Sair
Assine
Sair
Entrar

Recuperar senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Cadastrar nova senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Vitor Vogas

Maguinha e Magno: culto eleitoral, Deus a cada 25 segundos e “pitbulls sem vacina”

Publicado em 20 de Julho de 2026 às 23:08

Públicado em 

20 jul 2026 às 23:08
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Maguinha, Flávio Bolsonaro e Magno Malta
Maguinha, Flávio Bolsonaro e Magno Malta Fernando Madeira

O evento do PL em Vitória no último sábado (18) foi marcado pela troca de declarações de apoio entre Flávio Bolsonaro (PL) e Lorenzo Pazolini (Republicanos). Mas serviu, antes de tudo, para consolidar a candidatura de Maguinha Malta, ungida pelo pai, Magno Malta, ao Senado pelo PL.


Numa espécie de batismo eleitoral para a publicitária, Maguinha discursou pela primeira vez em um evento daquele porte no período de pré-campanha – embora o Espaço Patrick Ribeiro não estivesse lotado. E deu uma precisa amostra do que será sua campanha ao Senado: “Deus (literalmente, a cada 25 segundos), pátria, família e liberdade”.


Em um dos muitos jingles executados, Flávio foi tratado como “o novo capitão”. Se o capitão é “novo”, a cartilha não é. Nos discursos, na estética e no clima de culto evangélico/eleitoral, estavam lá todos os elementos mais tradicionais do bolsonarismo, com destaque para a velha sobreposição entre religião e política, com o evento político convertido em espécie de ato de fé e a campanha eleitoral, numa cruzada “do bem contra o mal”, em nome de um Deus cujo nome foi pronunciado à exaustão.


A coluna gravou a fala de Maguinha, ouviu-a de novo e contou. Num discurso de 18 minutos, a pré-candidata ao Senado pronunciou a palavra “Deus” 43 vezes – além de “Cristo” uma vez e “Jesus” mais três vezes. Em média, a filha de Magno usou o substantivo próprio uma vez a cada 25 segundos de fala. Isso porque não incluímos na contagem o pronome Ele.


O próprio Flávio chegou a declamar três versículos da Bíblia, em momentos diferentes do discurso. Magno pregou como um pastor. O mestre de cerimônias de todo o evento, com duração total de três horas, foi um pastor que entrava e falava ao público em cada momento do show para apresentar quem falaria a seguir.


O discurso inteiro de Maguinha, diante de uma plateia amistosa e predominantemente evangélica, teve esse teor religioso. Segundo a pré-candidata, ela decidiu entrar na política para ser “um instrumento de Deus” e atendendo a um chamado direto d’Ele, assim como a Rainha Ester, no Velho Testamento – a comparação foi feita por ela.


Falando em reis e rainhas, em seus quase 20 minutos com o microfone na mão, Maguinha só mencionou um compromisso concreto, caso realmente chegue ao Senado: ajudar a derrubar Alexandre de Moraes, por ela chamado de “imperador”: “O único em um país do Ocidente”.


“O povo de bem vai dar uma resposta aos tiranos desta nação, àqueles que acham que estão acima do bem e do mal, àqueles que acham que são semideuses: Lula, Alexandre de Moraes e toda essa corja que aprisionou o Brasil”, disse ela para sua militância.


A ideia de impichar Moraes é de fato prioritária para o PL e o “bolsonarismo raiz” e esteve na ponta da língua de quase todos que discursaram no evento (incluindo Flávio e Magno).


É exatamente por isso que o partido dá tanta importância à eleição para o Senado desta vez, mais que em qualquer outro pleito. A Câmara Alta é a única que tem o poder de cassar ministros do Supremo por crimes de responsabilidade.


Para Maguinha, fazendo eco ao pai, “não existe democracia” no Brasil. “O Senado é o Poder que reequilibra a balança da democracia.”

Magno e Maguinha Malta
Magno e Maguinha Malta Fernando Madeira

“Noites Traiçoeiras”

Muito jovem, Maguinha foi percussionista da banda de pagode gospel Tempero do Mundo, que tinha o próprio pai como vocalista e gravou álbuns. Juntos, no palco, os dois cantaram o sucesso “Noites Traiçoeiras” (em playback).


Flávio também cantou com Maguinha uma canção gospel, mas à capela. 

Calma 1

Em muitos momentos, a filha prestou reverências ao pai diante da plateia. Mas, num deles, exagerou: chamou-o pelo epíteto de “maior senador da história do Brasil”. Da história do Brasil?!?

Por maior que seja admiração e o amor filial, João Calmon e Gerson Camata, por exemplo, devem ter se revirado no túmulo, para ficarmos em dois vultos só do Espírito Santo... 

Calma 2

Maguinha é o reflexo perfeito do pai (na fisionomia, no timbre de voz e na ideologia). Precisa tomar cuidado para não assimilar também o antigo hábito de Magno de lançar números e informações, tiradas não se sabe de onde, pensando que ninguém vai perceber.

“Proporcionalmente, o Espírito Santo é o estado onde Bolsonaro mais teve votos”, afirmou a publicitária.

Isso não é verdade. 


No 2º turno em 2022, o Espírito Santo foi só a 10ª unidade da federação onde Bolsonaro alcançou a maior votação percentual.

Porporcionalmente, ele teve mais votos em Santa Catarina, Paraná, Goiás, Distrito Federal, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rondônia, Acre e Roraima.

Magno “lê carta”

Em seu longo discurso (mais de 20 minutos, muito mais que o próprio Flávio Bolsonaro), Magno na verdade vestiu a pele de pastor e fez praticamente uma pregação. No início, ele “leu uma carta” para Jair Bolsonaro. As palavras foram improvisadas, mas o senador falou como se dirigisse ao ex-presidente. Depois, leu a cartilha do bolsonarismo.

O senador chamou Moraes de lobista e calhorda; Dias Toffoli, de contraventor. Afirmou que houve fraude nas urnas em 2022, que Lula colocou o Brasil no “eixo do mal” e que “a esquerda precisa ser extirpada ad eternum”. Pregou contra o aborto e a “ideologia de gênero”. “O Brasil, com Flávio Bolsonaro, não será um país que aborta, mas um país que adota”, trocadilhou. 

Magno Malta discursa em encontro estadual do PL
Magno Malta discursa em encontro estadual do PL Fernando Madeira

Momento hipnose

Para um público extremamente fiel e majoritariamente evangélico (ele perguntou quem o era, e os evangélicos levantaram a mão), Magno mostrou grande domínio de palco e, em dados momentos, pareceu um guru espiritual ou hipnotizador de plateias. Mandou as pessoas repetirem o que ele dizia. E todos assim fizeram, obedientemente.  

“Digam: ‘A primeira eleição é Senado’.” Todos repetiram.

“Falem comigo: ‘Deus tirou a tampa da fossa’.” Idem.


“E mostrou toda a sujeira”. Idem.


Catequização.

Comentarista esportivo

Magno também expôs algumas exóticas teses conspiratórias futebolísticas. Na véspera da final da Copa, defendeu que era preciso torcer pela Argentina “porque Milei tem que se reeleger” (faltou combinar com os espanhóis).


O senador afirmou que o jogador Neymar (recuperando-se de lesão em plena Copa, sem ritmo e sem condições físicas de suportar a intensidade de uma partida inteira) “foi privado de entrar em campo por ser cristão e conservador”. “Ele paga um preço, paga até hoje a perseguição por ser cristão!” (Ancelotti não deve passar de um comunista, descendente dos partigiani). 


Superando-se, Magno declarou que “Gilmar Mendes já tomou até a Fifa”. 

Exército de pitbulls sem vacina

Segundo Magno, durante a campanha eleitoral, o PL precisa ter “45 pitbulls que nunca foram vacinados e que mordem. É, aproximadamente, o número de candidatos a deputado estadual e a deputado federal que o partido terá no Espírito Santo (o número preciso é 42, sendo 31 na chapa estadual e 11 na federal).


Cachorro não vacinado corre o risco de contrair raiva, mas imunização não é mesmo o forte nesse segmento ideológico... 

Recados para o mercado político

“Ninguém põe faca na minha garganta”, avisou Magno ao mercado político e, inclusive, a aliados e correligionários.

O prefeito Lorenzo Pazolini e o presidente estadual do Republicanos, Erick Musso, estavam presentes, sentados ao palco, e ouviram tudo de perto. 

Meta eleitoral

Segundo Magno, o PL tem condições de eleger três dos 10 deputados federais do Espírito Santo. Será difícil. Mas, se Gilvan da Federal conseguir ser candidato (a depender da decisão final do TSE), será plausível chegar a dois. 


No evento, o deputado profetizou que será o federal mais votado no Estado. 

Flávio, ao lado de Magno, beija imagem do pai, Jair Bolsonaro
Flávio, ao lado de Magno, beija imagem do pai, Jair Bolsonaro Fernando Madeira

Flávio: salmo e versículos

Bem mais curta, a fala de Flávio também foi entremeada por passagens bíblicas. Ele leu dois versículos (Josué 1:9 e Romanos 12:19) e recitou o salmo “o choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã”. “Não sou pastor, não”, explicou-se. Mas até pareceu. 

Flávio sobre Moraes

O senador do Rio de Janeiro também centrou fogo em Alexandre de Moraes, a quem chamou de “tirano”, “sem alma” e “demônio”. “Peço a Deus que possa resgatar aquela alma.”

“Sangue de Bolsonaro” e palavrão

Ainda no tópico Moraes, o senador foi da “oração” pelo ministro a um palavrão. Batendo com uma mão no pulso do outro braço, gritou: “Aqui tem sangue de Bolsonaro nesta p****!”

“Sou conhecido na política como uma pessoa ponderada, que busca construir pontes. E vou continuar sendo assim. Mas não vou baixar a cabeça para um tirano, que se acha acima da lei, enterrando a Constituição!”

Flávio sobre Lula

O filho de Bolsonaro ainda chamou o presidente Lula (PT) de “bandido”. “Está tudo de pernas pro ar no Brasil. O inocente está preso, e o bandido está presidindo o país.”

Ameaça velada a federais

Como de hábito, Flávio prometeu anistia aos “perseguidos do 8 de janeiro”. E fez uma ameaça velada a parcela dos policiais federais. “Quem tá cumprindo ordens ilegais, a lei vai valer pra vocês!

Flávio Bolsonaro repousa a cabeça no ombro de Maguinha Malta
Flávio Bolsonaro repousa a cabeça no ombro de Maguinha Malta Fernando Madeira

Propostas para segurança

No quesito “propostas objetivas” que têm a ver com a vida dos cidadãos, não houve muitas. Flávio concentrou-se na segurança pública.

Prometeu “combater a criminalidade com pulso firme”, “dobrar o número de presídios federais” e “fazer mudanças na legislação penal pra mudar a pena pra quem é violento”. 

Acenos para as mulheres

Flávio também fez acenos para o eleitorado feminino – que precisa mesmo ser conquistado por ele, pois hoje, em sua maioria, prefere votar em Lula, de acordo com institutos de pesquisa.

“A defesa das mulheres é pauta da direita”, sustentou o filho 01, que se comprometeu de público a incluir em seu plano de governo iniciativas da Prefeitura de Vitória voltadas ao combate ao feminicídio, a pedido de Lorenzo Pazolini.


“Compartilho as tarefas de casa com minha esposa”, informou o presidenciável. “Os homens são mais fortes. As mulheres são mais inteligentes”, disse, em outro momento, em visível esforço para ganhar a simpatia do “sexo oposto”.

Não era preciso tanto esforço, já que as mulheres que estavam no evento, se estavam ali, é porque já votam nele. E o fariam mesmo que ele dissesse não lavar uma louça em casa e admitisse que, na média, homens e mulheres têm a mesma capacidade intelectual. 

De impostos e impostores

Muito de passagem, Flávio também defendeu o fim da reeleição para presidente e a redução de impostos (com um trocadilho duvidoso): “Vamos reduzir impostos. O atual governo é o mais ‘impostor’”. 

“Fica aí, Magno!”

Último a discursar, após quase três horas de espera, Flávio não escondeu seu desconforto com a demora de Magno ao microfone. No ápice do próprio discurso, quando chamou Maguinha para cantar com ele, pediu a Magno para não fazer o mesmo:

“Fica aí, Magno, que você já falou muito! Se você voltar aqui, vai querer falar mais...”

No desfecho, ainda alfinetou: “Não vou fazer igual ao Magno que se despediu três vezes antes de devolver o microfone”.

Tornozeleira eletrônica

Durante parte do evento, o vereador de Vitória Armandinho Fontoura (PL) circulou entre a plateia com a tornozeleira eletrônica à mostra, acima da bainha da calça. O dispositivo é usado por ele, desde dezembro de 2023, por ordem de Moraes.

Leia mais colunas de Vitor Vogas

Maguinha e Magno: culto eleitoral, Deus a cada 25 segundos e “pitbulls sem vacina”

Para bailar la bamba: o que explica o novo passo do partido de Hartung e Meneguelli

Paulo Hartung de volta ao jogo: PSD pode lançar chapa com ex-governador e Meneguelli

Magnum periculum: os riscos, para Pazolini, da união com o PL, Flávio e Magno

Chapa Bolsolini formada: o que Pazolini ganha a partir do abraço em Flávio Bolsonaro

Candidata a vice de Helder está definida. Veja aqui o perfil dela

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Supermercado (na projeção ao centro) ficará ao lado do Terminal de Itaparica, em Vila Velha
Audiência pública discute instalação de supermercado ao lado do Terminal de Itaparica
Imagem de destaque
'Essa decisão não tem retorno', diz Vidigal ao descartar candidatura em 2026 e 2028
Imagem de destaque
Tarot do dia: previsão para os 12 signos em 21/07/2026

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados