Há doze anos, em entrevista à jornalista Bety Feliz, fui perguntado sobre qual seria, como arquiteto, a principal prioridade para melhorar a qualidade de vida em Vitória. Respondi sem hesitar: o Centro Histórico.
Na ocasião, afirmei que a recuperação daquela área dependeria de um macroplanejamento regional. Nunca me pareceu suficiente restaurar este ou aquele edifício histórico sem antes enfrentar uma questão essencial: como retirar o trânsito de passagem da Avenida Jerônimo Monteiro?
Somente a partir dessa resposta seria possível planejar a recuperação física, histórica e cultural daquele espaço tão belo e, ao mesmo tempo, tão maltratado. Assim, o Centro poderia voltar a ser um lugar de convivência, inclusão e plena fruição do espaço público.
Essa convicção permanece a mesma.
Como cidadão capixaba que morou no Centro de Vitória, arquiteto há 46 anos, vencedor, em 1980, do concurso público para a restauração do Mercado da Capixaba, coordenador da Divisão de Patrimônio Histórico e Cultural do Estado durante oito anos, vice-presidente do Conselho Estadual de Cultura e autor do projeto de restauração do Relógio da Praça Oito, guardo profundo apreço pelo Centro de Vitória e acompanho, com preocupação, as recentes propostas divulgadas para facilitar novas construções naquela região.
As reportagens informam medidas como a venda de potencial construtivo e novas regras para a recuperação de imóveis. Uma delas afirma que será possível construir mais em determinado terreno a partir do potencial não utilizado em outro, sem aumento da densidade urbana.
Mas surgem algumas perguntas inevitáveis. De qual densidade estamos falando: da existente ou da prevista no Plano Diretor Urbano? O PDU tratou o Centro como uma área diferenciada, considerando seu patrimônio histórico e as limitações de sua infraestrutura viária?
Também é preciso considerar que, ao intenso trânsito de passagem existente hoje, poderá ser acrescentado o trânsito gerado por novos empreendimentos. Isso ampliará a demanda sobre as redes de drenagem, abastecimento de água, esgotamento sanitário, calçadas e sistema viário.
Por isso, acredito que a revitalização do Centro de Vitória exige coragem para reconhecer que ela não será alcançada por ações pontuais, mas por um verdadeiro macroplanejamento urbanístico que considere o Centro como um conjunto integrado.
Ouso imaginar que parte da solução para o trânsito esteja na implantação de uma nova Beira-Mar, ligando a região do Saldanha ao final do Porto de Vitória, absorvendo o tráfego de passagem e permitindo que avenidas como Jerônimo Monteiro e Princesa Isabel atendam prioritariamente ao trânsito local. Aos especialistas cabe aprofundar essa discussão.
Trocar a restauração de imóveis históricos pelo aumento da área construída em seu entorno não me parece justificável. Restaurar é indispensável, mas antes devemos perguntar: restaurar para quê? As paredes de pedra e cal do passado precisam abrigar as necessidades humanas do presente. A restauração deve ser entendida como instrumento de qualificação da vida urbana, e não como um fim em si mesma.
Tudo o que for realizado no Centro deve priorizar as pessoas que ali vivem, trabalham e circulam. Caso contrário, corre-se o risco de promover um processo de exclusão justamente daqueles que dão vida à região.
A jornalista Monica Barbosa, de São Paulo, lembra que pesquisas indicam que grande parte dos edifícios existentes em 2050 já estará construída, tornando a transformação desse patrimônio uma das principais agendas da arquitetura contemporânea.
Na mesma linha, o conceituado arquiteto paulista Eduardo Longo afirma que a arquitetura do futuro será construída a partir do estoque existente e que demolir para construir indiscriminadamente revela pouca consciência ambiental e pouca sensibilidade em relação à memória das cidades.
Estamos, portanto, falando de restauração e retrofit: duas intervenções distintas, porém complementares, ambas indispensáveis à recuperação do Centro de Vitória.
Entendo que novos edifícios poderão surgir ao longo de uma futura Beira-Mar, ocupando os poucos terrenos ainda disponíveis, desde que inseridos no macroplanejamento já citado, que tenha pensado previamente o trânsito, a preservação do patrimônio, o retrofit das edificações existentes e, sobretudo, os objetivos sociais dessas transformações.
Em uma área urbana tão singular, seria desejável que as novas edificações dialogassem com o entorno urbano imediato, coisa rara na arquitetura residencial e comercial brasileira contemporânea, quase sempre tão autocentrada.
Por fim, faço questão de registrar que reconheço e valorizo a importância do mercado imobiliário como gerador de emprego, renda e desenvolvimento urbano. Entretanto, o Centro de Vitória possui características únicas que exigem especial cautela.
Empreendedorismo e humanismo precisam caminhar juntos para que o maior beneficiado seja, sempre, o cidadão que vive, trabalha e constrói diariamente a história do Centro de Vitória.