Quando o ChatGPT foi lançado ao público, no fim de 2022, parecia que o mercado de trabalho caminhava para uma ruptura sem precedentes. Em poucos meses surgiram previsões segundo as quais advogados, jornalistas, programadores, professores e até médicos estariam prestes a ser substituídos por algoritmos. A inteligência artificial passou a ocupar o centro das discussões econômicas, empresariais e jurídicas.
Passados quase quatro anos, o cenário se tornou menos dramático e mais interessante.
Os modelos econômicos mais sofisticados e a própria experiência histórica mostram que grandes inovações raramente eliminam o trabalho humano em escala permanente.
O que normalmente ocorre é um aumento significativo da produtividade, acompanhado da transformação das ocupações e, muitas vezes, da redistribuição geográfica dos empregos. Alguns desaparecem, outros surgem e inúmeros são profundamente modificados. Essa dimensão geográfica merece atenção especial.
Países que investem em tecnologia, infraestrutura digital e qualificação de trabalhadores tendem a atrair atividades de maior valor agregado. Em sentido inverso, economias que retardam sua adaptação correm o risco de perder empresas, investimentos e empregos para regiões mais preparadas.
A inteligência artificial amplia essa disputa internacional por produtividade. O Brasil não pode ignorar esse movimento. Mas há um aspecto que passou despercebido durante o entusiasmo inicial: inteligência artificial custa caro.
A edição do Valor Econômico deste sábado (4) noticia que grandes empresas começaram a impor limites ao uso indiscriminado dessas ferramentas. Amazon, Walmart e Uber estão restringindo ou desestimulando determinadas utilizações por parte de seus funcionários. O motivo não é tecnológico. É financeiro.
Joel Santana/Pixabay
Grandes modelos de linguagem exigem enorme capacidade computacional. Cada consulta consome recursos de processamento, normalmente cobrados por volume de tokens processados. Em pequena escala, o custo parece irrelevante. Em organizações com centenas de milhares de empregados utilizando IA diariamente, a conta cresce de forma exponencial.
A corrida pela inteligência artificial entrou, portanto, numa nova fase. Não basta perguntar o que a tecnologia consegue fazer. É preciso perguntar quanto custa fazê-la trabalhar. Essa mudança produz duas consequências importantes.
A primeira é que talvez estejamos formando dois grupos distintos de trabalhadores: de um lado estarão aqueles capazes de utilizar a inteligência artificial como uma extensão de sua própria capacidade intelectual. São profissionais que sabem formular perguntas, validar respostas, combinar conhecimento técnico com raciocínio crítico e multiplicar sua produtividade.
De outro lado estarão os “IA-dependentes”, pessoas incapazes de redigir uma simples mensagem, elaborar um argumento ou resolver um problema sem recorrer imediatamente ao GPT, Claude ou Gemini.
Os primeiros utilizarão a IA como vantagem competitiva. Os segundos terão dificuldade para competir, justamente porque sua principal habilidade poderá ser reproduzida por qualquer usuário diante da mesma ferramenta.
A segunda consequência é ainda mais curiosa.
Durante décadas discutimos quanto custava empregar um trabalhador. Reformas trabalhistas, novas formas de contratação, terceirização, trabalho por plataformas e modelos híbridos buscaram reduzir esse custo para tornar as empresas mais competitivas.
Agora surge uma variável inédita: o custo da inteligência artificial.
Se a utilização intensiva de IA continuar exigindo investimentos elevados em processamento, licenciamento e infraestrutura computacional, talvez descubramos um paradoxo inesperado: em determinadas atividades, especialmente aquelas que exigem criatividade moderada, adaptação constante e julgamento contextual, poderá chegar o momento em que contratar uma pessoa seja mais barato que manter um robô trabalhando o dia inteiro.
A revolução da inteligência artificial continua em curso. Mas, como toda revolução econômica, ela também terá de fechar a conta. E, no fim das contas, talvez o preço da inteligência artificial seja o principal responsável por preservar uma parte importante do trabalho humano.