O câncer de colo de útero é a neoplasia que mais mata mulheres com até 36 anos de idade (jovens assim!) e a segunda que mais mata mulheres de até 60 anos de idade. A incidência e a mortalidade desse câncer são maiores em países com baixo índice de desenvolvimento humano e, embora apareça em todas as classes sociais, o risco é maior naquelas com menor poder aquisitivo, pelo acesso mais limitado a serviços de saúde.
Estima-se que 17 mil novos casos são diagnosticados por ano no Brasil e que cerca de 19 mulheres morrem por dia por causa desse câncer. No mundo, uma mulher morre de câncer de colo de útero a cada dois minutos! Esse câncer tem como causa direta o vírus HPV, para o qual existe vacina já há quase duas décadas.
Pesquisadores do Centro de Prevenção de Câncer da Queen Mary University of London publicaram recentemente no periódico The Lancet o primeiro estudo demonstrando o impacto da vacinação na mortalidade por esse temível tumor.
Um bem-sucedido programa de vacinação contra HPV foi introduzido na Inglaterra em setembro de 2008, em meninas de 12-13 anos, desenvolvido nas escolas e não em unidades sanitárias (muito mais fácil para chegar ao público-alvo).
Em 2019, o programa adicionou meninos da mesma faixa etária, porque ajuda a criar imunidade de rebanho e porque homens também têm câncer associados ao HPV, de pênis, garganta e canal anal.
A cobertura vacinal para uma dose chegou a 90% antes da pandemia levando a uma queda de incidência de 87% do câncer de colo do útero, naquele país, especialmente nas faixas etárias correspondente a pessoas vacinadas.
Até agora não havia comprovação de influência na taxa de mortalidade, embora fosse óbvio que isso deveria ocorrer. Pois agora, os pesquisadores britânicos mostraram que entre as meninas vacinadas que chegaram a 20-24 anos, onde se esperava uma mortalidade histórica de 26 óbitos (imagine caro leitor ou leitora, quantas vidas perdidas tão jovens), nenhuma morte ocorreu, o que resulta em 100% de proteção contra mortalidade.
No Brasil, a vacina foi introduzida na rede pública em 2014 para meninas e 2017 para meninos. Agora, seguindo uma tendência mundial, o PNI propõe apenas uma dose para meninas e meninos (para mulheres e rapazes mais velhos não há ainda segurança de dose única).
Nossa cobertura vacinal em uma dose foi de 82% em meninas em 2024 e 67% em meninos. No SUS ainda usamos a HPV4 enquanto na rede privada já há a HPV9, de proteção mais ampla. A cobertura vacinal é heterogênea, sendo no Espírito Santo uma das melhores e no Rio de Janeiro uma das piores no país.
A desinformação antivacina depois da pandemia é um obstáculo à ampliação das coberturas vacinais. Vacinar adolescentes antes da vida sexual melhora resposta e eficácia das vacinas, o que não quer dizer que ela não possa ser usada em adultos com vida sexual ativa e riscos.
Eliminar o câncer de colo de útero enquanto problema de saúde pública implica, além de vacinar, em melhorar o rastreamento com os modernos testes moleculares (superiores ao tradicional Papanicolau) e tratamento ágil para as mulheres já com câncer, áreas aonde nosso país ainda vai em ritmo de tartaruga.