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Economia capixaba

Cooperativismo e o próximo ciclo de desenvolvimento do Espírito Santo

Próximo ciclo de crescimento do Estado depende da agregação de valor, da inovação, da industrialização e da integração das cadeias produtivas

Publicado em 01 de Julho de 2026 às 09:19

Públicado em 

01 jul 2026 às 09:19
Felipe Storch

Colunista

Felipe Storch

O Espírito Santo construiu, ao longo das últimas décadas, uma economia reconhecida pela competitividade de diversos setores produtivos. O café conquistou mercados internacionais, a fruticultura expandiu sua presença, a pimenta-do-reino tornou-se referência nacional, a logística consolidou o Estado como uma importante porta de entrada e saída do comércio exterior, e o cooperativismo se fortaleceu como uma das bases da organização econômica capixaba. Essas conquistas, entretanto, trazem uma nova pergunta: qual deve ser o próximo passo?


Se durante muito tempo o desafio foi ampliar a produção e aumentar a competitividade, agora a agenda precisa ser mais ambiciosa. O desenvolvimento econômico do Espírito Santo dependerá cada vez menos de produzir mais commodities e cada vez mais da capacidade de agregar valor, integrar cadeias produtivas e construir um ambiente institucional capaz de sustentar a inovação. Nesse processo, o cooperativismo pode exercer um papel ainda mais estratégico do que desempenhou até aqui.

Plantação de acerola no município de Iconha, propriedade de Maria Elisa Martins da Silva, presidente da cooperativa Coopervidas Vitor Jubini

As cooperativas sempre foram fundamentais para reduzir custos de transação, ampliar o acesso ao crédito, difundir tecnologia, compartilhar investimentos e fortalecer o poder de negociação dos produtores. Em regiões formadas predominantemente por pequenas e médias propriedades, elas permitiram ganhos de escala que dificilmente seriam alcançados de forma individual. Mais do que organizações econômicas, tornaram-se instrumentos de desenvolvimento regional.


O Espírito Santo reúne hoje cooperativas consolidadas em setores estratégicos como café, leite, frutas, horticultura, pimenta-do-reino, agricultura familiar, crédito, saúde, transporte e prestação de serviços. Muitas delas já oferecem assistência técnica, armazenagem, logística, certificações, comercialização, financiamento e acesso aos mercados internacionais. Trata-se de um patrimônio institucional construído ao longo de décadas. Mas a maturidade dessas organizações permite enxergar uma oportunidade ainda maior.


Grande parte da riqueza de uma economia não está na produção da matéria-prima, mas nas etapas seguintes da cadeia produtiva. É na industrialização, no desenvolvimento de marcas, no processamento, na inovação, na certificação, na logística e na comercialização internacional que normalmente se concentram as maiores margens de lucro, os empregos mais qualificados e a geração de conhecimento. Em outras palavras, o desenvolvimento econômico depende menos da quantidade produzida e mais da capacidade de incorporar inteligência aos produtos.

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O café ilustra perfeitamente essa transformação. O Espírito Santo já ocupa posição de destaque na produção de conilon e arábica, mas pode ampliar significativamente sua participação em atividades como torrefação, cafés especiais, cápsulas, certificações de origem, marcas próprias e exportação de produtos premium. O mesmo raciocínio vale para o leite, por meio da produção de queijos especiais e derivados de maior valor agregado; para a fruticultura, com polpas, geleias, frutas desidratadas e bebidas; e para a pimenta-do-reino, por meio de produtos gourmet, blends e embalagens voltadas aos mercados internacionais.


Essa integração vertical das cadeias produtivas representa uma das principais oportunidades para aumentar a renda gerada dentro do próprio Estado. Entretanto, a industrialização não ocorre isoladamente. Ela depende de infraestrutura, acesso a mercados e eficiência logística. Nesse aspecto, o Espírito Santo possui vantagens competitivas relevantes. Sua posição geográfica estratégica, associada à expansão do sistema portuário, aos investimentos em corredores logísticos e à tradição no comércio exterior, oferece condições para que o Estado deixe de ser apenas um corredor de exportação de matérias-primas e se consolide como uma plataforma de distribuição de produtos industrializados de maior valor agregado. A logística deve ser compreendida não apenas como um mecanismo para transportar mercadorias, mas como um elemento capaz de integrar cadeias produtivas, atrair investimentos e ampliar a competitividade das empresas instaladas no Estado.


Há ainda uma dimensão frequentemente negligenciada nessa discussão: o turismo. A agregação de valor também ocorre por meio das experiências. O fortalecimento das cadeias do café, dos produtos artesanais, da gastronomia, do agroturismo e das indicações geográficas cria oportunidades que vão muito além da atividade agrícola. Uma fazenda de café pode produzir grãos de alta qualidade, mas também pode oferecer experiências turísticas, cursos, degustações e eventos. Uma agroindústria pode comercializar alimentos e, simultaneamente, fortalecer a identidade regional e movimentar hotéis, restaurantes, comércio e serviços. O turismo deixa de ser um setor isolado para tornar-se uma extensão natural de cadeias produtivas mais sofisticadas.

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Nenhuma dessas transformações, porém, ocorrerá espontaneamente. As economias mais desenvolvidas do mundo possuem uma característica em comum: instituições fortes e capazes de coordenar esforços coletivos. Empresas inovam, mas inovam mais quando encontram universidades qualificadas, centros de pesquisa atuantes, instituições financeiras comprometidas com o investimento produtivo, entidades empresariais organizadas e políticas públicas capazes de reduzir incertezas e estimular novos negócios.


O Espírito Santo possui um conjunto de instituições que representa uma importante vantagem competitiva. Cooperativas, Sistema OCB/ES, Incaper, universidades, Sebrae, Findes, Bandes, Sistema S, associações empresariais e organizações da sociedade civil formam um ambiente institucional robusto, capaz de conectar conhecimento, financiamento, inovação e desenvolvimento empresarial. O desafio da próxima década talvez não seja criar novas instituições, mas fortalecer a coordenação entre aquelas que o Estado já possui.


O desenvolvimento econômico não é resultado de uma única política pública, de um único investimento ou de uma única empresa. Ele emerge quando diferentes instituições conseguem atuar de maneira coordenada em torno de uma visão comum de futuro. O Espírito Santo reúne ativos que poucos Estados brasileiros possuem simultaneamente: cooperativas maduras, infraestrutura logística em expansão, vocação exportadora, capital humano qualificado e instituições reconhecidas nacionalmente. O próximo ciclo de desenvolvimento dependerá da capacidade de integrar esses ativos em uma estratégia baseada em industrialização, inovação, agregação de valor e fortalecimento das cadeias produtivas.


O cooperativismo já transformou a forma como produzimos. Agora, pode ajudar a transformar a forma como geramos riqueza. Esse talvez seja seu papel mais importante nas próximas décadas: deixar de ser apenas um instrumento de organização dos produtores para se consolidar como um dos pilares de uma economia capixaba mais sofisticada, inovadora e competitiva.

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Felipe Storch

Felipe Storch Damasceno e economista com mestrado e doutorado em Administracao e Contabilidade. E professor de Economia e pesquisador dos impactos sociais e economicos de politicas publicas. Tambem e consultor, palestrante e comentarista na CBN Vitoria

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