Criado em Vitória em 2012, o banco digital PicPay foi alvo nesta sexta-feira (19) da operação JurosZero, da Polícia Federal. A investigação apura supostos descontos no salário de servidores públicos do Distrito Federal e mira também o Banco de Brasília (BRB) – responsável pela folha de pagamento –, a Secretaria de Economia do DF e o Instituto de Previdência dos Servidores do DF (Iprev).
A suspeita é que o aplicativo financeiro cobrava taxas para camuflar descontos indevidos, que ocorriam desde 2024. Após a operação, a Justiça bloqueou cerca de R$ 90 milhões da fintech e da Associação de Servidores Públicos do DF. A empresa nega irregularidades
Mas como fica para quem tem conta no PicPay? Essa operação impacta de alguma forma os clientes da fintech? De acordo com dados do Banco Central, o PicPay tem 68 milhões de clientes, sendo a oitava instituição financeira em número de correntistas.
E em janeiro deste ano, o banco abriu capital na bolsa de Nasdaq, dos Estados Unidos. As ações tiveram oferta pública a US$ 19, no topo da faixa proposta anteriormente, que ia de US$ 16 a US$ 19. No lançamento, estima-se que tenha arrecadado US$ 434,3 milhões. Nesta sexta-feira (19), após a operação, a ação estava a US$ 10,50, queda de 4,46%.
A assessora financeira e membro do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo (Ibef-ES) Érika Almeida afirma que, no momento atual, não há indicação de risco para os correntistas em geral. A previsão é que Pix, pagamentos, transferências e demais serviços sigam funcionando.
“Mas vale lembrar: contas digitais e saldos em carteira digital não têm cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Créditos). Já CDBs e outros investimentos emitidos pelo PicPay Bank têm cobertura do FGC até R$ 250 mil por CPF. Quem tem valores acima disso investidos na plataforma pode considerar diversificar entre instituições como medida de precaução”, pondera.
Confira abaixo um tira-dúvidas sobre o assunto
O bloqueio de R$ 90 milhões afeta os clientes do banco?
Por decisão do Conselho Especial do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT), quase R$ 90 milhões foram bloqueados em contas do PicPay e da Associação dos Servidores. Érika Almeida lembra que é um valor expressivo, mas afirma ser importante contextualizar: a fintech tem mais de 68 milhões de clientes e opera em escala nacional. "O bloqueio representa uma medida cautelar judicial, não uma intervenção no banco como instituição. No estágio atual da investigação, não há risco direto para o saldo e os investimentos dos clientes comuns."
O Banco Central pode intervir?
O BC só costuma agir quando há risco sistêmico à instituição como um todo, situações como insolvência, deterioração grave de capital ou crise de liquidez, como ocorreu com o Banco Master. Ela lembra que uma investigação criminal de natureza pontual, como esta, não aciona automaticamente os mecanismos de intervenção do BC. Para chegar a esse ponto, seria necessário que as investigações revelassem comprometimento estrutural da saúde financeira do banco, o que não está evidenciado até agora.
Como isso afeta as ações do PicPay na bolsa americana?
O PicPay realizou seu IPO na Nasdaq, sendo um dos maiores bancos digitais do Brasil por número de clientes. As ações são negociadas sob o ticker PICS. A assessora financeira afirma que investigações criminais de alta visibilidade tendem a pressionar negativamente os papéis no curto prazo, especialmente porque investidores estrangeiros são mais sensíveis a risco reputacional e de governança. "O impacto real dependerá do desdobramento das investigações e da postura da empresa perante reguladores e o mercado", diz.
O que o cliente deve observar daqui para frente?
"Acompanhar se o BC emite alguma nota ou abre processo administrativo contra a instituição. Isso seria um sinal de alerta mais concreto. Verificar se os serviços do banco seguem funcionando normalmente, sem restrições a saques ou transferências", aponta Érika Almeida. A assessora orienta ainda a observação da evolução das investigações: se novos executivos forem indiciados ou se surgirem evidências de má gestão financeira sistêmica, o cenário muda. "Por ora, o caso envolve uma linha de produto específica, o crédito consignado para servidores do DF, e não a operação do banco como um todo", destaca.
O que diz o PicPay
O PicPay tem afirmado que os serviços oferecidos aos servidores são contratados de forma voluntária e que a empresa atua de acordo com a legislação vigente. A companhia também informa que tem prestado os esclarecimentos solicitados pelos órgãos responsáveis pelas investigações.
Nota completa do PicPay
O PicPay reafirma seu compromisso com a estrita observância da legislação e da regulamentação aplicáveis aos setores financeiro e de meios de pagamento.
A companhia não reconhece qualquer irregularidade nas operações mencionadas e rejeita a alegação de cobrança indevida. Seus produtos e serviços são estruturados e ofertados em conformidade com as normas vigentes e submetidos a rigorosos mecanismos de controle e supervisão.
O valor antecipado era disponibilizado no próprio cartão do cliente, depois de feita a solicitação por ele mesmo no aplicativo, sem intermediários ou associações e sem cobrança nessa modalidade.
O PicPay mantém uma sólida estrutura de governança corporativa, gestão de riscos e compliance, alinhada às melhores práticas de mercado e aos mais elevados padrões regulatórios.
A empresa seguirá colaborando plenamente com as autoridades competentes e está confiante de que quaisquer esclarecimentos necessários confirmarão a regularidade de sua atuação.