Vou tentar responder à pergunta que me faz uma amável leitora: o que é essencial para alguém escrever ficção em literatura? Por eu ser uma escritora e não uma filósofa, tem coisa que não me cabe entender, nem mesmo em meia tigela de conhecimento. Assim, vou apelar para um escritor que sabe muito mais.
Vladimir Nabokov ensina que a criatura que escreve ficção pode ser encaixada em três pontos de vista: da narrativa; da mestria; do encantamento. A narrativa proporciona entretenimento, participação emocional na história, prazer de viajar imaginariamente para situações e lugares no espaço e no tempo.
A mestria concede conhecimentos na composição dos dados de uma narrativa e até mesmo formação de opinião ou de moral. Mas, acima de tudo, quem professa o encantamento faz valer a estranha beleza da ficção. É uma pessoa que inventa, que trapaceia, que tira coelhos da cartola do nada, que brinca com a realidade naquilo em que ela nos engana.
A parte verdadeiramente emocionante é quando quem lê consegue captar a magia de um texto escrito. Para gozar esda magia, é preciso ler o texto não com o coração, nem tanto com o cérebro, mas sim com a espinha dorsal. Essa leitura mágica provoca um arrepio na espinha. É lá que tem lugar aquele estremecimento revelador.
Vocês sabem que os tempos atuais, recheados de tecnologia, põem em suspeita a legítima escrita literária, muitas vezes roubada de sua veracidade pela astúcia de facilidades.
Por exemplo: a chamada Inteligência Artificial, já apontada como responsável por muitos textos que obrigam a uma investigação por parte de quem se interessa ou tem obrigação de se interessar pelo caso.
Talvez uma das coisas mais eficientes seja verificar a maquinaria que confere estranhamento ao uso comum da linguagem no texto. Com destaque para a metáfora. No fio da navalha, a metáfora, se não invalida a ação reprodutora da IA (baseada em uma série infinita de possibilidades tecnológicas), serve de química para o nascer do sol da memória no horizonte da impossibilidade que a linguagem tem para dar conta daquilo que a literatura tenta expressar.
As metáforas são a carne e o sangue do desespero de quem escreve e tenta imprimir na página em branco as palavras que possam dar a quem as lê o tal estremecimento na espinha. Trata-se do gozo erótico de que falava Roland Barthes.
Mas lamento informar que essa não é prerrogativa de quem está escrevendo. Quando alguém verdadeiramente escreve ficção vai remoendo o fundo lodoso da memória criativa. E está apenas gravando uma tatuagem de palavras sobre o corpo nu e exposto da literatura.