Sair
Assine
Sair
Entrar

Recuperar senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Cadastrar nova senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Comportamento

Febre do morango do amor é sintoma de uma sociedade que perdeu a paciência

Em meio ao espetáculo da validação permanente e das conquistas imediatas, esquecemos que o verdadeiro prazer está em saborear com calma

Publicado em 04 de Agosto de 2025 às 04:55

Públicado em 

04 ago 2025 às 04:55
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

Vivemos tempos acelerados, onde o sabor do instante parece valer mais que a doçura de qualquer espera. Entre tendências que se espalham ao sabor do algoritmo e emoções que se medem em curtidas, cresce o fenômeno que poderíamos chamar de "febre do morango do amor". Metáfora sugestiva, ela colore e adoça a ânsia coletiva por conquistas rápidas, prazeres imediatos e, sobretudo, por uma validação que nunca cessa.
O morango do amor, aquele doce que reluz em feiras e festas, é vermelho intenso, brilhante e convida ao desejo. O que poucos percebem é que o apelo do morango do amor não está apenas no sabor, mas na promessa de prazer rápido. O açúcar derretido envolvendo a fruta, pronto para ser consumido com uma só mordida.
É um deleite que não exige espera, preparação ou compromisso. A experiência é efêmera, mas intensa, logo se desmancha, restando o resquício pegajoso do açúcar nos dedos, e talvez a vontade de mais um. Além claro, de um pico de glicemia.
Morango do amor
Morango do amor Crédito: Nestlé/Acervo
Esse símbolo pode ser expandido para pensar o comportamento contemporâneo diante das relações, dos objetivos e da própria identidade: queremos tudo para ontem, com o brilho e a intensidade de uma foto bem filtrada. A espera tornou-se quase insuportável, e a paciência, uma virtude em extinção.
A febre do imediato revela-se em todos os âmbitos. Nas redes sociais, a busca desenfreada por seguidores, por notoriedade e pela aprovação coletiva se traduz no ciclo incessante de postagens, reels, stories e trends. Cada novo desafio viral é uma porta para conquistar visibilidade e, por instantes, sentir-se alguém de destaque no oceano de perfis digitais.
O paradoxo se instala, quanto mais acesso à satisfação imediata, menos tolerância ao tédio, à frustração e ao silêncio interior. As conquistas tornam-se colecionáveis, e cada sucesso instantâneo alimenta a exigência por novas doses de aprovação.
A validação, nesta epidemia, é o combustível invisível. Vivemos em busca de reconhecimento, de aplausos, de curtidas e de corações vermelhos que confirmem, publicamente o nosso valor. O perigo reside na dependência de um olhar externo que nunca se completa. Não importa o número de conquistas, a validação precisa ser renovada incessantemente. O ciclo se perpetua, como uma fome difícil de saciar. O prazer de cada conquista é fugaz, e logo se dissolve, exigindo nova dose de aprovação.
Esse fenômeno produz sintomas visíveis. Ansiedade elevada, sensação de insuficiência constante e uma dificuldade cada vez maior de lidar com a solitude. O tempo vazio, que já foi terreno fértil para a criatividade, agora é visto como inimigo a ser vencido a qualquer custo.
A febre do morango do amor, neste contexto, é também a febre do efêmero. O sentido das conquistas e da própria identidade se esvazia na velocidade com que se consome e se descarta o prazer. O que importa não é mais o sabor do fruto, mas a imagem reluzente que ele projeta.
Encarar essa epidemia exige, antes de tudo, reconhecer seus sintomas em si e no entorno. É preciso reaprender a valorizar o processo, o silêncio, o tempo que constrói significado. Recuperar o prazer da espera, da conquista gradual, do amadurecimento das relações e dos projetos.
A febre do morango do amor é sintoma de uma sociedade que perdeu o compasso com o tempo. Em meio ao espetáculo da validação permanente e das conquistas imediatas, esquecemos que o verdadeiro prazer está em saborear com calma e construir com paciência.
Talvez seja hora de reaprender a encontrar beleza na espera. Respeitar o processo, e aprender com ele. Só assim poderemos experimentar de fato o doce, e duradouro, sabor das conquistas e da própria existência.

Verônica Bezerra

Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Seguranca Pública

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

A literatura young adult é uma ótima opção para quem busca histórias emocionantes (Imagem: Dean Drobot | Shutterstock)
Literatura, ficção e metáforas em tempos de IA
Bruno Pinho e Talita e os filhos Maya e Luca
Bruno de Pinho celebra aniversário em clima de Copa do Mundo em Vitória
Quartel da Polícia Militar do Espírito Santo (PMES)
Defesa de única PM presa no ES denuncia presídio militar à ONU

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados