O Brasil não pode mais adiar suas escolhas. Embora reúna vantagens comparativas importantes – como riqueza natural, matriz energética limpa, mercado consumidor relevante e capacidade produtiva –, o país ainda não consegue transformar esse potencial em desenvolvimento socioeconômico e competitividade.
O alerta mais recente veio do Ranking Mundial de Competitividade 2026, no qual o Brasil caiu sete posições em apenas um ano, passando da 58ª para a 65ª colocação entre 70 países. O resultado reflete uma trajetória marcada por decisões adiadas, baixa produtividade, ambiente de negócios pouco previsível e perda de protagonismo industrial.
A pergunta central não é se o país tem condições de avançar. Sabemos que tem. A questão é: por que esse potencial não se transforma, de forma sustentada, em produtividade, renda, inovação e crescimento?
Para entender esse desafio, é preciso olhar para as últimas décadas. Desde os anos 1980, enquanto países como Índia, México e Coreia do Sul avançaram em estratégias produtivas, tecnológicas e educacionais, o Brasil perdeu densidade industrial. A participação da indústria de transformação no PIB nacional caiu de 35,9%, em 1980, para 12,4%, em 2024.
Em vez de avançarmos, tivemos uma desindustrialização precoce, que fez o país perder densidade produtiva, reduzir o adensamento de suas cadeias, diminuir sua capacidade de gerar empregos mais qualificados e ampliar sua dependência da exportação de produtos de menor valor agregado.
Esse movimento também aparece na pauta exportadora brasileira. Segundo a United Nations Industrial Development Organization , a participação dos manufaturados nas exportações do Brasil caiu de 74%, em 1990, para 49%, em 2023. No mesmo período, países como Chile, África do Sul, México e Índia ampliaram essa participação e superaram o patamar brasileiro.
A riqueza natural do nosso país é extraordinária, mas não basta vender commodities. Nações desenvolvidas transformam recursos em tecnologia, conhecimento, produtos sofisticados, marcas, máquinas, equipamentos e soluções industriais.
Uma indústria de transformação forte é essencial para gerar inovação, produtividade, empregos qualificados e crescimento de longo prazo. Quando ela perde espaço, o país perde também capacidade de competir e participar das cadeias globais de valor.
A perda de competitividade também está ligada a gargalos históricos, como deficiência em infraestrutura, baixa integração logística e déficit de investimentos. Segundo o Banco Mundial, os investimentos em infraestrutura perderam dinamismo desde os anos 1980, ampliando a defasagem de qualidade do Brasil frente a economias emergentes, como Chile, México, África do Sul e Rússia.
Em 2025, o Brasil investiu R$ 280 bilhões em infraestrutura, mas a necessidade estimada é de quase R$ 500 bilhões por ano durante uma década, segundo a Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (ABDIB). Para atender às necessidades de infraestrutura logística, o país precisaria manter esse patamar elevado de investimento.
Competitividade também depende de instituições que garantam previsibilidade e segurança para quem produz e investe. A reforma trabalhista foi um avanço, mas enfrenta inseguranças. A reforma tributária demorou a avançar, mas foi aprovada. Agora, sua implementação precisa evitar que o país substitua um sistema complexo por outro igualmente pesado, capaz de encarecer a produção e limitar o investimento. A reforma administrativa, por sua vez, segue parada, mantendo ineficiências que elevam o custo do setor produtivo.
O Brasil não ficou para trás por falta de recursos, talento ou oportunidades. Ficou para trás porque adiou escolhas decisivas: reformas, investimentos, produtividade, inovação e uma estratégia consistente de desenvolvimento industrial.
Ainda há tempo. A nova disputa global por energia limpa, minerais críticos, inteligência artificial, bioeconomia, digitalização e cadeias industriais resilientes dá ao Brasil uma oportunidade rara: deixar de ser apenas fornecedor de recursos e passar a ser produtor de soluções.
O Brasil não precisa escolher entre crescer e se modernizar. Precisa entender que só crescerá de forma sustentada se modernizar sua estrutura produtiva. Competitividade não é retórica, é infraestrutura, educação, tecnologia, segurança jurídica, produtividade e indústria forte. O país já tem os ativos. Falta estratégia para transformá-los. E essa escolha não pode ser, mais uma vez, adiada.