Este texto não tem a finalidade de fazer análises sobre o futebol. Entendo muito pouco, ou melhor dizendo, nada, sobre esse assunto. O texto se destina a discutir as questões de natureza ética que estão na órbita desse esporte que empolga milhões de pessoas ao redor do mundo, despertando sentimentos nacionalistas em adultos e crianças e unindo pessoas em empolgantes comemorações ou em coletivas e tristes decepções, como a que viveram os brasileiros ao final do jogo no último domingo (5).
Estava em um voo enquanto o jogo acontecia e a bola rolava no gramado. Vi e ouvi, durante o trajeto, diversos adultos e crianças torcendo empolgadamente pelo Brasil, até que a decepção se instalou e o martelo foi batido: O Brasil estava fora da Copa do Mundo.
A raiva e a decepção começaram a se manifestar de diversas formas naquele momento. Adultos irritados, crianças chorando, dois meninos ainda muito pequenos manifestando sua profunda dor com a desclassificação do Brasil na Copa.
Essa face visível, conhecida por todos e representativa de bons sentimentos, que ao longo da história alimentou o imaginário social dos que acompanham esse esporte, está longe de corresponder à realidade atual.
A verdade, crua e nua, é que o futebol se transformou radicalmente, deixando para trás histórias de superação, de arte, de honradez e de emoções genuínas, para se transformar em uma fábrica de jovens meninos adoecidos pela ambição da fama, do dinheiro fácil, do poder e dos sentimentos de superioridade sobre tudo e sobre todos.
Meninos cujo sistema opera no sentido de transformar em delinquentes alguns, cujos princípios morais que porventura tivessem trazido de suas histórias pregressas são jogados ao vento, trocados agora pelos dólares que alimentam suas recheadas contas bancárias.
Meninos que abandonaram, muitos deles, os mais elementares princípios éticos e morais ligados às práticas desportivas, tornando-se um bando de alienados que se movimentam guiados pelo desejo de ganhar sempre mais e mais, submetendo pessoas aos seus mais abjetos desejos de poder, de transgressão às normas, na medida em que continuam a gozar do prestígio, que sua condição de “melhores jogadores do mundo” lhes garante.
A indústria futebolística transforma jogadores, pessoas normais, em “heróis” da noite para o dia, sem que tenham feito qualquer ato de heroísmo que assim pudesse ser considerado.
Ser herói, no sentido clássico da palavra, implica ser alguém com atributos morais excepcionais que o levem a ser objeto de nossa profunda admiração e que representem nossos mais elevados valores e virtudes, a servirem de modelo, de paradigma dos mais jovens que nele possam se espelhar.
Ser herói pode, ainda, representar alguém capaz de escrever um capítulo da história pessoal ou social, invejável, de natureza ética e moral compatível com sentimentos de bondade, solidariedade, justiça, bravura e tantas outras virtudes consideradas carregadas de nossas mais profundas convicções de nobreza e honradez.
Jogadores de futebol se transformaram em “heróis” sem bravura, sem nobreza, sem atos que os enquadrem nos qualificadores morais que assim poderiam lhes ser atribuídos. São heróis sem honra. Precisamos escolher melhor os nossos heróis. Um herói pode perder a guerra, sair derrotado, mas manter a dignidade, a altivez moral de quem não se vende ao inimigo e não se iguala aos desprovidos de virtudes nobres.
Nossos jogadores de futebol, são, muitos deles, anti-heróis na verdadeira acepção do termo. Desprovidos das virtudes que caracterizam os heróis, tais como moralidade, coragem, altruísmo, bondade, têm sido reconhecidos e referenciados, a partir de suas não virtudes.
Nossos meninos “heróis”, admirados e invejados por nossos filhos, netos e por muitos adultos, são, na prática, anti-heróis, descomprometidos com as virtudes morais que caracterizam um homem digno.
Muitos deles têm se vendido às bets que transformaram toda uma geração em prisioneira do vício no jogo, se afundando em dívidas e depressão, enquanto uns poucos enriquecem à custa de tantos, destruindo famílias inteiras, levando muitos à criminalidade e à autodestruição, socialmente validadas pelo Estado e por aqueles que dominam o poder econômico.
São anti-heróis, denunciados, alguns, por violências contra as mulheres, por estupros, por violações de normas ambientais, na medida em que constroem suas mansões em áreas de proteção ambiental e tantos outros desvios jurídicos e éticos inaceitáveis como qualificadores para a ascensão ao patamar de honra ao qual só deveriam ascender os detentores de virtudes morais elevadas compatível com honra e dignidade.
O espetáculo protagonizado por Neymar no final do jogo do Brasil com a Noruega, não é o espetáculo de um futebol-arte como os que assistimos com Pelé, Garrincha e tantos outros. Mas o que esperar de uma Copa realizada no centro da imoralidade e da falta de compromisso com os princípios básicos da civilidade democrática?
Também não é o futebol técnico hoje disseminado e dominado por tantos. O espetáculo de Neymar no campo é o show de um anti-herói que nos envergonha, empobrece como nação e mostra que um novo futebol precisa ser valorizado e apoiado pelos brasileiros.
Nossos jovens precisam de exemplos nos quais possam se mirar. Exemplos que sejam referências morais e não anti-heróis que nos envergonham e empobrecem em dignidade e honra.
A Copa do Mundo não é sobre técnica, é sobre ética, sobre moralidade, sobre dignidade. É sobre integridade e justiça.