Da minha janela vejo o show que a meninada do Sesi de Jardim da Penha me traz todos os dias na hora do recreio. É uma alegria generalizada e contagiante, linda de se ver, recheada de brincadeiras e dos gritos próprios da infância e tão autêntica na espontaneidade sempre presente nas crianças.
O espetáculo me faz lembrar da minha netinha que, ao ser perguntada sobre a aula que ela mais gostava na escola, respondeu sem hesitar: “O recreio”.
Esse recreio da criançada é que está mais colorido do que nunca nesta época de Copa do Mundo. O tradicional uniforme de aula é substituído, principalmente nos dias de jogos do Brasil, pelo verde-amarelo-azul-e-branco, com predominância das blusas amarelinhas que transformam as crianças em centenas de canarinhos que não se cansam de correr, pular e brincar, numa festa interminável que torna o recreio ainda mais bonito e prazeroso de se ver.
É bonito também passar pelas ruas decoradas de verde-amarelo, com grafites cada vez mais caprichados lembrando a cada momento o clima de festa que cerca os jogos da Seleção Brasileira. É bom ver o sentimento de brasilidade sendo expressado de maneira tão espontânea pelo povo, com as cores da bandeira brasileira abraçadas por todos, sem qualquer divisão político-ideológica.
O clima da Copa nos leva a recordar as conquistas do nosso futebol no passado, desde a taça Jules Rimet levantada por Bellini em 1958. Para quem não se lembra, o francês Rimet foi o criador da Copa do Mundo durante o período em que exerceu a presidência da Fifa.
A taça que levava o seu nome representava Nice, a deusa grega da vitória. O campeão da copa ficava com a taça que era passada ao campeão da copa seguinte, o que continuou ocorrendo até 1970, quando o Brasil conquistou o direito de ficar definitivamente com o troféu por ter se sagrado tricampeão.
Eu me lembro do escândalo e do vexame que foi o roubo da Taça Jules Rimet, em 1983, quando ela estava exposta na sede da CBF, no Rio. Mas não me recordava que ela tinha desaparecido antes, em 1966, em Londres e que tinha sido achada, dias depois, embrulhada em jornais e escondida em um arbusto, graças à ajuda do cachorro Pickles que, acompanhado por seu dono, farejou o troféu.
As lembranças do passado me remetem também ao período em que os jogos de futebol eram narrados pelos “speakers”, nas rádios, com o uso de termos em inglês como “corner” (escanteio), “offside” (impedimento), “match” (jogo), “score” (placar), “back” (zagueiro), “center half” (zagueiro central) e “center-forward” (centroavante).
Até as distâncias eram informadas em jardas – e não em metros – porque, afinal de contas, o futebol é o esporte bretão, com suas raízes ficadas na Grã-Bretanha, of course.
Pois foi assim, pelas ondas do rádio – ondas muitas vezes fugidias que desapareciam misteriosamente no ar – que acompanhamos as copas até 1970, quando, pela primeira vez, a TV transmitiu os jogos ao vivo. Confesso que, por algum tempo, apaixonado que era pelas transmissões do rádio, preferia assistir aos jogos na TV com o rádio ligado ao meu lado.
É bom voltar a ver o clima festivo nas ruas em torno dos jogos da Seleção Brasileira, como o que ocorrerá no próximo domingo. Vamos então aproveitar essa época boa, de união e de torcida por mais uma conquista.
E aproveitar também, por que não?, o espetáculo das crianças-canarinhos na hora do recreio que tenho o privilégio de assistir e curtir todos os dias da janela do meu apartamento.