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Cássio Moro

O robô ficou caro ou o trabalhador humano virou uma pechincha?

Se a utilização intensiva de IA continuar exigindo investimentos elevados em processamento, licenciamento e infraestrutura computacional, talvez descubramos um paradoxo inesperado

Publicado em 07 de Julho de 2026 às 04:45

Públicado em 

07 jul 2026 às 04:45
Cássio Moro

Colunista

Cássio Moro

Quando o ChatGPT foi lançado ao público, no fim de 2022, parecia que o mercado de trabalho caminhava para uma ruptura sem precedentes. Em poucos meses surgiram previsões segundo as quais advogados, jornalistas, programadores, professores e até médicos estariam prestes a ser substituídos por algoritmos. A inteligência artificial passou a ocupar o centro das discussões econômicas, empresariais e jurídicas.


Passados quase quatro anos, o cenário se tornou menos dramático e mais interessante.

Os modelos econômicos mais sofisticados e a própria experiência histórica mostram que grandes inovações raramente eliminam o trabalho humano em escala permanente. 


O que normalmente ocorre é um aumento significativo da produtividade, acompanhado da transformação das ocupações e, muitas vezes, da redistribuição geográfica dos empregos. Alguns desaparecem, outros surgem e inúmeros são profundamente modificados. Essa dimensão geográfica merece atenção especial.

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Países que investem em tecnologia, infraestrutura digital e qualificação de trabalhadores tendem a atrair atividades de maior valor agregado. Em sentido inverso, economias que retardam sua adaptação correm o risco de perder empresas, investimentos e empregos para regiões mais preparadas. 


A inteligência artificial amplia essa disputa internacional por produtividade. O Brasil não pode ignorar esse movimento. Mas há um aspecto que passou despercebido durante o entusiasmo inicial: inteligência artificial custa caro.


A edição do Valor Econômico deste sábado (4) noticia que grandes empresas começaram a impor limites ao uso indiscriminado dessas ferramentas. Amazon, Walmart e Uber estão restringindo ou desestimulando determinadas utilizações por parte de seus funcionários. O motivo não é tecnológico. É financeiro.

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Custo financeiro da IA
Joel Santana/Pixabay

Grandes modelos de linguagem exigem enorme capacidade computacional. Cada consulta consome recursos de processamento, normalmente cobrados por volume de tokens processados. Em pequena escala, o custo parece irrelevante. Em organizações com centenas de milhares de empregados utilizando IA diariamente, a conta cresce de forma exponencial.


A corrida pela inteligência artificial entrou, portanto, numa nova fase. Não basta perguntar o que a tecnologia consegue fazer. É preciso perguntar quanto custa fazê-la trabalhar. Essa mudança produz duas consequências importantes.


A primeira é que talvez estejamos formando dois grupos distintos de trabalhadores: de um lado estarão aqueles capazes de utilizar a inteligência artificial como uma extensão de sua própria capacidade intelectual. São profissionais que sabem formular perguntas, validar respostas, combinar conhecimento técnico com raciocínio crítico e multiplicar sua produtividade. 


De outro lado estarão os “IA-dependentes”, pessoas incapazes de redigir uma simples mensagem, elaborar um argumento ou resolver um problema sem recorrer imediatamente ao GPT, Claude ou Gemini. 


Os primeiros utilizarão a IA como vantagem competitiva. Os segundos terão dificuldade para competir, justamente porque sua principal habilidade poderá ser reproduzida por qualquer usuário diante da mesma ferramenta.


A segunda consequência é ainda mais curiosa.


Durante décadas discutimos quanto custava empregar um trabalhador. Reformas trabalhistas, novas formas de contratação, terceirização, trabalho por plataformas e modelos híbridos buscaram reduzir esse custo para tornar as empresas mais competitivas. 


Agora surge uma variável inédita: o custo da inteligência artificial.

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Se a utilização intensiva de IA continuar exigindo investimentos elevados em processamento, licenciamento e infraestrutura computacional, talvez descubramos um paradoxo inesperado: em determinadas atividades, especialmente aquelas que exigem criatividade moderada, adaptação constante e julgamento contextual, poderá chegar o momento em que contratar uma pessoa seja mais barato que manter um robô trabalhando o dia inteiro.


A revolução da inteligência artificial continua em curso. Mas, como toda revolução econômica, ela também terá de fechar a conta. E, no fim das contas, talvez o preço da inteligência artificial seja o principal responsável por preservar uma parte importante do trabalho humano.

Cássio Moro

É juiz do Trabalho, doutorando em economia, mestre em Processo, especialista em Direito do Trabalho e economista. Professor de graduação e pós-graduação da FDV. Neste espaço, busca fazer uma análise moderna, crítica e atual do mercado e do Direito do Trabalho

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