Nesta semana, terei a honra de mediar um dos painéis mais interessantes da Expert XP, o maior festival de investimentos do mundo: "Como grandes líderes constroem empresas que atravessam gerações".
Estarão no palco Gilberto Tomazoni, CEO da JBS; Paulo Moll, CEO da Rede D'Or; Ederson Muffato, diretor do Grupo Muffato; e André Gerdau Johannpeter, presidente do Conselho de Administração da Gerdau. São empresas de setores completamente distintos, mas unidas por uma característica rara: conseguem permanecer relevantes durante décadas. Algumas, por mais de um século.
Esse tema me fez lembrar um conceito do escritor Simon Sinek, desenvolvido no livro “O Jogo Infinito". Segundo ele, existem jogos finitos e jogos infinitos. No esporte, o jogo é finito. Existem regras conhecidas, adversários definidos e um vencedor ao final da partida.
Nos negócios, acontece o contrário. Não há uma linha de chegada, um campeão definitivo, uma vitória permanente. As empresas não competem para vencer um campeonato. Competem para continuar existindo, inovando e criando valor em um ambiente que muda o tempo todo.
Essa diferença transforma completamente a maneira de liderar. Quem joga um jogo finito se preocupa apenas com o próximo trimestre, o próximo concorrente ou o próximo resultado. Quem compreende o jogo infinito toma decisões pensando nos próximos vinte ou trinta anos.
Criar uma empresa pode não ser tão difícil. Fazê-la crescer é mais desafiador. Mas construir uma organização capaz de atravessar gerações talvez seja uma das tarefas mais complexas do mundo empresarial. Por isso, mais que admirar empresas que crescem rapidamente, eu admiro aquelas que conseguem continuar crescendo depois que seus fundadores já não estão mais à frente dos negócios.
Empresas longevas entendem uma verdade fundamental: preservar valores não significa preservar modelos de negócio. Elas mantêm seus princípios, mas mudam continuamente a forma de produzir, vender, investir, contratar e se relacionar com seus clientes.
Foi isso que permitiu à Gerdau atravessar diferentes revoluções industriais no setor do aço; que transformou a JBS em uma líder global no mercado de proteína animal; que fez da Rede D'Or uma referência em inovação na saúde brasileira; e que permitiu ao Grupo Muffato crescer preservando sua identidade familiar enquanto incorporava tecnologia, logística avançada e novos formatos de varejo.
Nenhuma dessas empresas chegou até aqui repetindo o passado. Elas chegaram porque aprenderam a abandoná-lo quando necessário. No chamado jogo infinito, o legado de uma empresa não está em conservar tudo como sempre foi, mas em garantir que ela continue relevante quando o mundo deixar de ser o mesmo.
Essa reflexão tem enorme importância para o Espírito Santo. Nosso estado possui empresas familiares que nasceram há décadas, cooperativas sólidas, indústrias, grupos do comércio, da logística, do agronegócio e dos serviços que ajudaram a construir a economia capixaba. Muitas delas vivem hoje um momento decisivo: a passagem da liderança para uma nova geração.
Durante muito tempo, sucessão significava transferir patrimônio. Hoje, significa transmitir capacidade de adaptação. Os herdeiros assumem empresas inseridas em mercados bem diferentes daqueles conhecidos por seus fundadores.
A inteligência artificial transforma processos, a digitalização muda o relacionamento com os clientes, a sustentabilidade influencia investimentos. Novos concorrentes surgem de setores antes impensáveis. Modelos de negócio inteiros podem se tornar obsoletos em poucos anos.
Nesse cenário, tradição deixa de ser vantagem quando se transforma em resistência à mudança. Por outro lado, empresas que conseguem combinar experiência, boa governança, inovação e visão de longo prazo constroem uma vantagem competitiva extremamente difícil de copiar.
Na minha experiência no mercado financeiro, aprendi que investidores valorizam resultados. Mas valorizam ainda mais a capacidade de uma organização continuar produzindo resultados por muitos anos.
E, para além dos números do último balanço, essa confiança nasce da qualidade da liderança, da governança, da cultura organizacional e da disposição permanente para aprender. É exatamente isso que diferencia empresas que duram décadas daquelas que desaparecem na primeira grande transformação do mercado.
Mais que administrar o presente, liderar uma empresa longeva significa preparar o futuro. Porque, no fim das contas, empresas que atravessam gerações não sobrevivem ao tempo. Elas aprendem a fazer do tempo o seu maior ativo.