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Investigação

Imitação de pessoa com paralisia cerebral vira caso de polícia no ES

Mulher publicou um vídeo em que um homem aparece em um balanço adaptado para pessoas com deficiência física zombando de uma pessoa com paralisia cerebral

Publicado em 22 de Junho de 2026 às 17:43

Caroline Freitas

Publicado em 

22 jun 2026 às 17:43

Um caso de capacitismo na recém-inaugurada Praça Inclusiva Viver, em Vitória, ganhou repercussão nas redes sociais desde a noite de sábado (20), quando uma mulher publicou um vídeo em que um homem aparece em um balanço adaptado para pessoas com deficiência física zombando de uma pessoa com paralisia cerebral.


No vídeo, quem filma diz “Deus, me perdoa”, enquanto ri dos gestos feitos pelo rapaz, que simula "mãos em garra" — alteração motora caracterizada pela rigidez e pelo aumento involuntário do tônus muscular — e um balançar contínuo, comportamento que também pode estar relacionado a alterações no controle motor ou a formas de resposta a estímulos sensoriais e emocionais.


Após concluir a imitação, o jovem que era gravado também começa a rir, como se tudo não passasse de uma grande piada.


O vídeo foi compartilhado por famílias e associações de apoio a pessoas com deficiência e chegou até Kamylla Rodrigues, conhecida dos jovens e mãe de um adolescente de 14 anos com paralisia cerebral. Diante da situação, ela denunciou o caso à Polícia Civil e ao Ministério Público do Espírito Santo.

“Eu sinto na pele todos os dias a busca pela inclusão, a busca pelo respeito, a busca pela dignidade de viver, de uma pessoa com deficiência. E esse é um caso que não deve ser levado como brincadeira, porque não foi. Foi uma vitória aquele parque inclusivo, então, ele deve ter bom uso. Não é motivo de deboche. Como uma pessoa consegue entrar dentro de um parque desse e fazer isso?”, disse em entrevista à TV Gazeta.


A Polícia Civil informou que investiga o caso e busca responsabilizar os envolvidos.


O Ministério Público do Espírito Santo, por sua vez, declarou que recebeu, por meio da Ouvidoria, manifestação relacionada à publicação do conteúdo. "A manifestação foi encaminhada à Promotoria de Justiça Criminal de Vitória, para análise dos fatos e adoção das medidas cabíveis. O MPES destaca que situações envolvendo possível discriminação, ofensa ou violação de direitos de pessoas com deficiência devem ser apuradas com a devida atenção, observadas as atribuições legais da instituição."

Entenda

O que é paralisia cerebral

Deficiência física mais comum na infância, a paralisia cerebral refere-se a um grupo de distúrbios neurológicos que afetam o desenvolvimento motor, o tônus muscular e a postura.  É uma condição permanente, causada por lesões no cérebro em desenvolvimento antes, durante ou após o nascimento. 


Os sintomas variam de leves a severos e, além de problemas motores (como dificuldade de locomoção, rigidez ou fraqueza muscular, movimentos involuntários), pode haver complicações associadas, como dificuldades na fala e deglutição, deficiência intelectual e crises convulsivas.

Repúdio

A Associação Capixaba de Paralisia Cerebral (ACPC) divulgou uma nota de repúdio e indignação após a divulgação do vídeo, afirmando que a atitude zomba da dor e da luta de famílias de pessoas com deficiência.


“Trata-se de um ato de desrespeito, preconceito e capacitismo, que fere a dignidade de pessoas que enfrentam diariamente inúmeros desafios e de famílias que dedicam suas vidas para garantir cuidado, inclusão, respeito e uma melhor qualidade de vida para seus filhos e familiares. A ACPC jamais aceitará qualquer tipo de piada, zombaria ou discriminação contra pessoas com deficiência. O respeito à dignidade humana é um princípio inegociável.”


A entidade concluiu: “Nossa nota é de repúdio, mas também de dor. Dor por perceber que ainda precisamos lutar contra a falta de empatia e de respeito. Porém, seguiremos firmes em nossa missão de defender os direitos, a inclusão e a dignidade das pessoas com deficiência. Respeito não é favor. Inclusão não é brincadeira.”


O capacitismo, entendido como preconceito e discriminação contra pessoas com deficiência, é tipificado pela Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) e pode resultar em pena de reclusão de um a três anos, além de multa. Nos casos em que redes sociais são utilizadas para a prática do crime, a pena pode chegar a cinco anos.


A Prefeitura de Vitória, responsável pela praça, também lamentou e repudiou o ato discriminatório ocorrido no espaço.


“A Praça Viver Vitória é o primeiro parque público do município projetado para proporcionar a convivência e a interação entre pessoas com e sem deficiência, em um ambiente acessível, acolhedor e inclusivo. O espaço foi concebido justamente para estimular o respeito às diferenças, a empatia e a participação de todos em igualdade de condições”, reforçou.

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