A aliança entre o PL e o Republicanos foi fechada e lacrada
na manhã de sábado (18), com a presença de Lorenzo Pazolini no encontro
estadual do PL estrelado por Flávio Bolsonaro em Vitória e com as declarações
públicas de apoio mútuo entre o ex-prefeito de Vitória e o filho 01 de Jair
Bolsonaro.
Pazolini apoiará Flávio à Presidência da República e garantiu à coluna que não será um apoio protocolar: disse que “com certeza” fará campanha para ele. Em troca,
Flávio passa a apoiar Pazolini para governador.
No Espírito Santo, as duas partes queriam, precisavam e têm
muito a ganhar com essa união de forças (embora a parceria com o partido
bolsonarista também traga embutidos alguns riscos e possa ocultar algumas
armadilhas lá na frente, no decorrer da campanha).
Para o próprio Pazolini, os ganhos políticos são muitos.
Desde que começou essa construção (logo após as eleições municipais de 2024,
quando o foco dos políticos e dirigentes se voltou para as eleições estaduais
seguintes), o Republicanos, representado por Erick Musso, sempre priorizou a
meta de ter o PL no palanque liderado por Pazolini. Sempre. Agora, essa meta é
atingida.
Em primeiro lugar, garantindo o PL em sua coligação,
Pazolini elimina o risco de ter de competir com um candidato do próprio PL, o
que poderia arruinar seus planos de se apresentar como o principal candidato da
direita capixaba. Evita uma fragmentação das forças posicionadas da direita
para a extrema-direita bolsonarista, bem como dos votos dos eleitores mais
identificados com esse campo – numerosos no Espírito Santo.
Desde meados do ano passado, não foram poucas as vezes em
que o próprio Magno Malta ameaçou lançar candidatura do PL ao Palácio Anchieta.
Chegou a apresentar a si mesmo para a missão, em entrevista dada a este
colunista em 2025, caso concluísse que não havia nenhum candidato
verdadeiramente comprometido com a agenda bolsonarista – ou, como o senador
prefere, com os “valores da direita”.
Com mais quatro anos de mandato pela frente no Senado e sem
precisar renunciar, Magno não teria muito a perder...
Tudo pode nunca ter passado de um grande blefe do senador,
só para pressionar Pazolini a aceitar seus termos, deixando o acordo com o
Republicanos do jeito que ele gostaria, ou o mais próximo possível do desenho
ideal para ele? É bem provável que sim.
Para alguns players
do próprio PL, Magno nunca quis de fato ser candidato a governador. “Tinha medo
de ganhar”, chega a troçar um deles.
Nessa (remota) hipótese de vitória, o senador talvez nem soubesse
o que fazer no Palácio Anchieta... Está realizado no Senado, Casa habitada por
ele há 20 anos, tem mais quatro de mandato garantidos e deseja prosseguir por
mais tempo – de preferência, com a filha Maguinha ao seu lado, conforme ele
tanto idealiza. É lá em Brasília que estão suas batalhas e moinhos.
Por outro lado, se Pazolini não cedesse a seus “pedidos” –
apoio incondicional a Maguinha para o Senado, apoio declarado a Flávio
Bolsonaro, alinhamento do discurso e defesa de pautas bolsonaristas –, Magno
seria mesmo capaz de lançar outro correligionário ao governo, só para erguer um
palanque para Flávio no Espírito Santo e fazer, na campanha estadual, a defesa
de Jair Bolsonaro. Era bem capaz. E essa hipótese representava um risco para
Pazolini, agora inteiramente anulado.
Ao mesmo tempo, uma vez estabelecido como o candidato do PL e de Flávio, apoiado
não só pelo partido dos Bolsonaro como pessoalmente pelo 01, Pazolini
naturalmente tende a atrair, por gravidade, os votos daqueles eleitores mais
ideologicamente identificados com a cartilha bolsonarista e mais apaixonados pela
figura do ex-presidente.
Simplificando: passa a ser o candidato natural do eleitor de
Bolsonaro que só vota em candidatos do Bolsonaro. No Espírito Santo, não são
poucos.
Parêntese: a
dificuldade imposta a Ricardo
Aqui, o governador Ricardo Ferraço (MDB), posicionado em
algum outro ponto do espectro de direita, passa a ter um desafio a superar.
Mais que acenos, Ricardo tem feito gestos de inflexão rumo à
direita bolsonarista, mostrando simpatia por algumas pautas caras à
extrema-direita. A estratégia parece muito clara: quer disputar parcelas do
espólio desse numeroso eleitorado capixaba “bolsonarista raiz”, que se viu meio
órfão, carente de referências, desde o duplo revés de Manato para Casagrande em
2018 e 2022.
Agora, isso fica mais difícil para o atual incumbente, na
medida em que Pazolini passa a ser, oficialmente, o candidato de Flávio
Bolsonaro, colocando, assim, um calço na porta que Ricardo vem tentando
entreabrir. Esta é outra evidente vantagem que a aliança com o PL proporciona
ao ex-prefeito de Vitória.
Recursos, tempo de TV
e “exército de pitbulls sem vacina”
Outros benefícios para Pazolini são de ordem absolutamente
prática: o PL robustece, e muito, sua campanha a governador, em termos
políticos, financeiros e estruturais.
Com 97 deputados federais ao fim da última janela partidária
(início de abril), o PL terá direito à maior fatia do Fundo Eleitoral e ao
maior tempo de propaganda de rádio e TV no horário eleitoral gratuito, a
estrear em 28 de agosto.
Com isso (somando o tempo de Republicanos e PSD, siglas com
bancadas de bom porte), Pazolini conseguirá, no mínimo, equilibrar o jogo com
Ricardo nos meios de comunicação de massa, se não o superar na soma dos
segundos.
Além disso, um autêntico exército de apoiadores, com
ramificações em todo o Estado, incorpora-se, a partir de hoje, à campanha do
ex-prefeito de Vitória. O Republicanos tem chapas competitivas para a
Assembleia Legislativa e a Câmara dos Deputados, mas um partido só não faz
verão na primavera eleitoral.
O PL também tem chapas completas e bastante competitivas
para a Ales e a Câmara (quer eleger pelo menos 6 estaduais e dois federais no
Espírito Santo). Salvo um ou outro que não se dão com Pazolini, serão cerca de
40 pré-candidatos pedindo votos para si e para ele, uma matilha de “pitbulls sem vacina”, como costuma dizer
Magno Malta.
Em solo capixaba, o partido de Magno tem, ainda, cinco
prefeitos (todos no interior), alguns vice-prefeitos e mais de 50 vereadores
espalhados de norte a sul do Estado, inclusive na Grande Vitória. Está
organizado em mais de 60 diretórios municipais.
Isso tende a dar a Pazolini uma capilaridade de que sua
campanha carece, notadamente no interior. São os “vasos sanguíneos
comunicantes”, para bombear sua mensagem e seu nome aonde ele não consegue
chegar.
Neutralização de
críticos bolsonaristas
Com o PL sob sua tenda, Pazolini ainda neutraliza potenciais
ataques indesejados e críticas inconvenientes para ele durante a campanha por
parte de mandatários do PL que são seus conhecidos desafetos, como o vereador
Dárcio Bracarense (um dos maiores entusiastas da ideia, ora sepultada, de
lançar Magno ao governo) e o deputado estadual Capitão Assumção.
Este último, em 2024, foi adversário eleitoral de Pazolini na disputa pela Prefeitura de Vitória. Mal votado nas urnas, fez muito barulho antes e durante a campanha, firmando-se como um algoz de Pazolini. Em um debate, ao qual o então prefeito faltou, o deputado chegou a chamá-lo por termos como “histrião”. No seguinte, da Rede Gazeta, fez-lhe provocações como “apareceu a Margarida”.
Para evitar problemas internos e acusações de incoerência,
Assumção, Dárcio e as respectivas verves ficam agora neutralizadas durante o
período de campanha.
Estagnação e fato
novo
Por último, mas não menos importante, a adesão do PL e o
selo de “candidato do Flávio” chegam para Pazolini num momento oportuno para
ele, no qual o pré-candidato de fato precisava gerar um “fato novo” com o poder
de impulsionar sua campanha.
A menos de um mês para o tiro de largada oficial, a última pesquisa Quaest, divulgada pela
Rede Gazeta na quinta-feira (16), mostrou um candidato altamente
competitivo, em ótima posição de partida, mas com índices de intenção de voto
estagnados desde a rodada anterior do instituto, publicada no dia 30 de abril.
Enquanto isso, Ricardo vem crescendo, e sua vantagem para
ele subiu.