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Ana Laura Nahas

"Ensaio Sobre a Cegueira" do Grupo Galpão inquieta e convoca a seguir

Peça nos lembra de enxergar para além do olho físico, de valorizar a potência das coisas coletivas, de manter a resiliência mesmo quando a vida desaba

Publicado em 28 de Junho de 2026 às 04:30

Públicado em 

28 jun 2026 às 04:30
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas

Havia muito a digerir e pouco a dizer no final daquela história sobre cegueira, humanidade e barbárie encenada pelo grupo de teatro primeiro no palco e depois entre os andaimes do prédio em reforma. 


A maioria de nós estava emocionada com a beleza da cena e a força do momento. Eu estava especialmente tocada com o tamanho da verdade de uma história que me afeta a todo encontro que temos. 


A versão do Grupo Galpão para o “Ensaio sobre a Cegueira”, de José Saramago, é daquele tipo de arte que nos inquieta, ilumina, faz pensar e convoca a seguir. 

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Como na canção, a hora do encontro é também despedida

Num hospital abandonado onde um desquerido governo confinou centenas de pessoas cegas durante uma repentina e inexplicável epidemia de cegueira, o grupo deixado à própria sorte constrói uma pequena amostra da vida como ela não devia ser, mas às vezes acaba sendo.


Mulheres desumanizadas pelo machismo, mas ao mesmo tempo unidas pelo cuidado. A lei do mais forte imposta sobre quem tem fome. O deboche dos que podem sobre os que precisam. O descaso de quem devia ser suporte, a submissão de quem não aprendeu a viver de outro modo. A ausência completa de dignidade.


“Ensaio sobre a Cegueira” trata de uma doença que possivelmente não existe, numa cidade que ninguém sabe qual é, com personagens sem nome nem biografia. Sua principal força é escancarar a nossa completa incapacidade de viver numa sociedade sem mediação, em total desconexão com o resto do mundo. 


Ali, o princípio não era o verbo, mas a violência, a ambição, a lei da força.

Grupo Galpão em "Um Ensaio Sobre a Cegueira", no Sesc Glória, em Vitória, em 20 de junho de 2026
Grupo Galpão em "Um Ensaio Sobre a Cegueira", no Sesc Glória, em Vitória, em 20 de junho de 2026 Instagram/Sesc Glória

Entre os personagens, apenas a mulher do médico enxerga. Ela finge estar cega para ajudar o marido, mas carrega nas costas o peso de ter olhos sãos quando os outros perderam a visão. Sua capacidade de ver não é um privilégio, mas o fardo de ser razão numa comunidade que perdeu todas as amarras civilizatórias. 


Não é tarefa fácil. Ao assistir a tudo sem poder reagir, até mesmo à traição de quem devia preservá-la, a mulher do médico personifica um pouco de cada um de nós diante do inconsertável: resignação, revolta, compreensão, raiva, esperança, cansaço, em maior ou menor grau, alternados ou misturados, conforme a ocasião. 


No final das contas, ela e o “Ensaio” do Grupo Galpão nos lembram de enxergar para além do olho físico, de valorizar a potência das coisas coletivas, de manter a compaixão, a resiliência e a sensibilidade mesmo quando a vida desaba.


Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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