valor. E será o tempo, o nosso patrimônio mais precioso, é que mostrará se aquela foi, de fato, a melhor escolha.