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Elda Bussinguer

Guerras e Copa: com o que deveríamos nos importar?

Nós vivemos um processo tão grave e profundo de dessensibilização que o outro não tem mais importância para nós

Publicado em 16 de Junho de 2026 às 03:30

Públicado em 

16 jun 2026 às 03:30
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

Enquanto nos gramados dos três países que sediam a Copa – México, EUA e Canadá –, as bolas rolam, produzindo alegria e emoção, pelo mundo afora as bombas explodem, produzindo violência, dor e morte.


Idealizadas na década de 1920 por Jules Rimet, as Copas do Mundo são importantes espaços de congraçamento entre os povos e de estímulo ao esporte e à vida saudável. Devem ser valorizadas e mantidas, tendo-se a coragem de enfrentar suas contradições, suas distorções e a privatização que fez com que o futebol perdesse a alegria da simplicidade e da originalidade, características dos jogos que tipificam os modos de ser de cada povo que se diverte e que, ao fazê-lo, se mostra tal qual é em sua essência.


Não temos mais Garrinchas, Pelés, Maradonas, Zicos e tantos outros que surpreendiam o mundo com sua leveza, rapidez, improvisação e emoção. O futebol foi instrumentalizado, com a técnica se sobrepondo à arte e, nesse sentido, perdendo originalidade e identidade nacional. 

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Perdeu, enfim, os modos de ser de cada povo. A arte se perdeu na técnica, e isso nos empobrece. O futebol se reduziu à técnica e perdeu a beleza e o encanto do diferente que caracteriza a arte.


Em sua concepção inicial, as Copas do Mundo buscavam um modo de aproximação entre as nações, promovendo a paz, o conhecimento e a divulgação de culturas as mais diversas, com a mobilização de pessoas, o impulsionamento do turismo e o investimento na consolidação do sentimento de identidade nacional.


São 48 seleções envolvidos na disputa por um título, em um evento que acontece de 4 em 4 anos e dura apenas 39 dias. No intervalo entre as Copas, atletas treinam e participam de jogos preparatórios.  


Enquanto a Copa acontece, a bola rola no gramado e as pessoas se movimentam em encontros festivos, vestidas com as cores das bandeiras de seus países; Donald Trump continua a fazer o que sempre fez: promover violência e guerra.


Nas guerras, sejam elas grandes ou pequenas, Trump e os EUA se alimentam da violência, da exploração, da discriminação e da criação de um sentimento de supremacia do povo americano e de inferioridade dos demais povos.


Historicamente, os EUA são os grandes idealizadores e promotores das guerras que acontecem pelo mundo, sempre na disputa por manter o controle e o poder globais.

Enquanto a Copa acontece e nós nos distraímos com os jogos e com os álbuns de figurinhas, feitos para o deleite dos ricos que podem pagar entre mil e sete mil reais pela compra de envelopinhos ou de figurinhas para completar o álbum, pelo mundo, cerca de 60 guerras estão em atividade, e a maioria delas é, de alguma forma, fomentada pelos EUA, em sua sanha imperialista, supremacista e desumana. 


Não são apenas as guerras do Irã, da Ucrânia, da Rússia e do Sudão; são dezenas de guerras que assolam as nações, ferem a soberania dos países e atingem a dignidade das pessoas.


A pergunta que fica é: por que nós nos encantamos, nos sensibilizamos e nos envolvemos com as emoções geradas pelas Copas, que acontecem a cada 4 anos em um espetáculo de glamour e comemorações, e não nos sensibilizamos com as guerras e seus desdobramentos?

Guerra na Ucrânia
Tanques ucranianos  Carlos Barria/Reuters/Folhapress

Nós não nos sensibilizamos com a morte, com a dor, com a destruição, com a invasão e a devastação de territórios, com o estupro de mulheres como arma de guerra e com o assassinato deliberado de mais de 150 pessoas em uma escola feminina iraniana, sendo a maioria delas meninas.


Nós ficamos inertes diante dos drones e das bombas que mantêm pessoas em estado de alerta permanente, sobressaltadas, sem poder dormir, sem comida, sem água e sem casa, vendo a vida escorrer pelos dedos, os corpos sangrando e mutilados, jogados nos escombros de prédios destruídos, e continuamos a tocar a vida como se tudo isso não tivesse a ver conosco.


Continuamos a dançar, beber, comer, estender bandeiras, tocar as cornetas a cada gol e comemorar os jogos de futebol na Copa do Mundo de 2026, sem pensar que as bombas continuam a ser jogadas sobre milhares de pessoas com a intenção de matar, ferir e garantir que o poder continue nas mãos deles.


Nós ignoramos que a violência, o racismo e as múltiplas formas de discriminação naturalizadas e aceitas socialmente, que impediram, por exemplo, que o árbitro da Somália, Omar Abdulkadir Artan, entrasse nos EUA, reproduzem-se como cultura contra a qual não somos capazes de nos indignar.


Nós vivemos um processo tão grave e profundo de dessensibilização que o outro não tem mais importância para nós. A violência, quando atinge o que está distante de mim e que me é estranho, não me causa nojo, indignação, vergonha e dor.


Quando, entre guerras e copas, o que mais nos mobiliza e emociona é a Copa, significa que fracassamos como humanidade e estamos perdendo aquilo que mais nos caracteriza como humanos, qual seja, a compaixão e a percepção de que só somos no outro e é no outro que nos humanizamos. 

Elda Bussinguer

Pós-doutora em Saúde Coletiva (UFRJ), doutora em Bioética (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitária

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