Os mitos são construções discursivas que fazem parte da história de todas as civilizações desde os seus primórdios. São estórias e invenções altamente sofisticadas, demonstrativas da capacidade humana de elaborar o pensamento criando explicações para fenômenos que não compreendiam ou para aquilo que lhes parecia ser conveniente ou necessário.
Diferentemente do que muitos pensam, os mitos não são a representação da ignorância humana ou de sua incapacidade em pensar a realidade. Eles foram importantes no processo de avanço civilizatório rumo à compreensão do universo e de suas complexas e sofisticadas conexões.
Dessa tentativa lenta de compreensão do universo e de como o cosmos se organizava, até chegarmos à ciência como modo de explicar a realidade, os mitos tiveram um papel relevante e prestaram um importante serviço à humanidade.
A mitologia grega, por exemplo, nos forneceu um arsenal importante desse processo de construção mítica que deveria, em minha opinião, ser objeto de estudo nas escolas e nas universidades.
Ao mesmo tempo, o homem e suas instituições se apropriaram dessa ferramenta de produção mitológica para produzir mitos que lhes permitissem alcançar seus objetivos e interesses próprios, de forma a produzir uma cultura que lhes fosse mais favorável, benéfica e conveniente do que a outros.
Essa construção mítica, baseada em uma tentativa conveniente de valorizar alguns grupos e desvalorizar outros, produzindo desigualdades e injustiças, nada teve a ver com a construção mitológica do passado que buscava, por meio deles compreender o universo e suas complexidades.
Muitos desses mitos vêm sendo transmitidos de geração em geração, sustentando comportamentos inadequados que se apoiam em pressupostos sem qualquer elemento de razão que possa servir como argumento para sua manutenção.
É papel da ciência, e das instituições comprometidas com a verdade e com a justiça, questionar mitos que sustentam culturas discriminatórias, desvelando suas reais intencionalidades e colocando em suspensão e suspeição os interesses daqueles aos quais os respectivos mitos privilegiam.
Insiro nesse rol o mito da superioridade racional masculina sobre as mulheres que é propagado como se fosse uma verdade validada cientificamente, o que, de fato, considerando todas as evidências, não corresponde à verdade.
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Os números indicam que a racionalidade, capacidade humana de pensar, julgar e agir com base na lógica e não nos instintos e nas emoções, não caracteriza o comportamento dos homens em geral, o que coloca em xeque o mito da racionalidade masculina.
Basta para isso que acompanhemos algumas estatísticas de fácil compreensão para todos, independentemente de formação científica ou capacidade de leitura de dados.
Na era do conhecimento e da ciência, as informações precisam ser validadas pelos números e a verdade constituída por elementos de base racional e não mítica.
O mito de que homens são de marte e mulheres são de vênus é uma dessas construções discursivas que procuram destinar às mulheres um lugar de fragilidade emocional e falta de racionalidade que em nada corresponde à verdade.
Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que em dias de jogo o número de Boletins de Ocorrência relacionados a ameaça contra mulheres aumenta em torno de 23% e os de lesão corporal aumenta 20,8%. Se o mito da racionalidade masculina fosse de fato representação fática da verdade, homens estariam no controle de suas frustrações.
Em finais de semana com jogos, especialmente aos domingos, esses números aumentam ainda mais. Os homens não suportam a o sentimento de perda quando seus times são desclassificados e reagem de forma agressiva, violenta e absolutamente sem controle de suas emoções.
Entre chorar, que eventualmente possa caracterizar uma demonstração de fragilidade emocional das mulheres, os homens reagem, matando, violentando, bebendo, destruindo patrimônio e agredindo suas esposas e filhos. A emoção masculina se manifesta com alto grau de letalidade, enquanto a das mulheres, não.
Não há que se falar, portanto, em racionalidade masculina e fragilidade emocional das mulheres. A razão produz controle das emoções e não descontrole delas, como acontece com os homens.
O mito machista de que “mulher no volante, perigo constante” não se sustenta na ciência. As estatísticas apontam que o número de acidentes envolvendo homens ao volante é infinitamente superior ao de mulheres. Esse dado se confirma na própria política dos seguros de carros que dão descontos diferenciados para mulheres, considerando seu baixo envolvimento em acidentes e pagamento de sinistros.
Pesquisa realizada pela Unicamp comprova que, entre 2021 e 2022, foram registradas 183% mais colisões de motoristas homens do que mulheres. Homens representam entre 73% à quase 90% das vítimas fatais nas ruas e nas estradas.
A violência masculina no trânsito é conhecida por todos e se traduz em xingamentos, brigas, intolerância, alta velocidade com ultrapassagens indevidas, fechadas e acidentes com mortes violências.
Tratar a violência e o descontrole dos homens diante das frustrações, já reconhecidas no fenômeno da feminicídio, por exemplo, como racionalidade, e o eventual choro feminino como histeria e falta de racionalidade é sustentar um mito que precisa ser denunciado e desconstruído.
Questionar discursos naturalizados e alimentadores de mitos que não se sustentam na ciência precisa se constituir estratégia para o alcance da verdade e da justiça de gênero. A superioridade racional masculina é um mito que precisa se denunciado e temos todos os dados que nos são fornecidos pela ciência para fazê-lo.