Sair
Assine
Sair
Entrar

Recuperar senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Cadastrar nova senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

  • Início
  • Mundo
  • Por que o Irã está arriscando tanto por causa do Estreito de Ormuz
Mundo

Por que o Irã está arriscando tanto por causa do Estreito de Ormuz

Reabrir Ormuz sem garantir um reconhecimento do papel do Irã na gestão da via navegável significaria abrir mão do que alguns em Teerã veem cada vez mais como um recém-descoberto poder de dissuasão.

Publicado em 22 de Julho de 2026 às 05:35

BBC News Brasil

Publicado em 

22 jul 2026 às 05:35
Imagem BBC Brasil
Um mural do aiatolá Ali Khamenei — sucedido por seu filho, Mojtaba — em Teerã Crédito: EPA/Shutterstock
Após dez dias de troca de ataques com os Estados Unidos pelo controle da vital via marítima do Estreito de Ormuz, os líderes do Irã parecem ter três opções. Mas nenhuma delas oferece um caminho claro para a vitória.
A primeira é aceitar grande parte do que Washington deseja: garantir a passagem livre e segura pelo estreito, encerrando os ataques a navios comerciais; abrir mão ou reduzir o estoque de urânio altamente enriquecido; e aceitar inspeções intrusivas do órgão fiscalizador nuclear global.
Em contrapartida, Teerã buscaria o fim do bloqueio naval dos EUA aos portos iranianos, o alívio das sanções e garantias contra novos ataques.
Essa é provavelmente a opção menos custosa em termos materiais, mas também a mais custosa politicamente.
Reabrir Ormuz sem garantir um reconhecimento do papel do Irã na gestão da via navegável significaria abrir mão do que alguns em Teerã veem cada vez mais como um recém-descoberto poder de dissuasão — um poder que agora pode parecer mais eficaz do que os mísseis do Irã, seus grupos aliados na região ou até mesmo seu programa nuclear.
Pela primeira vez, a República Islâmica demonstrou sua capacidade de impor custos imediatos à economia global em resposta a um ataque de seus inimigos ao seu território.
O programa nuclear, por sua vez, tem sido apresentado há muito tempo como um direito que o país tem e que não pode ser forçado a abandonar.
Ceder a exigências de restrições rigorosas às atividades nucleares após meses de ataques permitiria que a linha-dura argumentasse que a pressão militar americana funcionou.
Isso também poderia abrir caminho para novas exigências relacionadas ao programa de mísseis do Irã e às suas relações com o Hezbollah no Líbano, grupos xiitas iraquianos e os houthis do Iêmen.
Imagem BBC Brasil
Navios no Estreito de Ormuz Crédito: Reuters
A segunda opção é a escalada. O Irã poderia intensificar seus ataques a bases americanas na região, a navios e a infraestruturas vitais nos países árabes do Golfo, na esperança de que a alta nos preços da energia e perturbações mais amplas forçassem Washington e seus aliados a chegar a um acordo.
Essa opção envolve o maior risco militar. Um ataque que causasse um grande número de baixas ou danos graves à infraestrutura do Golfo poderia arrastar os vizinhos do Irã mais diretamente para o conflito e deixá-lo enfrentando uma coalizão mais ampla.
A terceira opção é manter a instabilidade atual: exercer pressão suficiente sobre o transporte marítimo e os mercados de energia para preservar sua capacidade de barganha, mas não o bastante para desencadear uma guerra total com os EUA.
Essa abordagem parece alinhar-se à mentalidade consolidada da República Islâmica. O Irã não precisa derrotar um inimigo mais forte se conseguir resistir por mais tempo do que esse inimigo está disposto a lutar.
A própria sobrevivência pode ser apresentada como vitória. No entanto, as sanções, os danos causados ​​pela guerra e a inflação aumentam progressivamente a pressão interna.
Com o passar do tempo, pode surgir um paradoxo: quanto mais o Irã utiliza o Estreito de Ormuz como arma, menos poder poderá deter caso outros países encontrem novas formas de exportar energia e outras mercadorias a partir da região.
O presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, reconheceu essa contradição, argumentando que o valor de Ormuz reside no aumento do volume de tráfego marítimo na região, e não na sua redução. Uma via navegável permanentemente insegura incentiva o mundo a encontrar alternativas que contornem o Irã.

Quem está tomando as decisões?

A situação é ainda mais complicada pela incerteza em torno do processo de tomada de decisões do Irã.
Sob o comando do aiatolá Ali Khamenei — morto em um ataque no início da guerra entre EUA/Israel e Irã, em fevereiro —, as disputas entre políticos eleitos, instituições religiosas e a Guarda Revolucionária eram, em última instância, resolvidas pelo líder supremo. Após meses de guerra e sob a nova liderança de Mojtaba, filho de Khamenei, esse equilíbrio de poder tornou-se menos claro.
O presidente Masoud Pezeshkian e seus diplomatas podem ser favoráveis ​​a um acordo para aliviar a pressão econômica e restaurar a estabilidade. Por outro lado, a ala linha-dura do parlamento, instituições poderosas não eleitas e veículos de mídia conservadores podem temer que concessões significativas minem os fundamentos ideológicos da República Islâmica e afastem sua principal base de apoio.
A maior incógnita diz respeito às Forças Armadas, particularmente à Guarda Revolucionária. O programa de mísseis do Irã, as alianças regionais e a estratégia no Estreito de Ormuz são fundamentais para a influência da Guarda Revolucionária; no entanto, não está claro qual é o peso real dos comandantes nas decisões sobre escalada do conflito e negociações.
As três opções diante de Teerã não acarretam os mesmos custos para os diferentes segmentos do sistema. Pragmáticos podem defender um acordo, a linha-dura pode preferir a resistência, enquanto alguns comandantes militares podem ver a escalada como uma forma de fortalecer o poder de negociação do Irã.
A questão, portanto, não é apenas qual caminho o Irã escolherá, mas quem detém a autoridade para fazer essa escolha.

O que os iranianos estão dizendo?

A noção de resistência que a liderança possui é muito diferente daquela vivenciada por quem precisa suportá-la.
O Irã e os EUA assinaram um Memorando de Entendimento (MoU) em junho para interromper as operações militares e reabrir o Estreito de Ormuz, bem como para chegar a um acordo visando encerrar a guerra nos 60 dias seguintes.
No entanto, três semanas após a assinatura, o presidente dos EUA, Donald Trump, declarou o fim do cessar-fogo na esteira de ataques iranianos a navios em Ormuz e de ataques americanos em resposta.
Uma mulher no Irã disse ao serviço persa da BBC que ficou "muito triste" quando os combates recomeçaram. Ela esperava que o memorando desse aos dois lados tempo para resolver as disputas pendentes e restaurar a estabilidade. Em vez disso, ela teme a destruição de infraestrutura e a morte de civis e militares.
Ela culpou a linha-dura do sistema iraniano pela imposição de políticas destrutivas e também condenou figuras da oposição no exterior que, em sua visão, incentivaram a guerra.
Outra mulher em Teerã relatou que a empresa de comércio exterior onde trabalhava fechou as portas, deixando-a desempregada há quatro meses, apesar de possuir doutorado e 17 anos de experiência.
"Ninguém está contratando porque ninguém sabe o que vai acontecer", disse ela. Ela descreveu a disparada dos preços, cortes de energia e água, aumento de roubos e disparos ocasionais durante a noite. Agora, ela limita seus deslocamentos pela cidade.
Imagem BBC Brasil
Trump já afirmou que os EUA irão controlar o Estreito de Ormuz e bloquear o acesso aos portos iranianos Crédito: Reuters
Esses relatos não apontam para uma única conclusão política. Ataques estrangeiros podem gerar revolta contra os Estados Unidos e Israel, mesmo entre opositores da República Islâmica. Mas também ilustram os limites de se exigir que a população suporte dificuldades indefinidas em nome da resistência.
Trump também enfrenta escolhas difíceis: ampliar a guerra, manter a pressão militar e econômica ou aceitar um acordo que permita ao Irã um programa nuclear civil restrito, sob supervisão mais rigorosa. Nenhuma dessas opções oferece um caminho claro para a vitória.
O confronto pode se prolongar por meses, com ciclos de ataques, mediação e cessar-fogos temporários. A questão decisiva é por quanto tempo os líderes iranianos conseguirão manter Ormuz como instrumento de pressão sem provocar uma guerra total, novos distúrbios ou a criação de rotas alternativas que diminuam a importância do estreito.

Este vídeo pode te interessar

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Água escura e com cheiro de esgoto preocupa moradores em Manguinhos
Moradores denunciam água com cheiro de esgoto em praia de Manguinhos
31/08/2017. Audiência pública na CPI dos Maus-tratos. (E/D) O relator da CPI, senador José Medeiros; o presidente da comissão, senador Magno Malta; e o delegado da Polícia Civil do Espírito Santo Lorenzo Pazolini
Lorenzo Pazolini e Magno Malta: os laços por trás da nova aliança
Imagem BBC Brasil
'Assédio por pelos': como campanha para incentivar homens a usar bermuda no trabalho causa polêmica no Japão

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados