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Meio ambiente

Como mudanças climáticas agravam epidemias no ES? Entenda

Artigo elaborado por aluna e professores da Ufes mostra que eventos de mudanças climáticas também se relacionam à piora da saúde humana, animal e ambiental

Publicado em 25 de Julho de 2024 às 11:02

João Barbosa

Publicado em 

25 jul 2024 às 11:02
Pessoas tentam encontrar alimentos em meio à lama da destruição em Mimoso do Sul
Pessoas tentam encontrar alimentos em meio à lama da destruição após as chuvas em Mimoso do Sul Crédito: Fernando Madeira
Incêndios florestais, enchentes, inundações, ondas de calor, de frio e deslizamentos de terra. Eventos que, além do impacto ambiental, também se relacionam à piora da saúde humana. Segundo um relatório produzido em 2022 por especialistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), a humanidade teria apenas três anos para impedir consequências irreversíveis desencadeadas por mudanças climáticas. Ou seja, até 2025.
Diante do relatório, um estudo elaborado por uma aluna e professores da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) apontou para alertas entre saúde animal, ambiental e humana através das mudanças e eventos climáticos constantes.
O artigo capixaba, assinado pela estudante Mariana Ferreira e pelos professores Yuri Reis, Crispim Cerutti e Rachel Vicente, intitulado como “Impact of climate chance on public health in Brazil” (em tradução livre, “Impacto das mudanças climáticas na saúde pública no Brasil”), baseou-se no relatório do IPCC e foi publicado na revista científica Public Health Challenges.
Rachel Vicente, professora do Departamento de Medicina Social e do Programa de Pós-Graduação em Doenças Infecciosas (PPGDI) da Ufes, explica que o artigo mostra como as mudanças climáticas poderão aumentar a carga de doenças infecciosas, crônicas e a ocorrência de emergências em saúde em uma escala regional e até nacional.
"As consequências das mudanças climáticas são um aumento esperado na ocorrência de doenças transmitidas por vetores, como o mosquito Aedes aegypti, que transmite os vírus da dengue, zika e chikungunya, pois as altas temperaturas e umidade favorecem a reprodução do mosquito. Além disso, enchentes podem contribuir para disseminação de doenças transmitidas pela água, como a leptospirose"
Rachel Vicente - Professora do Departamento de Medicina Social e do Programa de Pós-Graduação em Doenças Infecciosas (PPGDI) da Ufes
Como exemplo, no Espírito Santo, a cidade de Mimoso do Sul, atingida por fortes chuvas em março deste ano, chegou a registrar 80 casos de leptospirose no início de abril, após as inundações. Em apenas dez dias, o número mais que dobrou, chegando a 172 notificações da doença.
No caso das ondas de calor, as ocorrências se baseiam em doenças cardiovasculares, como insuficiência cardíaca e arritmia, e respiratórias, como bronquite e asma, que podem ser agravadas com o ar seco e quente. Ao mesmo tempo, além das enfermidades físicas, há também impactos na saúde mental, principalmente após a ocorrência de desastres ambientais.
“Todos serão impactados pelas mudanças climáticas. Acontece que a população menos favorecida, que vive em áreas de risco para deslizamentos de terra, alagamentos, em regiões sem saneamento ou com pior acesso a alimentos e água tratada, sofrerá mais esses impactos. A pessoa atingida por uma emergência dessas é obrigada a lidar com aquilo tudo de uma vez só”, aponta Rachel.

Diminuir impactos é tarefa conjunta

No Espírito Santo, as mudanças climáticas afetam diversas áreas da sociedade, segundo a professora, que, para mitigação dos impactos, recomenda a criação de planos e políticas voltadas para a conservação ambiental. No artigo, os autores ainda indicam que os problemas de saúde também se relacionam à urbanização desordenada, muitas vezes, com estrutura de saneamento inadequada.
“As ações [de mitigação] devem estar baseadas na Saúde Única, ou Uma Só Saúde, pois há conexão entre a saúde humana, ambiental, animal e das plantas. Portanto, devemos trabalhar juntos e em todos os níveis para o enfrentamento das consequências das mudanças climáticas na saúde pública, e isso envolve a população, os setores produtivos e o poder público”, frisa Rachel.
Entre as soluções possíveis, os autores apontam o cultivo de espécies agrícolas adequadas para viver com menos água e em ambientes mais quentes, com investimento em engenharia agronômica, reúso de água e uso de água das chuvas, com incentivos econômicos e investimentos em infraestrutura, com a criação de barreiras naturais, espaços verdes e materiais sustentáveis. 
Segundo a professora, os principais desafios de enfrentamento estão ligados ao baixo financiamento, conflito de poderes e pouca articulação entre diversos setores.
“Por vezes, vemos a área da saúde trabalhando sozinha. Isso, em muitos casos, não é efetivo. A dengue, por exemplo, é uma questão de saúde, mas temos que pensar também quais fatores ambientais colaboram para a proliferação dos mosquitos”, aponta a professora.
“Entretanto, com esses desafios sendo superados, a principal vantagem é estarmos mais preparados e com sistemas de saúde e resposta mais resilientes a uma realidade que vem se impondo em todo o mundo, para minimizar sua consequência para a saúde humana, animal, ambiental e das plantas”, finaliza Rachel.

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