Sair
Assine
Entrar

Rodrigo Medeiros

O trabalho está sendo esvaziado

O real drama do trabalho contemporâneo não é a ameaça de sua extinção, mas o seu esvaziamento contínuo

Publicado em 11 de Maio de 2026 às 02:00

Públicado em 

11 mai 2026 às 02:00
Rodrigo Medeiros

Colunista

Rodrigo Medeiros

O livro de Aaron Benanav, ‘Automação e o futuro do trabalho’ (2025), editado pela Boitempo, ilumina algo que costuma ficar escondido no debate sobre automação. O real drama do trabalho contemporâneo não é a ameaça de sua extinção, mas o seu esvaziamento contínuo. Farei algumas breves reflexões sobre o assunto.


Jornadas mais longas e intensas, tarefas mais fragmentadas, salários achatados e o sentimento crescente de que o trabalho perdeu o sentido integram os dramas do tempo presente. Benanav desmontou a fantasia tecnocrática que domina o imaginário público. A tecnologia não irá resolver tudo.


O progresso técnico é relevante para os processos produtivos, porém ele não está substituindo integralmente o trabalho humano. A tecnologia está reorganizando o trabalho humano para aumentar o controle e reduzir a autonomia laboral. Em síntese, a automação contemporânea não libera tempo; ela intensifica a vigilância e o controle.


Veja Também 

Data: 07/04/2017 - Notas de Dinheiro - Real - Governo propõe salário mínimo de R$ 979 em 2018 - Salário: reajuste será igual ao índice da inflação - Editoria: Economia - Foto: ARQUIVO - GZ

Reformas não bastam para o desenvolvimento

Imagem de destaque

Fim da escala 6x1, produtividade estagnada e atraso social

Imagem de destaque

O 'moinho de gastar gente' permanece muito atual

Nesse sentido, a precarização laboral vivida em diversos países não é fruto de máquinas mais eficientes. Ela deriva de um mercado de trabalho cronicamente inseguro, no qual os trabalhadores têm pouco poder de barganha. O problema é que as decisões estão concentradas nas mãos de acionistas e gestores, cujo principal critério é a maximização dos lucros.


Para os trabalhadores, democratizar o ambiente de trabalho é urgente. Devemos buscar criar ambientes nos quais a autonomia, a confiança e o sentido sejam parte da organização laboral cotidiana. Experiências de autogestão mostram que, quando os trabalhadores têm voz real, eles não pedem apenas melhores salários.


Trabalhadores pedem tempo, segurança, cooperação, sustentabilidade e vínculos comunitários. Em um tempo no qual a inteligência artificial alimenta utopias ou distopias, Benanav nos lembra que o futuro do trabalho não será decidido por máquinas ou algoritmos. A tecnologia não é neutra; ela é moldada por interesses.

Imagem BBC Brasil
Trabalho e automação
Getty Images

O que está em curso é o empobrecimento do trabalho. Enquanto tecnólogos vendem promessas messiânicas de uma automação que libertará a humanidade, o que se impõe é um processo político de empobrecimento do trabalho, ou seja, menos autonomia, mais vigilância, menos sentido, mais precariedade.


Quem espera que a tecnologia e a qualificação laboral resolvam a crise do trabalho está apostando na benevolência de empresas que lucram com os baixos salários. A alternativa para os trabalhadores é clara: organizar, disputar o poder sobre os rumos das tecnologias e lutar por regras que priorizem a vida, o tempo e a dignidade humana.


Segundo Benanav, até mesmo a desindustrialização não deve ser explicada pela automação. Desde o final do século XX, era possível falar em uma onda de desindustrialização global. Afinal, à medida em que as taxas de crescimento da produção caíam mais do que as taxas de crescimento da produtividade, a desindustrialização se espalhou pelo mundo.


A automação teve um impacto ainda menor nos serviços. Benanav destacou que o principal mecanismo de desaceleração do setor manufatureiro para a economia foi a redução do nível de investimento, configurando um caráter estrutural de sobrecapacidade e subinvestimento. 


Com a queda nas taxas de crescimento da indústria de transformação, trabalhadores migraram para ocupações de baixa produtividade, principalmente nos serviços, e testemunhamos o acúmulo de capital financeirizado e suas bolhas de “efeito riqueza”.


De acordo com o Relatório da Desigualdade Mundial 2026, a renda concentrada no topo cresceu no Brasil, que recorrentemente aparece entre os países mais desiguais do mundo nos principais levantamentos internacionais sobre distribuição de renda. Os 10% mais ricos detêm aproximadamente 59% dos rendimentos nacionais, enquanto os 50% mais pobres recebem somente 9%.

Veja Também 

Araceli Cabrera Crespo

Após 53 anos, Caso Araceli tem busca por reparação histórica em órgão internacional

Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM)

Passagens para o trem noturno da Vale voltam a ser vendidas domingo (17)

Bebê de apenas sete dias engasgou com leite materno

Bebê de 7 dias se engasga com leite materno e é salva por PMs em Anchieta

O Índice de Qualidade da Elite (EQx, em inglês), por sua vez, é uma medida comparativa das elites dos países. A metodologia empregada entende que as elites têm uma capacidade crítica de coordenação dos recursos da economia.


No relatório de 2025, o ranking do EQx foi composto por 151 países. O Brasil ocupou a posição de número 72, em um nítido contraste com o seu peso econômico mundial. Como pode um país estar entre as dez maiores economias e a qualidade de suas elites ser relativamente tão ruim?


Segundo o EQx, as elites brasileiras são vistas como altamente extrativas, ou seja, elas extraem mais valor da sociedade do que criam. Tal perspectiva nos ajuda a compreender a lógica do reformismo regressivo e concentrador de rendas e patrimônios.  


O Brasil foi construído historicamente a partir de uma lógica de exclusão que se reproduziu no tempo. Portanto, devemos tomar muito cuidado para não ficarmos eternamente presos a versões atualizadas da “jaula do subdesenvolvimento” das cadeias globais de valor.

Rodrigo Medeiros

E professor do Instituto Federal do Espirito Santo. Em seus artigos, trata principalmente dos desafios estruturais para um desenvolvimento pleno da sociedade.

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

João Paulo Bonadiman, piloto capixaba de 13 anos
Piloto capixaba de 13 anos selecionado pela CBA disputa competição na Bélgica
Imagem BBC Brasil
Bets são investimentos? Entenda os riscos de apostar
Imagem de destaque
Vitória abre 72 vagas em cursos gratuitos nas áreas de estética e primeiros socorros

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados