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50 mulheres dizem à BBC terem sido forçadas a fazer sexo com estranhos após investigação sobre site de troca de casais

Mulheres disseram que foram pressionadas ou coagidas por seus parceiros a participar de encontros de swing.

Publicado em 24 de Julho de 2026 às 10:35

BBC News Brasil

Publicado em 

24 jul 2026 às 10:35
Imagem BBC Brasil
Muitas das mulheres disseram carregar traumas que persistem até hoje Crédito: BBC
Aviso: esta reportagem contém detalhes de atos sexuais
Cinquenta mulheres disseram à BBC que foram pressionadas ou coagidas por seus parceiros a fazer sexo com desconhecidos.
Elas procuraram a reportagem da BBC após a publicação de uma investigação que contou a história de uma mulher que afirmou ter sido pressionada a fazer sexo com mais de 100 pessoas que ela não conhecia.
Muitas das mulheres relataram ter participado de encontros de troca de casais (swing) contra a própria vontade, seja porque temiam as consequências de recusar, seja porque sentiam que precisavam agradar seus parceiros.
Elas descreveram traumas profundos e duradouros.
"Eu me lembro de muitas noites em que meu parceiro me mantinha acordada, gritando comigo, me ameaçando e tentando me convencer de que era isso que eu queria", disse uma das mulheres. "Mas nunca foi o que eu quis."
Outra contou: "Senti como se tivesse sido entregue. Me senti usada. Me senti suja".
Segundo os relatos, a maioria dos encontros foi marcado pelo site FabSwingers, que afirma ter mais de meio milhão de contas ativas por mês no Reino Unido.
Seis mulheres disseram à BBC News que foram estupradas por homens que conheceram por meio do site.
Uma delas afirmou que o parceiro a obrigou a fazer sexo com mais de 90 homens por meio do FabSwingers. Em uma das ocasiões, segundo ela, ele a segurou pelos tornozelos.
Dezesseis mulheres disseram que fotos íntimas delas foram publicadas no site sem autorização.
A prática do swing geralmente envolve casais que se encontram para trocar de parceiros, mas também pode ocorrer quando apenas um dos integrantes do casal tem relações sexuais enquanto o outro assiste. Muitas pessoas praticam essa atividade de forma consensual.
Algumas das mulheres que procuraram a BBC acusam o FabSwingers de facilitar abusos e de não agir para impedir práticas ilegais.
O site afirma que adota políticas de moderação e que não é "responsável por condutas privadas entre adultos fora da plataforma".
"Não aceitamos qualquer insinuação de que o FabSwingers seja indiferente ao uso indevido da plataforma", acrescentou a empresa.
Mas a parlamentar britânica Jess Phillips, ex-ministra do Partido Trabalhista responsável por políticas de proteção e de combate à violência contra mulheres e garotas, afirma que o FabSwingers "deveria ser fechado".
Para Phillips, a polícia deveria reconhecer a coerção ou a pressão para participar de swing como uma forma de exploração sexual de adultos. "Chamar isso de swing pressupõe que houve consentimento e, por isso, acaba colocando a culpa nas mulheres. Isso faz com que muitas delas se calem."
Especialistas ouvidos pela BBC News afirmam que é importante compreender que uma pessoa pode ser manipulada a dar consentimento. Segundo eles, parceiros que pressionam mulheres a participar de swing podem depois usar a vergonha decorrente dessas experiências como forma de controle.
Imagem BBC Brasil
Ruth O'Grady conta que ainda tem flashbacks Crédito: BBC
O podcast The Swingers e a reportagem da BBC contaram anteriormente a história de Ruth O'Grady, que afirmou que o ex-marido marcava encontros para que ela fizesse sexo com outros homens, às vezes com até quatro pessoas em um único dia. Ela diz que aceitava para agradá-lo. O ex-marido não respondeu aos questionamentos da BBC News.
As mulheres que entraram em contato com a BBC após a publicação da história de O'Grady têm perfis e histórias de relacionamento muito diferentes. Mas muitas delas disseram que a sinceridade de O'Grady lhes deu coragem para falar sobre abusos que haviam mantido em segredo durante anos.
Uma delas afirmou que, se não tivesse visto nossa reportagem, "provavelmente teria feito sexo contra a minha vontade hoje mesmo à noite. Essa tem sido a minha realidade há 12 anos". Os abusos "não acontecerão mais", disse ela.
Outra mulher, Emily, de Derbyshire, contou que foi pressionada a ir a uma casa de swing enquanto estava grávida. "Minha filha estava na minha barriga", disse ela. "É horrível pensar que acabei envolvendo ela nisso."
Emily esperava que uma única visita bastasse, mas disse que o marido queria continuar. Os dois acabaram criando uma conta no FabSwingers. Durante anos, passavam as noites procurando parceiros para encontros sexuais pelo site.
Emily contou que, se a filha pequena não tivesse adormecido até as 19h, o marido entrava no quarto e a puxava, dizendo: "A mamãe precisa ir agora".
Segundo ela, a menina chorava porque ainda não estava pronta para dar boa-noite ou porque elas não tinham terminado a história antes de dormir.
Emily acabou deixando o casamento, mas estima que teve relações sexuais com entre 20 e 30 homens enquanto participava desses encontros.
Ela contou que, na época, não encarava aquilo como abuso sexual porque havia concordado em experimentar o swing, mas que hoje vê a situação de outra forma.

Medo de procurar a polícia

Dezesseis usuárias da plataforma disseram à BBC que denunciaram à polícia casos de supostos abusos ou a publicação, sem consentimento, de imagens íntimas no FabSwingers. Três afirmaram que as investigações resultaram em condenações.
No entanto, dez relataram problemas na forma como a polícia conduziu seus casos.
Uma das mulheres contou que tinha 21 anos quando o namorado criou um perfil dela no FabSwingers. Segundo ela, era o namorado quem administrava toda a conta, e ela nem sabe a identidade de alguns dos homens com quem fez sexo, porque o namorado fazia questão de que ela não os visse nem conversasse com eles.
Ela procurou a polícia, mas o caso acabou sendo arquivado. Segundo seu relato, os policiais disseram que, pelos vídeos a que assistiram, ela parecia estar gostando das relações sexuais.
A mulher afirmou que explicou aos investigadores que o ex-namorado ficava furioso se ela não aparentasse entusiasmo suficiente e, como punição, a obrigava a fazer sexo com outro homem. "A polícia me fez me sentir nojenta", disse.

Polícia precisa de mais treinamento

A polícia precisa de mais treinamento para compreender o controle coercitivo e reconhecer que a pressão para participar de atos sexuais pode fazer parte da violência doméstica, afirma Nicole Jacobs, comissária para violência doméstica na Inglaterra e no País de Gales.
O Conselho Nacional de Chefes de Polícia (NPCC, na sigla em inglês) afirmou à BBC: "As vítimas merecem ser ouvidas e receber apoio de forma consistente em todo o país."
Uma das mulheres que procuraram a BBC disse que não foi à polícia porque o marido era policial da ativa.
Susie, nome fictício adotado pela reportagem da BBC para preservar a sua identidade, contou que, durante anos, o marido falava sobre a fantasia de vê-la fazendo sexo com outros homens e acabou convencendo-a a criar uma conta no FabSwingers.
Ela descreveu um encontro em que o marido permaneceu sentado em um sofá, em um quarto de hotel, apenas assistindo enquanto ela fazia sexo com um desconhecido — prática conhecida como hotwifing.
Segundo Susie, o homem seguinte com quem o marido queria que ela fizesse sexo era um colega de trabalho dele na polícia.
Ela afirmou que toda a experiência com o swing a destruiu. "Eu não conseguia dormir. Eu bebia muito todas as noites."
Atualmente, Susie está se divorciando e faz uso de antidepressivos.
Imagem BBC Brasil
A investigação gerou debates nos fóruns internos do FabSwingers Crédito: BBC
Onze homens também procuraram a BBC para relatar suas experiências como usuários do FabSwingers.
Um deles contou que chegou a uma casa para um encontro sexual marcado pelo site e encontrou uma mulher nua deitada na cama. Havia um celular apoiado ao lado dela, e uma voz masculina dizia o que ela deveria fazer em seguida, relatou.
Segundo esse homem, eles tiveram relações sexuais e, do outro lado da linha, o homem "queria uma prova do que estava acontecendo e pediu que eu aproximasse o celular para mostrar".
"Ela não tinha qualquer poder de decisão sobre o que estava acontecendo", disse. Ele afirmou que só percebeu que a mulher poderia estar sendo controlada e vítima de abuso depois de ouvir o podcast The Swingers. Hoje, lamenta o que aconteceu.

'Eles não se importam com a segurança das mulheres'

Nove usuários disseram à BBC que denunciaram casos de abuso ao FabSwingers, mas não receberam qualquer resposta. Entre eles está um homem que denunciou a agressão sexual sofrida por sua companheira por parte de um usuário da plataforma.
Pela Lei de Segurança Online (Online Safety Act, em inglês), plataformas como o FabSwingers são obrigadas a remover conteúdos ilegais, incluindo o compartilhamento não consensual de imagens íntimas. Elas também devem reduzir os riscos de danos aos usuários, entre eles comportamentos de controle coercitivo.
Três mulheres disseram à BBC que o FabSwingers não colaborou com as investigações policiais. Além disso, vários usuários afirmaram ter sofrido represálias por denunciar irregularidades, incluindo o banimento de fóruns de conversa onde poderiam relatar suas preocupações.
O site não se importa nem um pouco com a segurança das mulheres, afirmou uma das entrevistadas. Ainda assim, segundo ela, "vive protegendo homens perigosos".
O site FabSwingers afirmou à BBC que denúncias de coerção, agressão sexual e compartilhamento não consensual de imagens íntimas recebem tratamento prioritário. A empresa também disse que colabora com a polícia e que não pune usuários por apresentarem denúncias.
No entanto, três ex-moderadores da plataforma disseram à BBC que nunca receberam qualquer treinamento. Dois afirmaram que trabalhavam em troca de acesso gratuito ao serviço, enquanto o terceiro disse que atuava de forma voluntária.
Imagem BBC Brasil
Para a deputada trabalhista Jess Phillips, o FabSwingers deveria ser fechado Crédito: Getty Images
A parlamentar trabalhista Jess Phillips afirmou à BBC que isso é preocupante. "Nem mesmo treinam os moderadores do site. Eles deveriam se envergonhar."
Ao contrário de algumas outras plataformas de swing, o FabSwingers não exige a verificação da identidade dos usuários, o que pode dificultar o trabalho da polícia para identificar suspeitos quando há denúncias. Isso também permite que um usuário banido crie uma nova conta, embora o FabSwingers afirme ser capaz de detectar esse tipo de situação, sem explicar como faz isso.
O FabSwingers também informou à BBC que o seu sistema de moderação conta com até cinco administradores, aos quais os moderadores reportam casos, além de inteligência artificial (IA) e "controles automatizados".
Desde 2023, o site foi citado em pelo menos 329 registros policiais no Reino Unido, segundo pedidos de acesso à informação feitos pela BBC. Os casos incluem denúncias de estupro, crimes sexuais, controle coercitivo, assédio, chantagem, perseguição, agressão e posse de pornografia extrema. Mas isso não significa que o FabSwingers seja responsável pelos fatos relatados nesses registros.
Phillips afirmou acreditar que o site "descumpre" a Lei de Segurança Online. Ela acrescentou que incentivaria a agência reguladora Ofcom a "analisar o caso com muita, muita atenção e fechar o site".
A Ofcom afirmou estar "extremamente preocupada" com as descobertas da BBC e disse que está em contato com o responsável pelo site. Mas até o momento não abriu uma investigação.
A grande maioria das pessoas que entrou em contato com a BBC eram mulheres que queriam agradecer a O'Grady, protagonista do podcast The Swingers, por compartilhar sua história.
"Ainda não estou preparada para que as pessoas que amo saibam de algumas dessas coisas do meu passado", disse uma delas. "Mas agora me sinto um pouco menos sozinha.
Reportagem adicional de Emily Parsons

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