Da Copa de 1950, só ouvi as histórias contadas por meu pai. Disputada no Brasil, era a grande oportunidade para a seleção brasileira – o escrete canarinho, como a chamavam os “speakers” que narravam os jogos pelo rádio – conquistar o caneco pela primeira vez.
E foi assim, tratorando os adversários – com goleadas sobre a Suécia (7x1) e Espanha (6x1) – que a seleção chegou à partida final, contra o Uruguai, precisando apenas do empate para se sagrar campeã. Mas o que aconteceu foi a tragédia que marcou profundamente a torcida brasileira: vitória do Uruguai, por 2x1, no episódio que é conhecido como “Maracanazo” por ter ocorrido no recém inaugurado estádio do Maracanã, na época o maior do mundo, diante de mais de 200 mil torcedores.
Na final da Copa de 1958 – a vitória de 5x2, de virada, sobre a Suécia – me lembro do carnaval que tomou conta das ruas de Vitória. Acamado no Hospital dos Funcionários Públicos, vizinho da Catedral, recuperando de um acidente, ouvi o povo cantando e gritando nas ruas, comemorando o primeiro título mundial do Brasil.
Acompanhei a narração pelo rádio de quase todos os jogos, inclusive o mais difícil, contra o País de Gales, decidido pelo gol genial feito de um menino de 17 anos – Pelé – que iniciava ali uma carreira brilhante que o consagrou como o Rei do Futebol.
Da Copa de 1962, disputada no Chile, guardei por muitos anos um long play com a narração de todos os gols do bicampeonato. “Rei negro caiu; no campo de luta, num palco distante, rei negro caiu” dizia o poema que descrevia a contusão sofrida por Pelé no segundo jogo da competição contra a Tchecoslováquia.
Parecia que ali havia acabado o sonho do bi, mas Amarildo foi um ótimo substituto de Pelé e o caneco foi conquistado pela segunda vez sob a regência de Garrincha e Nilton Santos.
Sofri com a derrota, em 1966, para Portugal de Eusébio. E vibrei com a primeira copa transmitida pela TV, em 1970, e com o gol maravilhoso de Carlos Alberto Torres fechando a goleada por 4x1 sobre a Itália na final.
Sofri também ao sermos eliminados pela “laranja mecânica” da Holanda de Cruyff em 1974 e me revoltei com a marmelada de 1978 quando a Argentina ganhou de 6x0 do Peru, revertendo a vantagem de 4 gols que o Brasil tinha até então.
Fui um torcedor entusiasmado da melhor seleção brasileira de todos os tempos, a que disputou o mundial de 1982 na Espanha. Dava gosto ver o futebol de Zico, Sócrates, Falcão e Junior, só superado pelos três gols de Paolo Rossi, da Itália, nos 3x2 quando o empate nos classificaria, no jogo que ficou conhecido como “a tragédia do Sarriá”, no Estádio Sarriá, em Barcelona.
Zico, logo o Zico, ídolo do Flamengo e dos brasileiros, perdeu o pênalti que poderia nos dar a vitória em 1986, no México, no jogo em que fomos eliminados pela França. Em 1990, na Itália, o nosso lateral Branco foi dopado com água “batizada” com tranquilizantes como chegou a confessar, tempos depois, Diego Maradona, no jogo em que fomos eliminados pela Argentina.
É só lembrar de 1978 (os 6x0 no Peru) para perceber que não foi a primeira vez que fomos prejudicados pelos “hermanos”, vindo daí, acredito, a antipatia que nos separa no futebol.
Coube a Romário nos dar a alegria do tetracampeonato em 1994, nos Estados Unidos, quando o italiano Baggio jogou por cima o pênalti que sacramentou a nossa vitória. Um mal-estar inesperado de Ronaldo nos tirou o título de 1998. Mas foi o mesmo Ronaldo, com um topetinho moleque, que nos garantiu o penta em 2002.
De 2006 só me lembro da derrota para a França de Zidane, e apaguei da memória a Copa de 2010 na África do Sul. Até acho que não perderíamos da Alemanha de 7x1 em 2014 se um colombiano não tivesse tirado Neymar da Copa com uma joelhada nas costas.
Passando rápido por 2018 (quando fomos eliminados pela Bélgica), preferi guardar no coração o maravilhoso voleio do capixaba Richarlison, merecidamente reconhecido como o mais bonito da competição de 2022 na votação popular da Fifa.
E chego em 2026 cheio de esperanças de voltarmos a ser considerados, pelo menos no futebol, um dos maiores entre os melhores do mundo.