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Gelo nos testículos e doação de sangue: os mitos vendidos a homens que buscam 'melhorar' qualidade do esperma

Com a fertilidade masculina cada vez mais em evidência, conhecemos os homens que recorrem a truques não comprovados — promovidos por influenciadores — para aumentar a contagem de espermatozoides

Publicado em 25 de Julho de 2026 às 17:35

BBC News Brasil

Publicado em 

25 jul 2026 às 17:35
Imagem BBC Brasil
Simon, de 28 anos, segue uma rotina de várias etapas na tentativa de proteger sua fertilidade Crédito: BBC
Todas as manhãs, Simon começa o dia em uma sauna, com uma bolsa de gelo presa à virilha.
"Eu a coloco nos testículos para preservar uma alta contagem de espermatozoides", diz.
Ele acredita que o calor o ajuda a eliminar toxinas pelo suor, melhorando a função dos espermatozoides — mas afirma que precisa tomar cuidado para proteger os testículos do calor excessivo.
O jovem de 28 anos, de Miami, toma sol diariamente, se exercita com frequência, bebe apenas água filtrada e usa cuecas boxer de algodão — tudo isso faz parte de uma rotina voltada para a fertilidade, que ele segue apesar de não haver evidências médicas de que essas práticas realmente funcionem.
Há um fundo de verdade em algumas dessas alegações: poluentes ambientais e o aquecimento dos testículos podem afetar a qualidade do esperma.
Mas é improvável que as medidas adotadas por Simon façam uma diferença significativa na sua fertilidade, embora a prática de exercícios físicos beneficie sua saúde de forma geral.
Ele faz parte de um número crescente de homens que vêm prestando mais atenção à própria fertilidade. No TikTok e no Instagram, hashtags em inglês como #malefertility, #semenanalysis e #sperm acumulam centenas de milhões de visualizações, enquanto comunidades online dedicadas a melhorar a saúde dos espermatozoides cresceram rapidamente.
Simon não pretende ter filhos tão cedo e não tem uma parceira. Sua maior preocupação é saber se uma baixa contagem de espermatozoides pode afetar sua saúde.
Ele teme que uma fertilidade reduzida possa comprometer o chamado sistema endócrino, uma rede de glândulas e órgãos responsável pela liberação de hormônios no organismo.
Mas não há evidências de que isso aconteça.
Uma baixa contagem de espermatozoides não provoca problemas no sistema endócrino, embora as duas condições possam ocorrer ao mesmo tempo em algumas pessoas.

'Eu escolhi proteger minha fertilidade'

Especialistas em fertilidade masculina de diferentes partes do mundo afirmam ter observado um aumento no número de homens que procuram fazer exames de análise do sêmen e demonstram preocupação com sua fertilidade futura.
Segundo esses especialistas, esse movimento é impulsionado, em parte, pelas preocupações com os efeitos da terapia de reposição de testosterona (TRT), do uso de esteroides anabolizantes e da exposição a determinados poluentes ambientais — fatores que podem afetar negativamente os hormônios responsáveis pela produção de espermatozoides.
O professor Suks Minhas, especialista em fertilidade no Reino Unido, afirma que o aumento das discussões sobre a queda na contagem de espermatozoides e a fertilidade masculina tem aspectos positivos e negativos.
"É importante dar mais visibilidade à infertilidade masculina. Mas será que estamos alimentando essa preocupação de forma desnecessária?", questiona.
Ao mesmo tempo, acrescenta ele, surgiu toda uma indústria de influenciadores e produtos que se beneficia dessa ansiedade.
Assim como muitos outros homens, Simon passou a se interessar pelo tema da fertilidade depois de ver conteúdos nas redes sociais. Foram os influenciadores falando sobre a queda na contagem de espermatozoides que despertaram sua preocupação. Ainda assim, ele nunca fez um exame de análise do sêmen e não tem nenhum motivo específico para acreditar que tenha um problema de fertilidade.
"É algo que, de modo geral, me assusta. Por isso, escolho proteger minha fertilidade", afirma.
Imagem BBC Brasil
O ex-bilionário do Vale do Silício Bryan Johnson afirma ter quatro vezes a contagem média de espermatozoides Crédito: Getty Images
Foi o conteúdo do influenciador Bryan Johnson que levou Simon a "realmente se preocupar" com sua fertilidade.
Johnson, um ex-bilionário do Vale do Silício, ficou conhecido por querer viver para sempre. Nos últimos cinco anos, ele vem fazendo experimentos consigo mesmo, usando métodos controversos na tentativa de prolongar sua expectativa de vida.
Ele afirma ter uma contagem de espermatozoides quatro vezes maior do que a média, com base em cinco exames laboratoriais realizados ao longo de três meses.
Johnson promove protocolos sem comprovação científica, como o uso de sauna combinado com bolsas de gelo, alegando que eles aumentam os níveis de testosterona e a contagem de espermatozoides — práticas que Simon segue.
O conteúdo de Johnson — acompanhado por mais de seis milhões de pessoas — direciona seus seguidores para seu site, Blueprint, onde ele vende suplementos.
Mas ele está longe de ser a única voz nesse universo. Outros protocolos promovidos por influenciadores, também sem respaldo científico, incluem o uso de determinados suplementos, terapia com luz vermelha e até a doação de sangue para "filtrar" microplásticos do organismo.

Queda nas taxas de natalidade

Esse tipo de conteúdo produzido por influenciadores surge em meio a discussões mais amplas sobre a queda das taxas de natalidade.
Globalmente, a taxa de fecundidade caiu de 4,9 filhos por mulher em 1950 para 2,2 em 2025. Atualmente, 106 países estão abaixo da chamada taxa de reposição populacional, de 2,1 filhos por mulher, segundo as projeções da ONU publicadas no relatório World Population Prospects 2025.
O secretário de Saúde dos Estados Unidos, Robert F. Kennedy Jr., que já promoveu algumas alegações de saúde sem comprovação científica, falou recentemente em uma "crise de fertilidade". Segundo ele, em 1970, "os homens tinham o dobro da contagem de espermatozoides dos adolescentes de hoje".
Análises de grande escala sugerem que houve uma queda significativa na contagem e na qualidade dos espermatozoides em todo o mundo desde a década de 1970. No entanto, não é simples fazer uma comparação direta entre os jovens de hoje e os homens mais velhos daquela época, já que a idade não era o foco desses estudos.
De modo geral, há consenso de que a contagem e a qualidade dos espermatozoides estão em declínio, embora alguns dados indiquem que essa redução talvez não seja tão acentuada quanto se temia.
Segundo uma metarrevisão publicada em 2023 sobre a queda na contagem de espermatozoides, o tema ainda é pouco estudado, e tanto as causas desse declínio quanto seus impactos sobre as taxas de natalidade permanecem incertos.
Já estudos publicados em 2024 e 2025, que analisaram populações mais específicas nos Estados Unidos e na Dinamarca, não encontraram evidências dessa queda na contagem de espermatozoides e defenderam a realização de mais pesquisas sobre o tema.
Enquanto isso, influenciadores ligados ou próximos da chamada "manosfera", como Andrew Huberman, têm discutido em seus podcasts a queda na contagem de espermatozoides dos homens. Já Joe Rogan chegou a alertar para um iminente "colapso populacional".
Mas há muitos fatores não biológicos por trás da queda das taxas de natalidade. Segundo o relatório *State of World Population 2025*, da ONU, 39% das pessoas afirmaram que razões financeiras as impedem de ter o número de filhos que gostariam. Além disso, uma em cada cinco citou a instabilidade ambiental e política como motivo.
O professor Channa Jayasena, endocrinologista especializado em reprodução do Imperial College London, acredita que há motivos legítimos para preocupação com a queda na contagem de espermatozoides, mas afirma que as alegações sobre problemas de fertilidade masculina são exageradas nas redes sociais.
"Existem, sim, alguns desafios, mas ainda está longe de estar claro quais são as causas deles", afirma.
Imagem BBC Brasil
O naturopata Lucas é um biohacker que segue uma rotina de otimização da saúde, incluindo terapia com luz vermelha, embora as evidências científicas sobre sua eficácia sejam limitadas. Crédito: BBC
Apesar de ainda não haver um quadro claro sobre as causas da infertilidade masculina, soluções sem comprovação científica vêm sendo comercializadas nas redes sociais.
O naturopata Lucas é um dos influenciadores da área da saúde cujo conteúdo inclui alertas sobre a queda das taxas de fertilidade.
"Estamos vendo uma epidemia mundial, uma redução da fertilidade em todos os aspectos", disse ele à BBC.
Mas a preocupação de Lucas vem acompanhada de algumas afirmações enganosas. Em um vídeo no YouTube, por exemplo, ele afirmou que os homens seriam inférteis em 33 anos — uma alegação que não é respaldada por evidências científicas.
Ele vende cursos online, oferece consultorias individuais e comercializa suplementos voltados para homens que desejam aumentar os níveis de testosterona e melhorar a fertilidade.
Seu conteúdo nas redes sociais, que promove alguns protocolos de fertilidade sem comprovação científica, viralizou.
"Eu recomendo que os homens coloquem uma bolsa de gelo por dentro da roupa íntima, duas ou três vezes por dia, durante cerca de 10 a 15 minutos", diz ele, alegando que alguns clientes relataram que suas parceiras engravidaram após adotarem essa prática.
"Isso ainda é preliminar. Mas acho que é uma estratégia promissora o suficiente para valer a pena tentar", afirma.
Questionado sobre o fato de seu conselho não ter comprovação científica, Lucas respondeu que considera o resfriamento dos testículos uma "intervenção promissora", mas acrescentou que gostaria de ver mais pesquisas sobre o tema.
As orientações do NHS, o sistema público de saúde do Reino Unido, afirmam que roupas íntimas muito apertadas podem aumentar a temperatura dos testículos, o que pode afetar a qualidade dos espermatozoides.
Lucas também orienta seus seguidores e clientes sobre alimentação saudável, sono e prática de exercícios físicos — medidas que, estas sim, contam com sólida base científica.
O professor Channa Jayasena recomenda mudanças no estilo de vida para melhorar a fertilidade.
"Se houver fatores reversíveis, como parar de fumar, perder peso e aumentar a atividade física", diz ele, "essas são, de longe, as melhores medidas que alguém pode adotar".
Imagem BBC Brasil
O professor Channa Jayasena recomenda mudanças no estilo de vida para melhorar a fertilidade. Crédito: BBC
Esse aumento no volume de conselhos sobre fertilidade divulgados por influenciadores ocorre ao mesmo tempo em que cresce o número de homens que usam medicamentos para aumentar os níveis de testosterona.
Mas o uso de esteroides anabolizantes e de testosterona pode prejudicar a fertilidade masculina.
Na tentativa de reverter esse dano, influenciadores promovem os chamados **"stacks"** — combinações de diferentes medicamentos — que muitas vezes são vendidos em seus próprios sites.
Entre eles estão os medicamentos para fertilidade **HCG** e **HMG**. Embora esses remédios sejam prescritos em situações médicas específicas, eles não foram desenvolvidos para que outras pessoas os utilizem com o objetivo de "reativar" a fertilidade.
Esses medicamentos podem causar efeitos colaterais graves e provocar danos permanentes quando usados sem orientação médica.
"É extremamente perigoso", afirma o professor Channa Jayasena. "Alguns deles podem causar coágulos sanguíneos e até provocar o crescimento das mamas, uma condição que pode deixar sequelas se não for tratada rapidamente."
A BBC conversou com sete homens, de diferentes partes do mundo, que estavam usando esses "stacks" de fertilidade para tentar recuperar a capacidade reprodutiva após fazerem terapia de reposição de testosterona (TRT, na sigla em inglês).
Como é ilegal comprar drogas como esteroides pela internet em muitos países, eles pediram para permanecer anônimos.
Um deles contou que acreditava que seria pai de "muitos filhos" depois de fazer um ciclo intensivo com HMG e HCG.
Imagem BBC Brasil
Jamal, not his real name, initially took steroids and testosterone to boost his muscle mass Crédito: Contributor
Jamal — nome fictício — usou altas doses de testosterona e esteroides anabolizantes para musculação, o que reduziu seus indicadores de fertilidade. Ele interrompeu o uso no fim do ano passado, quando ele e sua parceira começaram a pensar em ter filhos.
Em fóruns online e no YouTube, Jamal encontrou orientações de homens que haviam passado pela mesma situação. Muitos recomendavam os chamados **"stacks de fertilidade"**, apresentados como soluções "à prova de falhas".
Como essas estratégias não funcionaram, ele procurou ajuda profissional e consultou o endocrinologista especializado em reprodução Channa Jayasena. Até então, ele não sabia que usar esses "stacks" sem acompanhamento médico poderia ser perigoso.
Seguindo a orientação de Jayasena, Jamal interrompeu todos os medicamentos, incluindo o "stack de fertilidade". Seis meses depois, seus níveis naturais de testosterona estão melhorando. No entanto, o hormônio responsável por estimular a produção de espermatozoides ainda permanece baixo. Mesmo assim, ele e seu médico estão otimistas de que esses níveis continuarão a se recuperar.
Segundo Jayasena, embora o aumento da conscientização sobre a fertilidade masculina seja positivo, ele também criou um vazio de informação confiável. Com isso, homens como Jamal acabam recorrendo aos conselhos de influenciadores porque nem sempre conseguem ter acesso fácil a especialistas.
"Na melhor das hipóteses, isso pode apenas desviar a atenção deles das medidas que realmente poderiam ajudar. Mas, na pior, pode levá-los a adotar práticas prejudiciais à saúde", afirma.

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