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Antônio Carlos de Medeiros

Um tributo a Regina Monteiro e sua impressionante liderança suave

Regina tinha gosto pelas viagens pelo mundo. Daí o seu olhar cosmopolita, sem perder as raízes capixabas

Publicado em 27 de Junho de 2026 às 04:30

Públicado em 

27 jun 2026 às 04:30
Antônio Carlos Medeiros

Colunista

Antônio Carlos Medeiros

Peço licença ao leitor para um tributo a uma capixaba da Praia do Canto que “descansou” outro dia. Da estirpe das mulheres fortes, portadoras de aguçada inteligência emocional.


Memórias. Um dia, muito jovem ainda, acordei na minha casa na Avenida Desembargador Santos Neves, na então chamada Praia Comprida, e vi que tinha um Simca Chambord estacionado na garagem. Achei bacana.


Meu pai, Cyro Medeiros, então nos disse, a mim e à família, que comprou na loja de automóveis do amigo dele, “Seu” João Monteiro. “Ele fez um preço bom e boa forma de pagamento”, disse meu pai.


Alguns anos depois, em 1976, voltei do mestrado na FGV-Rio, fui admitido para trabalhar no Bandes e selecionado para ser professor colaborador “part time” na Ufes. Depois fiz concurso e virei professor adjunto da universidade.


Dei uma volta. Para chegar ao ponto. 


Na Ufes, conheci e convivi durante 21 anos com uma galera de jovens professores com mestrado no Brasil ou no exterior cheios de sonhos e adesão (então) à “missão” de ensinar e formar profissionais e cidadãos.


A maioria pensava (e praticava) que ensinar significa ensinar a pensar. Essa é a tarefa principal do professor: ensinar a pensar. Quem pensa resolve problemas, formula ideias e soluções e executa. (Como os jovens gênios que acabaram construindo as Big Techs).


Nessa galera estava Regina Maria Monteiro, professora de administração financeira e filha do “Seu” João Monteiro, o amigo do meu pai. Herdei uma grata amizade familiar. Uma das mulheres mais fortes que conheci e tive o privilégio de conviver, inicialmente na Ufes ao lado de outros amigos e jovens professores idealistas (espécime existia mais do que hoje).

Regina Maria Monteiro
Regina Maria Monteiro Arquivo familiar

Nas mulheres mais fortes a inteligência emocional dá um banho. E a liderança é intrínseca e natural. Convivemos muito a partir de 1976. Colegas e amigos. Cheguei da FGV-Rio. Ela, mais “chique”, chegou da UCLA (University of California, Los Angeles).


Naquele ambiente universitário acadêmico sonhamos vários sonhos típicos de jovens idealistas. Com outros colegas e amigos que estão por aqui até hoje.


Na democratização do Brasil, por exemplo, no tempo das “diretas já” nos anos 1980, participamos da “invenção” das diretas já para reitor, nos idos de 1987. Era a pegada das diretas, na época.


Pois bem. Resolveram, um bando de malucos sonhadores, que eu seria candidato a reitor da Ufes em 1987. Topei. Mas era claramente uma espécie de anti-candidatura. “Enfrentar o sistema”. Enfrentei e perdi.


Todas as reuniões da campanha para reitor aconteciam na casa da Regina, na Reta da Penha, esquina com Av. Rio Branco. Hoje é um Hotel com uma farmácia ao lado. Sábados e domingos. Ela organizava tudo e mostrava, com delicadeza e liderança suave, que um pouco de pragmatismo seria bom para aquele bando de loucos (inclusive eu).


O lema da campanha era “Ousar para Mudar”! Imagina!


Aprendemos ali que a Ufes era (é ainda?) uma instituição conservadora. Como tal, tinha (tem?) baixa conexão com a sociedade. No sentido da inovação e relevância social, com algumas exceções. Tem agora?

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Fomos também colegas na FJSN (Fundação Jones dos Santos Neves), hoje Instituto Jones dos Santos Neves. Lá, fomos escalados para escrever o plano de governo (naquela época era de praxe) de Eurico Rezende. Com o apoio da Regina. Escrevemos o documento com foco em “ação social e regional”. Com a professora Maria Adélia Aparecida de Souza, da FEA/USP, na época – hoje ela está na Unicamp.


Na FJSN, convivemos e sonhamos o sonho do Brasil melhor. Regina Monteiro, Stélio Dias, Arlindo Villaschi, Fernando Bettarello, Roberto Penedo, eu e outros integrantes de uma equipe técnica enxuta e criativa.


Quando tem alma na jornada, a marca fica.


Mas ainda convivi com ela em outras duas situações profissionais.


No governo Vitor Buaiz na Prefeitura de Vitória (1989-1993), Regina foi secretária da Administração. Eu era consultor da então CDV (Companhia de Desenvolvimento de Vitória).

Depois veio a Aderes (Agencia de Desenvolvimento em Rede do ES), no governo Vitor Buaiz no Estado. Regina me ajudou e orientou no processo de criar, erguer e efetivar a Aderes. Uma escolha (a ideia de Agência) original naquela época. Como o foco em atuação em formato de rede.


Caminhar caminhando.


Regina tinha gosto pelas viagens pelo mundo. Daí o seu olhar cosmopolita, sem perder as raízes capixabas.


Era sempre impressionante a liderança suave dela. Com alegria e firmeza. Agora ela descansou.


Eu estava no exterior e não pude ir à cerimônia da despedida dela, dia 2 de junho passado.


Tem uma legião de amigos. Amiga dos amigos. Muitos estiveram lá na cerimônia, soube depois.


Salve, Regina Maria Monteiro! 


Antônio Carlos Medeiros

É pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaço, aos sábados, traz reflexões sobre a política e a economia e aponta os possíveis caminhos para avanços possíveis nessas áreas

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