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Onde tudo começou

Centro de Vitória, agora vai?

Vitória talvez seja uma das poucas cidades do Brasil que nasceram de forma equivocada e deram certo justamente porque alguém teve coragem de admitir o erro

Publicado em 01 de Julho de 2026 às 14:37

Públicado em 

01 jul 2026 às 14:37
Renato Avelar

Colunista

Renato Avelar

Vitória já provou algumas vezes que sabe se reinventar Marcelo Prest | A Gazeta

Outro dia me peguei pensando numa coisa curiosa. Vitória talvez seja uma das poucas cidades do Brasil que nasceram de forma equivocada e deram certo justamente porque alguém teve coragem de admitir o erro. 


Quando Vasco Fernandes Coutinho chegou à Capitania, tudo indicava que Vila Velha seria a escolha perfeita. Água, terras férteis, uma baía protegida. Alguns historiadores situam esse desembarque na Praia de Inhoá, ali na Prainha. Era um cenário bonito, estratégico e parecia suficiente para começar uma cidade.


Os povos indígenas tinham outra opinião e fizeram questão de demonstrar isso. A resistência indígena tornou a ocupação extremamente difícil. Os portugueses fizeram então aquilo que qualquer empresário faz quando percebe que escolheu o endereço errado. Procuraram outro.

Subiram o morro, na região onde hoje está o Palácio Anchieta e a Catedral Metropolitana, e ali nascia ali Vitória. 


O curioso é que o Centro Histórico, justamente onde tudo começou, nunca foi planejado. Foi acontecendo. Uma rua puxava a outra, uma casa encostava na seguinte, surgia um beco, depois uma escadaria, uma igreja, um largo. Era uma cidade construída conforme a vida acontecia.


Durante muito tempo aquilo bastou, até que deixou de bastar. No fim do século XIX, Vitória já estava sufocada. Faltava saneamento, faltava espaço e sobravam problemas. Foi quando apareceu um engenheiro chamado Saturnino de Brito.


Tenho profunda admiração por esse sujeito, pois enquanto todo mundo olhava para a cidade que existia, ele resolveu desenhar a cidade que ainda nem existia, e assim nasceu o Novo Arrabalde.


Hoje a gente anda pela Praia do Canto, reclama do trânsito, discute o preço do metro quadrado e esquece que alguém imaginou aquele bairro quando ali havia só mangue e restinga. Mais impressionante ainda é saber que a população prevista por Saturnino só foi atingida mais de cem anos depois, e pouca gente enxerga isso.


Depois dele vieram outros visionários. Creso Euclides ajudou a dar forma a Jardim da Penha. Alfred Agache trouxe uma nova visão urbanística para Bento Ferreira. Jolindo Martins Filho participou da construção da Enseada do Suá. Zé Maria Gaturama pensou Jardim Camburi quando muita gente ainda achava que aquilo era longe demais para morar.


Reparou que quase toda a Vitória onde vivemos foi desenhada antes de existir? O único pedaço que escapou disso foi justamente o Centro.


Talvez seja por isso que ele sempre tenha sido o mais difícil de resolver.


Agora aparece uma proposta interessante. Em vez de abandonar os imóveis históricos, a ideia é fazer com que eles voltem a ter valor econômico. O proprietário recupera o casarão, negocia o potencial construtivo e a cidade preserva sua memória sem impedir o desenvolvimento, mas não sei se vai funcionar.


Urbanismo nunca depende apenas de um bom projeto. Depende de vontade política, principalmente de iniciativa privada e de gente ocupando os espaços.


Mas confesso que gostei da ideia.


Vitória já provou algumas vezes que sabe se reinventar. Reinventou sua expansão com Saturnino, criou bairros inteiros sobre mangues e aterros e conseguiu crescer preservando uma qualidade urbana que poucas capitais brasileiras ainda possuem.


Talvez tenha chegado a hora de fazer as pazes com o lugar onde tudo começou. Será que agora o Centro vai?

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Renato Avelar

É corretor e empresário do setor imobiliário com mais de 35 anos de experiencia no mercado capixaba, gestor de empresas que integram a maior rede imobiliária do mundo.

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