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Luta contra a dor

Mãe reforma santos como terapia após perder filho em acidente no ES

Vanuza Alves de Souza usa o artesanato para aliviar o sofrimento da perda; especialistas afirmam que prática pode ser ótima aliada no combate ao luto

Publicado em 06 de Setembro de 2022 às 15:09

Lara Mireny

Publicado em 

06 set 2022 às 15:09
Após perder o filho, mãe utiliza o artesanato como forma de terapia em Itapemirim
Vanuza Alves de Souza e os artesanatos feitos por ela: a atividade funciona para ela como uma terapia contra o luto Crédito: Vanuza Alves de Souza
Há pouco mais de dois anos, a artesã Vanuza Alves de Souza perdeu um filho em um acidente de carro em Marataízes, no Sul do Espírito Santo. Praticamente sem forças para enfrentar a perda, ela encontrou nos trabalhos manuais uma forma de superar o luto. Hoje, aos 49 anos, ela confecciona mandalas, pinta vidros e reforma santos.
Moradora de Itapemirim e casada há cerca de duas décadas, ele teve três filhos. No entanto, no dia 1º de maio de 2020, o Kaio – que na época tinha apenas 18 anos – morreu. “Ele era maravilhoso, me ajudava em tudo, era alto astral. Em todas as vezes que pensei em desistir, ele me levantou”, conta.
Após perder o filho, mãe utiliza o artesanato como forma de terapia em Itapemirim
O jovem Kaio, de 18 anos, que morreu em maio de 2020 em um acidente em Marataízes Crédito: Arquivo da família
Segundo a mãe, ele tinha pegado uma carona com mais três pessoas, porém, o veículo caiu na Ponte do Pontal, na Barra de Itapemirim. O jovem foi o único que morreu. “Isso acabou comigo. Eu cheguei a ir a três psiquiatras para me ajudar, mas nenhum conseguiu”, comenta.
"Eu vivia por ele e achei que fosse morrer"
Vanuza Alves de Souza - Artesã
Formada em Pedagogia e Educação Especial, Vanuza trabalha atualmente no ramo da estética, como micropigmentadora. Ela confessa que nunca pensou que poderia pintar e fazer artesanato. No entanto, esse cenário acabou mudando quase que por acaso, no ano passado.

A TRANSFORMAÇÃO EM ARTESÃ

Em meio ao luto, ela recebeu uma foto de uma amiga pintando em gesso, mas não se interessou, a princípio. Em um certo dia, o marido de Vanuza chegou em casa com quatro mandalas de gesso quebradas. “Falei para ele deixar ali no canto que eu veria o que fazer, só que eu estava sem tinta e material para restaurar”, relata.
Após perder o filho, mãe utiliza o artesanato como forma de terapia em Itapemirim
Antes e depois da confecção da santa Nossa Senhora Aparecida Crédito: Vanuza Alves de Souza
O marido, então, disse que ela poderia usar as tintas que estavam no guarda-roupa do Kaio. “Não tive coragem de abrir, mas ele foi lá e pegou e deixou as tintas perto de mim”, lembra Vanuza. Com o tempo, Vanuza resolveu pintar. “Eu pintei do meu jeito e foi ali que começou, e com um toque do meu filho”, destaca.
"O artesanato vem restaurando esse vazio deixado com a partida do meu filho"
Vanuza Alves de Souza - Artesã
Atualmente, a artesã realiza vários tipos de artesanatos, uma deles é a pintura e a reforma de imagens de santos. Ela, aliás, já vendeu algumas. “Eu compro as imagens cruas e pinto, as que eu reformo, faço restauração”, explica.
Após perder o filho, mãe utiliza o artesanato como forma de terapia em Itapemirim
Três etapas da confecção da Santa Maria feita por Vanuza Alves de Souza Crédito: Vanuza Alves de Souza
Para ela, essa é uma ação capaz de trazer uma sensação de bem-estar e de tranquilidade. "No momento em que estou fazendo artesanato é o único em que eu me concentro. Foi a única coisa que me fez enfrentar a perda do meu filho. Estou de pé por conta do artesanato", diz.
Segundo Vanuza, as pessoas comentam que o trabalho dela é muito bonito e isso a motiva a continuar, se distrair e ver o tempo passar. “O artesanato veio como uma forma de me encontrar e de curar a depressão”, pronuncia.

TRABALHOS MANUAIS: ÓTIMA FERRAMENTA, DIZEM ESPECIALISTAS

A psicóloga Karla Cardozo da Conceição afirma que realizar trabalhos manuais pode ser um excelente aliado no combate ao luto, dado que proporcionam alívio e bem-estar. “O artesanato pode ajudar a concentração, aliviar o estresse e a ansiedade, além de ajudar a focar em algo produtivo”, explica.
Segundo a psicológica Daniela Bello, há muitas atividades que podem auxiliar as pessoas na superação do luto, como a pintura, a música e até a dedicação aos estudos e aos exercícios físicos. “O luto é um processo. Ele vai estar presente, mas nós podemos superá-lo diante de diversas situações e atividades”, declara.
Após perder o filho, mãe utiliza o artesanato como forma de terapia em Itapemirim
Antes e depois da pintura de São Francisco de Assis. A arte ajudou Vanuza Alves de Souza na superação do luto Crédito: Vanuza Alves de Souza
Para Daniela, as atividades ajudam a pessoa a viver de uma maneira mais saudável e funcional. Além disso, são capazes de contribuir com aqueles que têm dificuldades de se expressar ou falar sobre sentimentos.
"A arte, como um todo, nos ajuda a ser tanto uma válvula de escape para essas emoções e sentimentos, como pode nos fazer bem, ao sentir que estamos fazendo parte de algo"
Daniela Bello - Psicológica
A especialista ainda destaca que fazer tais atividades pode colaborar com o processo de socialização, se o indivíduo for fazer um curso de pintura ou artesanato, por exemplo, em que terá contato com outras pessoas. “A socialização é extremamente importante para que a pessoa consiga se sentir pertencente a algo, que ela é importante”, diz.
Em relação ao luto, a psicóloga Karla também expõe que lidar com a perda de um ente querido não é tarefa fácil. Sendo assim, salienta como aprender uma atividade nova pode ajudar nessa etapa.
"Muitas vezes aprender uma nova atividade, estar em contato com pessoas diferentes e produzir alguma coisa pode ajudar a fazer com que o processo do luto seja mais leve"
Karla Cardozo da Conceição - Psicóloga
Por fim, as duas concordam que a psicoterapia é essencial quando a pessoa está passando por algo difícil, como a perda de um filho. “Embora os benefícios dos trabalhos manuais sejam inúmeros, é importante lembrar que ele é apenas uma ferramenta”, comenta Karla.
Com informações do jornalista Matheus Passos, da TV Gazeta Sul.

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