O que uma árvore feita de microalgas, uma bicicleta que tritura plástico e um banco produzido com quase 6 mil tampinhas têm em comum? Todos são exemplos de como os resíduos podem ganhar uma nova vida por meio da economia circular e estarão em exposição na próxima terça-feira (21), na Findes, em Vitória, durante a terceira etapa do Roadshow Ambição Circular 2026.
Escolhido para representar a Região Sudeste no circuito, o Espírito Santo passa a integrar uma agenda nacional que já percorreu Porto Alegre (RS) e Brasília (DF) e ainda seguirá para Salvador (BA) e Manaus (AM). O objetivo é construir um plano integrado para acelerar a transição da indústria brasileira para um modelo mais circular até o fim de 2026.
A economia circular propõe substituir o modelo tradicional de produzir, consumir e descartar por outro em que resíduos retornam à cadeia produtiva como matéria-prima para novos produtos. Em um cenário de maior exigência dos mercados internacionais por práticas sustentáveis, o tema deixa de ser apenas uma pauta ambiental e passa a integrar a estratégia de competitividade da indústria.
Segundo a presidente do Instituto Marca Ambiental e embaixadora do HubEC no Espírito Santo, Mirela Souto, o Estado reúne condições para assumir protagonismo nessa transição. "Não estamos falando apenas de sustentabilidade, estamos falando de competitividade, de acesso a novos mercados e de um novo modelo de desenvolvimento que gera empregos e riqueza de forma mais inteligente", afirma.
Um dos principais atrativos do encontro será justamente a mostra de iniciativas capixabas que demonstram, na prática, como os resíduos podem ser transformados em produtos, renda e inovação. Confira algumas delas:
Árvore líquida que captura carbono
Entre as atrações está uma árvore líquida, desenvolvida pela GreenWay, que utiliza microalgas para retirar dióxido de carbono (CO₂) da atmosfera. Segundo a empresa, cada equipamento pode capturar até duas toneladas de carbono por ano, enquanto dez unidades têm capacidade equivalente à absorção realizada por cerca de 500 árvores convencionais.
A biomassa produzida pelas microalgas pode ser utilizada na fabricação de biofertilizantes, biocombustíveis, cosméticos e produtos para nutrição animal.
Bicicleta que tritura plástico
Outra atração é uma bicicleta adaptada que permite triturar tampinhas plásticas enquanto é pedalada. O material processado se transforma em matéria-prima para novos produtos.
A iniciativa é da Fantástica Carpintaria, laboratório de reciclagem criativa que também apresentará peças produzidas a partir de resíduos plásticos, como:
Bancos fabricados com cerca de 380 copos descartáveis reciclados;
Bancos feitos com aproximadamente 5.867 tampinhas plásticas;
Cadeiras produzidas a partir de cestos plásticos reutilizados.
Além da reciclagem, o projeto desenvolve ações de educação ambiental com escolas e comunidades.
Pneus transformados em novos produtos
A Pneuvix Ambiental levará ao evento exemplos de materiais produzidos a partir da reciclagem de pneus inservíveis.
A empresa recicla cerca de 6 mil toneladas de pneus por ano, reaproveitando integralmente borracha, aço e nylon. Os materiais reciclados dão origem a produtos como:
Pisos emborrachados;
Anilhas para academias;
Revestimentos para playgrounds;
Gramados sintéticos para campos esportivos.
Resíduos orgânicos viram adubo
A Marca Composto Orgânico apresentará terra vegetal e composto orgânico produzidos a partir de resíduos como podas de árvores, restos orgânicos e resíduos animais.
Somente no primeiro semestre deste ano, mais de 5,7 mil toneladas de resíduos foram destinadas ao processo de compostagem da empresa, transformando o que seria descarte em insumos para agricultura e jardinagem.
Selo para a indústria moveleira
Outro destaque será o lançamento do Selo de Circularidade da Indústria Moveleira, desenvolvido por pesquisadores do Ifes.
A certificação avalia o grau de maturidade das empresas em práticas de economia circular e poderá servir como diferencial competitivo, facilitando o acesso a certificações internacionais e, futuramente, a incentivos fiscais.
Economia circular avança no Brasil
A discussão sobre economia circular ganha espaço em meio ao avanço de políticas públicas voltadas ao tema e ao aumento das exigências ambientais do mercado internacional. Nos últimos anos, o Brasil criou a Estratégia Nacional de Economia Circular e aprovou o Plano Nacional de Economia Circular, enquanto países europeus passaram a adotar regras mais rígidas para produtos importados, como mecanismos de taxação de carbono e exigências de ecodesign.
Na prática, essas mudanças pressionam empresas a reduzir desperdícios, ampliar o reaproveitamento de materiais e tornar seus processos mais sustentáveis para manter a competitividade. É nesse contexto que iniciativas como o Roadshow Ambição Circular buscam aproximar empresas, pesquisadores e gestores públicos para discutir soluções e compartilhar experiências.