Madonna está de volta. Desencaretando o mundo, como sempre, e arrancando a hipocrisia do armário. Chegou com tudo: corset, véu, saia curta e coreografias ousadas. Os vinte anos de diferença entre "Confessions II " e "Confessions on a Dance Floor" soam como mais uma provocação da rainha do pop. Outra vez ela vem alertar que o corpo em movimento é uma forma de oração que dispensa intermediários e não tem prazo de validade.
Para um mundo cada vez mais chato, que ama catalogar mulheres por idade, por estética, por grau de domesticação, temos Madonna: a mulher que criou uma categoria própria. É a rainha da disrupção há mais de quarenta anos. Incomodou e incomodará sempre. Essa é a sua prova de vida.
O álbum “Confessions II” nasceu depois de uma travessia pessoal e física de Madonna. Ela quase morreu de uma infecção bacteriana grave, perdeu o irmão, ficou sete anos sem lançar nenhum disco, mas novamente nos convida a dançar, celebrar, rezar com o corpo. Madonna é toda intencional, tem muita consciência de que estamos atravessando uma espécie de abdução pela mente. E, o que é pior, de uma mente que nem é humana.
A capa do novo disco já tem um elemento viral. Fotografada pelo brasileiro Rafael Pavarotti sobre uma pilha de caixas de som, envolta num tecido transparente em lilás e rosa-choque, Madonna cobre o corpo sem escondê-lo. O véu é um elemento constante na sua história. Véu do ritual religioso, que separa o profano do sagrado. O mesmo véu que agora está sendo exaustivamente compartilhado em montagens de IA.
O corset é outro elemento que Madonna capturou para si. Ele sempre foi símbolo de armadura e erotismo nos seus clipes. Remete aos arquétipos de guerreira e amante, sem abrir mão dessa contradição, porque para ela essas duas coisas nunca foram contraditórias.
O incômodo é o ponto. Madonna perturba com a voz, com o figurino e com o corpo, porque revoga, de uma vez, dois contratos que se esperava que ela assinasse: o do recato compulsório da idade e o da separação entre sexualidade e transcendência. Ela nunca assinou nenhum dos dois. Os incomodados que dobrem as sessões de terapia.
Veja Também
Show do intervalo da final da Copa tem Madonna com Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho e homenagem a Pelé
Madonna faz novamente a pista de dança de confessionário e mostra que o tempo pode ser o maior aliado de um artista
“Confessions II”, novo disco de Madonna, chega às plataformas digitais nesta sexta (3)
Mas eu não vou escrever sobre Madonna sem citar esse deboche que foi vê-la na final da Copa da Fifa, em solo americano. A provocação começou no carro escolhido para a performance. Um manifesto sobre rodas, meio Mad Max, pós-apocalíptico, meio buggy das dunas nordestinas. Era uma máquina de improviso, construída para atravessar um terreno hostil.
A mesma comunidade que ela sempre protegeu estava como tripulação nessa travessia da desertificação da humanidade feita pela carro-aranha. Se era futebol-arte o que faltava, que sejam convocados os Ronaldos. Madonna mostrou que há luz no fim do túnel. Inclusive, para o insosso futebol brasileiro atual.
Levou Ronaldinho Gaúcho, o gênio que jogava como se a bola fosse extensão do próprio corpo, e Ronaldo Fenômeno, outro jogador que escapa à explicação convencional. Duas feras do futebol-arte brasileiro. Madonna e os nossos Ronaldos: três corpos geniais que vão muito além da estética e honram a ética de estar encarnado. Esse é um bom jeito de rezar.