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Paulo Bonates

Quando a bola de futebol nascia da seringueira

Havia, claro, as concorrentes de couro, de variados tamanhos: número um, dois, três, quatro, cinco. A gente preferia a de sernambi, vendida nos mercados quase de graça

Publicado em 23 de Junho de 2026 às 03:30

Públicado em 

23 jun 2026 às 03:30
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Alguém aí sabe o que vem a ser sernambi? No Amazonas, lugar onde nasci, entre dois imensos rios que não se misturam, o Rio Negro e o Solimões, o látex, caldo da seringueira, gerava, além da preciosa borracha, o sernambi. A tarefa era  e acho que talvez ainda seja  artesanal.


Aqui está uma receita feiticeira para uma bola de futebol da doce infância, que nascia do sernambi. 


Havia, claro, as concorrentes de couro, de variados tamanhos: número um, dois, três, quatro, cinco. A gente preferia a de sernambi, vendida nos mercados quase de graça, claro.

Bola de futebol
Bola de futebol jcomp/Freepik

Devido à flexibilidade, era quase indestrutível. Pensando bem, furava de vez em quando. Um jogo exigia no máximo duas bolas de sernambi. Às vezes, a garotada descolava para as grandes porfias uma marca Drible ou Superbol, que eram muito caras.


Meu querido tio batizado de Jorge de Brito Inglez Bonates era o mais velho dos 11 irmãos. Fundou e dirigiu a vida toda um time de futebol, amador, mas de grande responsa, o Princesa Isabel Esporte Clube, que de vez em quando, muito de vez em quando, arrancava uma vitória sobre os grandes times de lá: Fast Clube, Rio Negro, São Raimundo, Nacional e outro. 


O Princesa — pasmem — tinha um sagrado convênio com o Vasco da Gama do Rio. Às vezes, iam a Manaus e perdiam. Tudo é possível no futebol.


O nosso time de garotos da Rua Lyma Bacuri, onde morávamos, enfrentava com unhas e dentes os da Rua José Paranaguá, todo santo sábado, com grande torcida, que incluía os familiares. Dizem as más línguas que o campeonato da meninada era um treinamento para perder depois. Mentira. Pura inveja.


As pelejas eram realizadas nos imensos quintais cedidos, que sustentavam também enormes jaqueiras, goiabeiras, mangueiras e, claro, seringueiras, tudo junto e misturado.


Então.

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Olha pro céu, meu amor, vê como ele está lindo. 


Naquela era, reinavam os papagaios. Tio Bal arrumava o material para facilitar a subida das belezas da arte: varetas (talas), papel de seda, linha e o mortífero cerol.

A rabiola do pentágono para dar sustentação era toda colorida e imensa. 


A parte mais difícil era o “peitoral”, que obedecia ao empinador cegamente, movimentando-se na subida, descida e na guerra com os papagaios inimigos. Tinha que ser habilidosamente confeccionada.


A fogueira está queimando.


Havia balão no ar, xote e baião no salão, e no terreiro o teu olhar que incendiou meu coração. 


Selva danada de gostosa, sinto saudade d’ocê. 


Dorian Gray, meu cão vira-lata, acha que cada país deve ter sua Copa do Mundo. 


Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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