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Rodrigo Medeiros

Um alerta clássico sobre a democracia que ainda nos alcança

A democracia não se sustenta apenas na vontade popular; ela depende de instituições capazes de conter, organizar e filtrar as paixões e opiniões coletivas

Publicado em 22 de Junho de 2026 às 03:30

Públicado em 

22 jun 2026 às 03:30
Rodrigo Medeiros

Colunista

Rodrigo Medeiros

No livro “O julgamento de Sócrates” (Companhia de Bolso, 2005), I. F. Stone desmonta a imagem confortável do filósofo como mártir inocente da democracia ateniense. Sócrates não apenas criticava aspectos pontuais da vida política de Atenas; ele desconfiava profundamente da própria ideia de um governo popular.


Essa desconfiança, como Stone demonstra, tinha como alvo a vulnerabilidade da democracia às opiniões e paixões que influenciam a maioria. Para Sócrates, a democracia padecia de um vício estrutural, pois entregava o poder a quem não sabia exercê‑lo.


A assembleia ateniense, espaço de deliberação coletiva, era para ele um palco onde oradores habilidosos manipulavam multidões guiadas por emoções, não por conhecimento. Governar, acreditava o filósofo, deveria ser tarefa de poucos, daqueles que fossem capazes de orientar a cidade com base na razão.

Estátua de Sócrates na Academia de Atenas
Estátua de Sócrates na Academia de Atenas Wikimedia Commons

Stone mostra que essa postura, embora filosófica, tinha consequências políticas concretas. Ao deslegitimar a participação popular, Sócrates se aproximava, ainda que involuntariamente, de figuras abertamente antidemocráticas. Em uma Atenas traumatizada por golpes oligárquicos e questões militares, essa associação não era apenas um detalhe.


Há um ponto que, apesar da distância temporal, merece ser trazido ao centro do debate contemporâneo. A democracia não se sustenta apenas na vontade popular; ela depende de instituições capazes de conter, organizar e filtrar as paixões e opiniões coletivas. Sem instituições sólidas, a democracia se torna refém das paixões e opiniões.


O julgamento de Sócrates expõe os limites de uma democracia sem instituições capazes de proteger direitos, garantir estabilidade e impedir que a maioria, movida por medo ou ressentimentos, cometa injustiças. Atenas não tinha instituições fortes, independentes e respeitadas, capazes de transformar a energia da participação popular em decisões estáveis, justas e duradouras.


Em tempos de desinformação, polarização e ataques às instituições, a desconfiança de Sócrates em relação às paixões políticas ganha um caráter menos elitista e mais preventivo. A democracia continua vulnerável ao ruído, às certezas improvisadas, às verdades fabricadas e aos interesses oligárquicos.


A inquietação de Sócrates permanece relevante, afinal, a democracia não é apenas o governo da maioria. Trata-se do governo da maioria dentro de regras, com limites, garantias individuais e salvaguardas coletivas.


As lições do conflito histórico entre Sócrates e Atenas não pertencem somente ao passado. Esse tipo de conflito emerge quando as instituições são enfraquecidas, quando a política se deixa capturar por impulsos imediatos e oligarquias ineptas, quando confundimos opinião com conhecimento e paixão com justiça.

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O trabalho está sendo esvaziado

Entre nós, o professor José Murilo de Carvalho se mostrou cético e pessimista sobre o futuro do Brasil nos anos finais de sua vida, especialmente em suas últimas entrevistas. Segundo o historiador, o Brasil carrega heranças estruturais profundas, como a escravidão, o patrimonialismo e a fragilidade da cultura republicana, elementos que continuam moldando a vida política.


Para ele, essas marcas históricas alimentam desigualdades persistentes, limitam a cidadania e dificultam a construção de um projeto nacional inclusivo. O professor enxergava um país marcado pela instabilidade institucional, pela recorrente tutela militar e pela falta de lideranças comprometidas com o fortalecimento democrático.


Em síntese, José Murilo de Carvalho destacou que os nossos impasses contemporâneos não podem ser compreendidos sem o reconhecimento das continuidades históricas que estruturam o Estado, a sociedade e a política nacional. 


Qualquer projeto de futuro depende da capacidade de compreender criticamente esse passado e de transformá-lo em uma ordem republicana mais inclusiva e estável.

Rodrigo Medeiros

É professor do Instituto Federal do Espírito Santo. Em seus artigos, trata principalmente dos desafios estruturais para um desenvolvimento pleno da sociedade

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