Há algum tempo venho alertando que a integridade deixou de ser tema periférico, restrito ao jurídico, ao compliance ou a mero compromisso ético. A integridade tornou-se ativo estratégico e, em alguns casos, requisito imprescindível à sobrevivência. Hoje, uma empresa — e o risco que ela corre — não é avaliada apenas pelo que faz internamente, mas também por quem aceita como sócio, fornecedor, cliente, financiador, representante ou subcontratado.
A Operação Última Parada, deflagrada pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de SP, na última quinta-feira (25), que mirou a cúpula de uma empresa de ônibus e um vereador paulistano, escancara esse alerta.
Segundo o que foi noticiado pela imprensa, há suspeita de que uma estrutura empresarial ligada ao transporte coletivo tenha sido utilizada para lavagem de dinheiro em favor do PCC. Obviamente, as responsabilidades deverão ser apuradas no devido processo legal, com respeito à presunção de inocência, mas o alerta e a gravidade da situação não deixam dúvidas: o crime organizado não busca apenas territórios e lucro; busca também empresas, contratos, fluxo de caixa e aparência de legalidade.
Engana-se quem pensa que o risco e as consequências estão limitados aos investigados. Uma operadora de transporte urbano não funciona sozinha. Embora não haja dado público seguro sobre o número exato de parceiros da empresa citada, negócios desse porte costumam movimentar centenas de CNPJs: combustível, pneus, peças, manutenção, tecnologia, seguros, bancos, consultorias, limpeza, segurança, alimentação, uniformes, saúde ocupacional e subcontratados.
Uma estimativa conservadora poderia apontar para algo entre 300 e 400 empresas diretamente relacionadas à empresa investigada. Consideradas as relações indiretas, esse ecossistema pode ultrapassar mil empresas.
Isso significa que uma ampla cadeia econômica pode ter contribuído, sem perceber — ou, em alguns casos, preferindo não perceber — para sustentar uma estrutura eventualmente ligada ao crime. A cegueira conveniente ficou perigosa demais. Já não basta perguntar se o contrato é lucrativo, se o preço é bom ou se o CNPJ está regular. A pergunta central passou a ser: quem está, de fato, por trás das pessoas e empresas com as quais minha organização se relaciona?
O alerta ficou ainda mais sério, e a situação, ainda mais grave, com a classificação, pelo governo americano, do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras, as FTOs. Essa designação muda consideravelmente o patamar do risco.
Relações econômicas com estruturas ligadas a essas facções podem ser interpretadas, havendo conexão com a jurisdição americana, como apoio material a uma organização terrorista. Em termos práticos, apoio material pode incluir qualquer relação comercial que envolva dinheiro, bens, serviços, transporte, tecnologia, consultoria, crédito e uma infinidade de outros itens.
Para empresas brasileiras, isso está longe de ser uma abstração. Empresas que operam em dólar, usam bancos correspondentes nos Estados Unidos, exportam, recebem investimento estrangeiro, contratam seguros internacionais ou integram cadeias globais podem sofrer as consequências de, inconscientemente ou de forma dolosa, relacionarem-se com pessoa física ou jurídica que, em algum momento, seja identificada como ligada ao crime organizado.
A mensagem que fica para todas as organizações é muito clara. Programas de integridade não podem ser meras peças decorativas. Due diligence robusta e contínua, aliada à gestão eficiente de riscos, passou a ser uma necessidade de sobrevivência. Integridade não é burocracia. É mecanismo de proteção. Quem não conhece profundamente aqueles com quem faz negócio pode acabar financiando exatamente aquilo que afirma combater.