Com investimento previsto de R$ 5 bilhões até 2030, a EDP pretende ampliar a infraestrutura elétrica do Espírito Santo para acompanhar o crescimento industrial e logístico capixaba. Em entrevista para A Gazeta, o novo diretor-geral da companhia no Estado, Marcos Alexandre de Campos, afirma que o plano inclui novas subestações e automação da rede, além de, para o futuro, expandir o foco para o conceito de "cidades resilientes", unindo manejo arbóreo preventivo, monitoramento meteorológico em tempo real e o uso intensivo de inteligência artificial para otimizar o atendimento ao cliente.
Com uma trajetória de 38 anos no grupo EDP, iniciada como estagiário e consolidada em cargos estratégicos no Brasil e na Europa, Campos destaca que o planejamento da EDP antecipa em pelo menos cinco anos as necessidades de novos polos industriais, como o hub da GWM em Aracruz, para que a energia chegue antes ou simultaneamente ao desenvolvimento econômico.
Segundo a EDP — que renovou a concessão por mais 30 anos no Estado —, os indicadores de qualidade já superam a média nacional: enquanto a interrupção média é de cerca de 10 horas no Brasil, na Grande Vitória ela é de aproximadamente 3 horas. Para a empresa, esse desempenho reforça o papel do Espírito Santo como um hub de energia limpa, sustentável e preparado para os desafios da transição energética.
Confira a entrevista
O senhor está assumindo o cargo de diretor geral da EDP no Espírito Santo depois de décadas no grupo e experiência no Brasil e em Portugal. Como sua trajetória se conecta e pode contribuir para o desenvolvimento do setor aqui no Espírito Santo? Que boas práticas europeias poderia aplicar ao modelo capixaba?
São 38 anos de empresa onde passei por áreas técnicas, comerciais, financeiras e estratégicas antes de retornar para as operações como diretor-geral. Essa jornada, que começou como estagiário, me permitiu ter uma visão macro do negócio, olhando desde a administração até a ponta da operação. Estar conectado com o headquarter em Lisboa é fundamental para aproximar o Brasil da Europa; embora o modelo regulatório brasileiro seja muito particular, essa conexão serve para transmitir todo o potencial de rentabilidade e posicionamento da marca na América do Sul. A EDP acredita no Brasil como um hub importante, e essa experiência sedimentou o caminho para eu assumir o Espírito Santo em um momento de crescimento significativo do Estado. É uma "química" fundamental para acompanhar a pauta de infraestrutura e de investimentos que o momento exige.
Está completando agora um ano desde a renovação da concessão da EDP. Como o senhor avalia este primeiro ano e como projeta o setor elétrico capixaba para os próximos 30 anos?
A assinatura da renovação foi um marco, celebrando os 30 anos da EDP no Brasil e projetando os próximos 30, coincidindo com os 50 anos do grupo no mundo. Essa renovação é fundamental porque garante um horizonte e uma visão de longo prazo para a companhia. Ter um contrato longo com cláusulas bem definidas para o próximo ciclo traz a segurança necessária para o grupo alocar recursos e continuar com investimentos significativos no país. É essa tranquilidade contratual que permite planejar o futuro da energia no Estado com a robustez que o setor exige.
Sobre os investimentos previstos de R$ 5 bilhões até 2030, quais são os projetos prioritários e como eles se traduzem em melhorias para o consumidor final?
Temos alavancas importantes, começando pela infraestrutura de energia — subestações, linhas e redes para conectar novas indústrias e comércios. Costumamos dizer que a energia é a "infra da infra", pois sem ela as outras infraestruturas não avançam. Trabalhamos de forma coordenada com o governo, prefeituras e associações para planejar esse crescimento. Um exemplo é a chegada da GWM a Aracruz, onde a EDP já estava na mesa de discussões desde a origem do projeto.
Além disso, focamos na severidade climática e na nova exigência do cliente, que hoje vê a energia como um insumo vital para estar conectado ao mundo. Por isso, investimos em modernização e tecnologia, como a automação de rede. Hoje, 70% dos nossos clientes possuem transferência automática: quando há uma falha, a rede se "regenera" sozinha sem intervenção manual, dando uma resposta rápida e vencendo os desafios climáticos que se tornaram mais claros desde 2023.
Dá para mensurar quão mais rápido ficaria o restabelecimento da energia com essa automação?
Sim, os números ilustram bem essa eficiência. Em uma ocorrência de grande vulto que afetasse, por exemplo, 50 mil clientes, 30% deles seriam restabelecidos automaticamente em menos de um minuto graças à automação de rede. Esses clientes percebem apenas um rápido incômodo antes de tudo voltar ao normal. Através do nosso Centro de Operação, conseguimos realizar manobras em outros equipamentos sem intervenção manual, fazendo com que 50% dos clientes afetados tenham a energia de volta entre 3 a 10 minutos. O restante exige o deslocamento de equipes de campo, mas o sucesso depende desse tripé: infraestrutura forte para ter fontes de energia alternativas, automação para retorno rápido e capacidade de reação com equipes em campo.
Sobre as subestações para fortalecer o sistema e receber indústrias, como em Aracruz e no Sul do Estado, como essas conversas com o governo direcionam os investimentos?
Nosso time de planejamento precisa pensar com pelo menos cinco anos de antecedência para que uma subestação fique pronta, considerando desde a compra do terreno até a parte ambiental. Por isso, a coordenação com o poder público em hubs como Serra, Aracruz e Cachoeiro de Itapemirim é vital para entender a intensidade do crescimento. Nós, inclusive, orientamos o Estado sobre o melhor local para instalar distritos industriais e logística com base na infraestrutura de energia disponível. No Norte, após leilões de transmissão, a rede foi muito reforçada.
É um trabalho conjunto fundamental, pois o Espírito Santo cresce de forma desconectada da média nacional: entre 2020 e 2025, nossa carga cresceu 5,5% ao ano, o que prova que o Estado demanda cada vez mais energia.
Quais são os principais desafios da área hoje no Espírito Santo? Além da resiliência energética, há mais algum ponto?
Além da resiliência da rede, o desafio é criar "cidades e regiões resilientes". Não adianta a rede ser forte se o entorno não for. Isso envolve parcerias estratégicas com prefeituras para o manejo arbóreo preventivo, realizando podas e supressão de árvores em mau estado antes que as tempestades ocorram. Outro desafio é a centralidade no cliente; hoje as pessoas não aceitam mais ficar sem energia. Por isso, inauguramos este ano um novo Centro de Operação, um investimento de R$ 70 milhões para dar respostas mais rápidas e utilizar Inteligência Artificial e dados para melhorar o relacionamento e a satisfação do consumidor capixaba.
Esse novo Centro de Operação já tem ajudado a melhorar a resposta e o trabalho de campo?
Sim, e a Inteligência Artificial é o suporte para isso. Além do centro físico, vamos inaugurar um sistema de operação de rede mais moderno este ano, focado em alocação e despacho inteligente de equipes. A rede ficou muito mais complexa do que era há 10 anos devido à geração solar e tecnologias que virão no futuro como baterias e eólica. Como o Espírito Santo é muito forte em energia solar, a distribuidora assume o papel de coordenar esse fluxo. O novo sistema será capaz de reconhecer cargas e fontes automaticamente, tomando decisões de ligar ou desligar trechos da rede sem que o operador precise intervir manualmente em cada passo.
Sobre a prevenção, como o monitoramento climático ajuda a minimizar o tempo de espera do cliente?
A antecipação é o fator crítico de sucesso. Temos convênios com empresas de meteorologia, como a Climatempo, que nos dão alertas em tempo real. Se sabemos que uma frente fria trará ventos e raios, já posicionamos equipes estrategicamente naquela região antes mesmo do evento começar. Isso evita perder duas ou três horas em deslocamentos após a ocorrência. Além disso, apostamos muito na comunicação externa e transparência. Se o cliente sabe o que aconteceu — por exemplo, um acidente de terceiros ou ventos de 100 km/h — e recebe uma previsão de retorno (seja 3 ou 5 horas), isso gera conforto e reduz a irritabilidade. A informação ajuda a gerir o que poderia ser uma crise muito maior.
Quais são os diferenciais do Espírito Santo frente a outras praças e o que o mercado capixaba exige mais da distribuidora?
O diferencial é a enorme capacidade de organização entre o poder público, governo e associações. Isso resulta em uma exigência por qualidade superior que se traduz em números: enquanto a média de interrupção no Brasil é de 10 horas, no Espírito Santo é de 6 horas, e na Grande Vitória é de apenas 3 horas, um dos melhores índices do país. A energia no Estado não é um problema, mas sim um fator positivo e preponderante para atrair novos investimentos locais. O apoio do governo à nossa renovação de concessão foi um reflexo dessa parceria de anos que foca no cliente e em indicadores reais de qualidade.
Como a EDP pode contribuir para o caminho do desenvolvimento sustentável e carbono neutro no Estado?
A EDP tem a meta global de carbono zero e atua em todas as frentes: geração (solar e eólica), transmissão, distribuição e comercialização. Nossa contribuição direta na distribuição é preparar a rede para o futuro. O Espírito Santo tem o solar como carro-chefe, e nossa missão é garantir que a rede seja o grande hub que conecta essas fontes renováveis e baterias com segurança. Estamos criando uma infraestrutura tecnológica capaz de operar esse cenário complexo, permitindo que o Estado avance no seu plano de sustentabilidade com uma rede preparada para novas fontes, como a eólica.
Quais metas o senhor estabeleceu para sua gestão à frente da companhia no Estado para os próximos anos?
Tenho três pautas principais. A primeira é a infraestrutura: garantir que a conexão com os entes do estado assegure que a nova subestação nasça exatamente onde a nova indústria vai surgir. A segunda é a satisfação do cliente, surfando a onda da digitalização e da Inteligência Artificial para escalar o uso de dados na tomada de decisão em tempo real. E a terceira são as pessoas; precisamos atrair novos talentos, como engenheiros de dados, para conviver com as gerações atuais e liderar essa transformação. Alinhando tecnologia, infraestrutura e pessoas, conseguiremos endereçar todas as demandas do Espírito Santo.
Para finalizar, qual você consideraria ser o maior desafio ou risco técnico no sistema elétrico capixaba nos próximos anos?
Eu prefiro chamar de desafios que precisam ser monitorados para serem controlados. O maior deles é a integração da geração solar e eólica, algo que já vemos em outros países. Ter mais fontes entrando na rede do que consumo em certos horários exige uma operação muito cuidadosa. Isso requer uma coordenação técnica fina entre a EDP, os geradores e o Operador Nacional do Sistema (ONS) para evitar problemas de infraestrutura. Estamos totalmente antenados e conectados ao sistema interligado nacional para garantir que essa transição ocorra com total estabilidade no Estado.