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Crise brasileira

Diáspora verde-amarela: o dilema entre abandonar ou reconstruir o país

Precisamos garantir as condições de vida para todas as pessoas em seus locais de origem e de afetos, para que possam conhecer o mundo inteiro, mas com a certeza que sempre terão um lugar seguro e acolhedor para voltar

Publicado em 25 de Julho de 2022 às 02:00

Públicado em 

25 jul 2022 às 02:00
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

Diversos fatores, conjunturais e estruturais, levam milhões de brasileiros a deixar o país ou a desejarem isso. Achando que a grama do vizinho é mais verde que a nossa, o número de brasileiros que saem do Brasil e seguem para outros países, em dez anos, subiu vertiginosamente, perfazendo o percentual de 122%. Considerada a maior diáspora da história do Brasil pelos especialistas.
O Brasil, desde de que foi invadido, recebeu levas de imigrantes vindos de diferentes países, por diversos motivos e formas, que acabaram por constituir o que somos e temos. Agora, o lugar que era chegada é partida, abandonando a característica de sociedade de afluência.
Elevando as reflexões sobre os motivos que levam as pessoas a querer deixar o Brasil, duas falas recentes em entrevistas ecoam de forma diferenciada. Uma delas é a da presidente do Instituto Ponte, Bartira de Almeida, que se apresenta na contramão dessa diáspora verde-amarela. Ela assevera que nunca teve vontade de deixar o Brasil, mas é movida pelo desejo de torná-lo um país bom de se viver, e por isso desenvolve o trabalho que oferece oportunidade a centenas de jovens, por meio da educação.
Ao apresentar estratégias de construção de cidadania, que são fundamentais para um bem-viver, ela, por meio de uma fala exortativa, nos convoca a cuidar do Brasil, ao invés de abandoná-lo.
Esse posicionamento, que encontra eco em outros tantos milhões de pessoas que também não desejam deixar o Brasil e, pelo contrário, fazem todos os dias o seu “dever de casa” para torná-lo um lugar bom de se viver, precisa ser o indicativo de proa para delinearmos nosso caminhar, principalmente em um ano importante de mudanças políticas.
A decisão ou vontade de deixar um país, no caso do Brasil, é determinada por questões complexas que consistem no desemprego estrutural contemporâneo, associado às heranças históricas de desigualdade e exclusão, que se apresentam como a falta de condições de vida, presente na narrativa das pessoas como a falta de oportunidade, a violência, a crise econômica e a política.
A posição de deixar o país de origem contrastado com a daqueles que persistem em transformá-lo é um indicador de consolidação da diferença subjetiva, mas também de um movimento dialético que é da essência humana.
Afastando-se da questão de estabelecer julgamentos em relação a quem opta por deixar, é imperativo que se retome o que constitui um povo. A história nós não podemos mudar, mas podemos, fazendo memória de todos os acontecimentos, não deixando nada debaixo do tapete, nos apropriarmos do que somos e fazermos a diferença em um movimento de coletividade.
Quando temos quase metade dos jovens com o desejo de deixar o país para alcance de melhores condições de vida, precisamos refletir o que isso significa a médio e longo prazo para nossa sociedade, e para os jovens. Para que não tenhamos que ouvir as histórias veladas em relação a essas diásporas, dos jovens que alcançam altos salários no Vale do Silício, mas encontram no suicídio o seu destino.
Precisamos garantir as condições de vida para todas as pessoas em seus locais de origem e de afetos, para que possam conhecer o mundo inteiro, mas com a certeza que sempre terão um lugar seguro e acolhedor para voltar.

Verônica Bezerra

Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Seguranca Pública

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