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Cássio Moro

Entre o tarifaço e a fábrica: o futuro industrial do Espírito Santo

Convém conter a euforia. Montar automóveis no Espírito Santo não significa, automaticamente, criar uma cadeia automotiva capixaba

Publicado em 21 de Julho de 2026 às 04:30

Públicado em 

21 jul 2026 às 04:30
Cássio Moro

Colunista

Cássio Moro

O economista Sérgio Vale publicou na última semana (Valor, 17/07/2026) uma provocação desconfortável: o Brasil não apenas se desindustrializou; desindustrializou-se do jeito errado.


A perda de participação da indústria também ocorreu em países ricos. A diferença está no caminho percorrido. Nos Estados Unidos, o crescimento da renda deslocou o consumo para os serviços. Alemanha, Japão e Itália transferiram etapas mais simples da produção para países com custos menores, mas conservaram em casa a engenharia, a tecnologia e as partes de maior valor agregado.


O Brasil fez diferente: perdeu indústria porque deixou de competir. Produtividade estagnada, custo elevado, infraestrutura deficiente, insegurança e uma economia que aprendeu a conviver com bens importados e a depender da exportação de recursos naturais. Não ficamos ricos antes de nos desindustrializarmos. Simplesmente passamos a produzir menos.

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O Espírito Santo deve observar essa história com atenção. Nossa economia possui uma base industrial importante, construída em torno da mineração, da siderurgia, da celulose, do petróleo e gás e das rochas naturais. São atividades que geram produção, exportações, arrecadação e empregos. Entretanto, há duas vulnerabilidades conhecidas: a concentração em poucos setores e a forte dependência do mercado externo.


Os Estados Unidos receberam 27% das exportações capixabas em 2025. No primeiro semestre deste ano, ainda absorveram 27,5%, embora as vendas do Estado para aquele país já tenham recuado 17,2%. 


Quando mais de um quarto das exportações depende de um único destino, uma canetada em Washington deixa de ser um problema diplomático e passa a ameaçar empresas e empregos capixabas.


A nova tarifa adicional de 25%, que entra em vigor neste mês, não alcançou igualmente todos os nossos produtos. Minério de ferro, petróleo, celulose, café solúvel e parte relevante das rochas, como o quartzito, foram preservados. Isso evita um choque ainda maior. Mas mármores, granitos e outros materiais continuam submetidos à sobretaxa.


O impacto pode parecer pequeno quando diluído na pauta total: os produtos atingidos movimentaram cerca de US$ 240 milhões em vendas capixabas aos Estados Unidos em 2025. Para as empresas diretamente afetadas, contudo, não existe “apenas 2,3% da pauta estadual”. Existem encomendas canceladas, margens comprimidas, férias coletivas, investimentos adiados e trabalhadores receosos de perder o emprego.


Esse é o ponto em que uma crise comercial pode se transformar em má desindustrialização. Uma fábrica não desaparece sozinha. Quando ela fecha ou reduz a produção, enfraquece também transportadoras, oficinas, fornecedores, comércio e serviços das cidades ao redor. Perde-se uma cadeia produtiva inteira. Reconstruí-la depois costuma ser muito mais caro do que preservá-la.


Há, felizmente, um sinal na direção contrária. A construção da fábrica da GWM em Aracruz pode introduzir no Estado uma indústria automotiva de maior complexidade, somando-se às cadeias já consolidadas da siderurgia, mineração, petróleo, celulose e rochas. O projeto prevê investimento de R$ 5,8 bilhões, capacidade de até 200 mil veículos por ano e milhares de empregos quando estiver plenamente implantado.


A proximidade da ArcelorMittal e de outros produtores e transformadores de aço abre espaço para que parte dos insumos seja fornecida aqui mesmo. Há ainda a possibilidade de atrair fabricantes de componentes, baterias, motores elétricos, softwares, equipamentos e serviços de engenharia.


Convém conter a euforia. Montar automóveis no Espírito Santo não significa, automaticamente, criar uma cadeia automotiva capixaba. Se peças, tecnologia e serviços especializados vierem quase todos de fora, teremos uma grande unidade industrial com poucos encadeamentos locais. Será produção no território, mas não necessariamente desenvolvimento do território.

Fábrica da GWM em Iracemapolis, interior do Estado de São Paulo
Fábrica da GWM em Iracemapolis, interior do Estado de São Paulo Divulgação/GWM

Por isso, o sucesso da GWM não deve ser medido apenas pelo número de carros que sairão da fábrica. Deve ser avaliado pela quantidade de fornecedores capixabas incorporados à produção, pela formação de trabalhadores, pelos centros de pesquisa instalados e pelo valor que permanecerá circulando no Estado.


O tarifaço americano traz uma advertência e a GWM oferece uma oportunidade. A advertência é que depender de poucos produtos e compradores deixa empregos capixabas vulneráveis a decisões tomadas longe daqui. A oportunidade é utilizar uma nova indústria para diversificar nossa economia e conectar empresas locais a cadeias mais sofisticadas.


O Espírito Santo já sabe exportar minério, aço, celulose, petróleo, café e rochas. O próximo passo é transformar essa base em mais tecnologia, componentes, conhecimento e empregos qualificados. 


Caso contrário, poderemos repetir em escala regional o erro brasileiro: perder indústria antes de construir algo melhor para colocar em seu lugar.

Cássio Moro

Cássio Moro Cássio Moro

É juiz do Trabalho, doutorando em economia, mestre em Processo, especialista em Direito do Trabalho e economista. Professor de graduação e pós-graduação da FDV. Neste espaço, busca fazer uma análise moderna, crítica e atual do mercado e do Direito do Trabalho

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