A decisão de fechar as portas dos supermercados e atacarejos aos domingos no Espírito Santo, em vigor desde o último dia 1º de março após acordo entre patrões e empregados, já apresenta reflexos negativos na economia capixaba, aponta estudo realizado pela empresa Scanntech.
O levantamento revela que o Estado, que vinha superando a média nacional em crescimento de faturamento, passou a registrar uma performance negativa depois de março, enquanto o desempenho do varejo no restante do Brasil foi positivo.
Antes da implementação da medida, em janeiro e fevereiro, o Espírito Santo apresentou crescimento de 3% na receita em relação ao ano anterior, superando a média brasileira, que era de 2,3%.
No entanto, o cenário mudou no bimestre seguinte, quando o fechamento aos domingos passou a valer. O Espírito Santo teve uma queda de 1,3% no faturamento do varejo alimentar, enquanto o mercado nacional teve crescimento de 0,7% no período, um descolamento de 2 pontos percentuais, que aumentou 2,7 p.p. em relação ao bimestre anterior.
A análise foi realizada a partir da base de dados da Scanntech, que capta informações de vendas diretamente dos supermercados e atacarejos. Felipe Passareli, head de Inteligência de Mercado da companhia, explica que as informações coletadas representam 64% do mercado capixaba no canal alimentar – supermercados e atacarejos.
Mudança no comportamento do consumidor
O estudo indica que o consumo, impedido de ocorrer aos domingos, migrou para outros dias da semana. Em março, houve um aumento nas vendas nas segundas (+15%) e terças-feiras (+25,3%).
Já em abril, a concentração se deslocou para o meio da semana, com altas nas quartas (+14,8%) e quintas-feiras (+34,3%). Para Passareli, esses dados mostram uma adaptação rápida do capixaba a uma nova rotina de compras.
Na época, algumas redes de supermercados passaram a ampliar horário às sextas e aos sábado para atender à demanda do público dos domingos.
Além da redistribuição dos dias de compra, o head de inteligência de Mercado da Scanntech destaca três situações na pesquisa.
A primeira delas foi o impacto desigual entre cestas e categorias: as cestas com maior presença em pontos de venda alternativos foram as mais afetadas nos supermercados, casos de perfumaria (-8,8 p.p. de diferença vs. Brasil), carnes (-4,4 p.p.) e bebidas não alcoólicas (-0,4 p.p.).
Quando o domingo deixa de ser opção, o consumidor migra para açougues, farmácias e lojas especializadas. Por categoria, os maiores descolamentos aparecem em azeite, frios industrializados e café
Felipe Passareli Head de Inteligência de Mercado da Scanntech
Atacarejo foi o tipo de loja mais afetado
A pesquisa apontou também que o atacarejo foi o formato mais impactado pelo fechamento das lojas aos domingos: o faturamento do canal caiu -5,8% no Estado, contra -0,7% no Brasil, uma diferença de 5,1 p.p.
O estudo mostrou também que as lojas menores sofrem mais: entre supermercados, o descolamento chega a -6,1 p.p. nas lojas de um a quatro caixas. A mudança cai para -2,1 p.p. nas de cinco a nove caixas. Nas de 10 ou mais caixas, a troca é de apenas -0,2 p.p. “Ou seja, o impacto é regressivo: quanto menor a loja, maior o efeito”, diz Passareli.
A reportagem procurou a Associação Capixaba de Supermercados (Acaps) e a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Espírito Santo (Fecomércio) para comentar os resultados da pesquisa, mas ambas as entidades não deram retorno.