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Crítica

"Jaula": Bom filme da Netflix tem assustadora história real

Filme espanhol "Jaula" usa a absurda história do Monstro de Amstetten para criar um suspense tenso e que impressiona quando se atém aos fatos

Publicado em 27 de Outubro de 2022 às 21:32

Públicado em 

27 out 2022 às 21:32
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz

Filme espanhol
Filme espanhol "Jaula", da Netflix Crédito: Netflix/Divulgação
Sucesso na Netflix, o filme espanhol “Jaula” é daqueles com os quais devemos tomar cuidado com o tal “baseado em fatos”. Dirigido pelo estreante Ignacio Tatay, o terror é, sim, baseado em acontecimentos, no caso do “Monstro de Amstetten”, na Áustria, mas o filme usa essa história real para criar a sua própria trama, ou seja, há muitas liberdades narrativas no texto.
Isso não significa, porém, que o filme seja ruim, pelo contrário. “Jaula” acompanha o casal Paula (Elena Anaya) e Simone (Pablo Molinero), que, após se deparar com Clara (Eva Tennear), uma jovem frágil, caminhando sozinha pela rua. Eles a levam a um hospital, mas Clara não fala e tampouco tem família procurando por ela. Apegados à criança e seguindo sugestão da equipe do hospital, Paula e Simone abrem sua casa para Clara como um lar temporário na esperança de que ela se abra e tenha os devidos cuidados.
A presença de Clara desperta em Paula um instinto maternal até então adormecido, mas o comportamento da jovem assusta Simone - Clara tem uma obsessão meio sinistra com linhas de giz no chão. O filme acompanha bem o distanciamento do casal e a influência de Clara no relacionamento, mas também explora a história pregressa da jovem em um arco que ajuda a entender melhor os acontecimentos.
“Jaula” é um bom thriller psicológico reforçado por um excelente trabalho do diretor de fotografia Oriol Barcelona, que utiliza o ambiente como elemento de tensão e aproveita muito bem fumaças e espelhos para enriquecer o quadro e não apenas como muletas para sustos fáceis. O texto constrói bem a expectativa do público, enchendo as cenas de pistas nem sempre muito sutis, e prepara terreno para a boa virada que dá início ao terceiro ato.
Filme espanhol
Filme espanhol "Jaula", da Netflix Crédito: Netflix/Divulgação
O diretor Ignacio Tatay e a roteirista Isabel Peña acertadamente dependem pouco dos diálogos para contar a história - o silêncio e os corpos cumprem bem a função, mesmo que em um ou outro momento um diálogo expositivo ganhe destaque. A atmosfera de tensão é diluída quando a trama se desenvolve e percebemos que talvez ela não fosse tão interessante quanto aparentava ser.
Quando o clima de mistério perde força, porém, faz falta um roteiro mais bem desenvolvido para que possamos nos importar com aqueles personagens. O texto traz uma até ousada inversão de protagonistas no ato final, mas é quando percebemos termos sido enganados por toda a ambientação do primeiro ato. A virada impacta e pega o espectador de surpresa, vale ressaltar, mas não tem o funcionamento esperado pelo filme e acaba tornando-o um suspense genérico que não sustenta o charme dos momentos iniciais.
Filme espanhol
Filme espanhol "Jaula", da Netflix Crédito: Netflix/Divulgação
“Jaula” tem boas ideias e dois atos excelentes. O filme lida com traumas e paranoias com sutileza e respeito mesmo após a transformação narrativa da conclusão. A força dos fatos dá mais força e peso à história, principalmente quando explora o verdadeiro terror, a história que levou Clara até ali.
Ao fim, o suspense espanhol tem o grande mérito de ser forte e assustador (a vida real assusta mais que a fantasia) sem ser explícito, sem buscar muletas de sustos fáceis ou viradas que subestimam a inteligência do espectador. Uma boa pedida bem acima da média no catálogo da Netflix.

Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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