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Antônio Carlos de Medeiros

O funcionamento recorrente e efetivo do Partido Digital Bolsonarista

A tese da existência do PDB vem de uma pesquisa seminal de três anos no Cebrap/SP, publicada agora em 2026

Publicado em 11 de Julho de 2026 às 05:00

Públicado em 

11 jul 2026 às 05:00
Antônio Carlos de Medeiros

Colunista

Antônio Carlos de Medeiros

A partir de 2013, Jair Bolsonaro construiu um ecossistema digital bolsonarista. Cresceu gradualmente até 2018 e consolidou-se no período em que Bolsonaro foi presidente da República (2019-2023).


Pois bem. Esse ecossistema resultou na existência do Partido Digital Bolsonarista (PDB). Um novo modelo partidário, não institucionalizado, que nasce digital com a lógica da própria rede da internet. Ou seja, a internet é o próprio ambiente do partido, que não se trata de um partido-plataforma.


A tese da existência do PDB vem de uma pesquisa seminal de três anos no Cebrap/SP, publicada agora em 2026. Resultou no livro digital “Partido Digital Bolsonarista” (Cebrap) organizado por Marcos Nobre e Ana Claudia Teixeira.

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No debate sobre a organização política contemporânea, o PDB é uma novidade. Não é só o “ismo” (Bolsonarismo). Produto da ascensão da extrema-direita, um fenômeno global, é visto como uma nova forma de partido político, “com potencial para remodelar a democracia moderna”: o partido digital. 


Atua regularmente nas redes digitais, como nova forma de ação política – independente dos partidos tradicionais. No Brasil, o PDB tem o PL como interface institucional, “para ter acesso ao poder”. No interior do PL, existe a ala Centrão fisiológica e a ala de membros do PDB, que é majoritária – dizem os autores.


O Partido Digital é uma espécie de atualização do Partido de Massas da virada do século XIX. No século XX, ele foi disruptivo em termos de mobilização de massas. “Agora, o Partido Digital é uma espécie de atualização do partido de massas (...) no Brasil, entre os maiores partidos, só o PT construiu um partido de massas”. Um partido orgânico, mas ainda analógico.


Trata-se, portanto, de um processo de metamorfose da democracia representativa e do governo representativo. Uma provável nova democracia de massa, depois de um longo período minimalista da democracia do tipo schumpeteriana: “O papel do cidadão é apenas eleger representantes" e a democracia só mobiliza em épocas de eleições.


O Partido Digital atua de forma constante, coordenada e intensa, não apenas em épocas eleitorais.


O livro mostra que é impressionante o grau de coesão entre o eleitorado: “Uma coletividade unificada com agenda identitária, coesão, organização coletiva e escolha social”.


A escolha e escala social ocorre pela via da utilização de “múltiplas plataformas online para criar redes densamente articuladas de lealdade entre topo e base, mediadas por camadas intermediárias de influenciadores”. São cadeias de lealdade, com interseção entre diferentes cadeias de lealdade. Portanto, “as fronteiras da legenda digital tornam-se difusas”(...)”com expansão contínua”.


O pertencimento, como se sabe, vem da qualidade do engajamento online de cada indivíduo.

O fato é que o Partido Digital acaba resgatando características dos partidos de massas que haviam sido perdidas com a ascensão de partidos eleitorais. A chamada democracia minimalista. 

Homem usando celular para navegar na internet
Celular
DC Studio/Magnific

O objeto de conquista de poder social do PDB é o bolsonarismo. Mas os autores mostram que ele está se ampliando para outros grupos de direita. São cadeias de lealdades (tipo “correntes partidárias") “atreladas a elementos práticos de engajamento, financiamento, hierarquia, coesão, coordenação, disciplina partidária e atuação institucional”. Atuação institucional via PL e outros partidos do Centrão.


Com dinâmica de rede, o PDB está sempre em ritmo de campanha permanente, para além dos ciclos eleitorais. “Tal vantagem se estende às formas de financiamento e construção de influência, que não se restrigem aos canais formais e permitem sustentar uma atuação contínua”.


Ou seja, “sem leis que obriguem a transparência de algoritmos ou o controle de fluxos financeiros virtuais, o PDB consegue manter uma estrutura hierárquica e de financiamento que escapa à fiscalização do Estado. A lógica permanente de mobilização reorganiza o tempo político, tornando a campanha uma condição contínua. Ao mesmo tempo, o PDB desenvolve mecanismos próprios de legitimação. Eventos de grande visibilidade pública funcionam como rituais nos quais se tornam observáveis a hierarquia interna, a capacidade de ativação e o grau de disciplina do conjunto”.


Em suma, dizem os autores, o PDB sinaliza uma “mutação nas bases do governo representativo que excede a simples adaptação tecnológica”.


Tese relevante (o PDB) para compreender melhor o momento político brasileiro. Vale a leitura.


Antônio Carlos de Medeiros

É pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaço, aos sábados, traz reflexões sobre a política e a economia e aponta os possíveis caminhos para avanços nessas áreas

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