Em uma época em que aprender a ler e escrever ainda era privilégio de poucos, uma mulher decidiu enfrentar essa realidade em Cachoeiro de Itapemirim, no Sul do Espírito Santo. Em meados da década de 1950, a professora Zilma Coelho Pinto não aceitava que crianças e adultos fossem privados do direito à educação. Após insistentes pedidos, conseguiu um terreno, construiu um barracão e deu início a uma campanha de alfabetização que mudaria a história da cidade.
O desafio era enorme. Segundo o Censo Demográfico de 1950, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 49,5% da população brasileira com mais de 15 anos era analfabeta. Em Cachoeiro, o cenário refletia essa realidade.
Foi nesse contexto que Zilma iniciou uma mobilização para abrir salas de aula na sede e no interior, reunindo voluntários dispostos a alfabetizar. Depois de muita insistência, conseguiu um terreno — no atual bairro Ferroviários — doado por um casal de franceses. Com a ajuda da comunidade, ergueu um barracão simples. Ali nascia a Campanha de Alfabetização e Assistência Social de Cachoeiro de Itapemirim (CAASCI), iniciativa que, ao longo das décadas, mobilizou professoras e alfabetizou milhares de pessoas.
A escritora e biógrafa de Zilma, Deane Monteiro Vieira Costa, destaca que o projeto ia além da alfabetização. O espaço se transformou em um centro de inclusão social, oferecendo cursos de datilografia, corte e costura, bordado e artesanato, além de contar com biblioteca e até uma farmácia. O impacto foi tão marcante que, até hoje, a região é conhecida pelos moradores como “Campanha”. Atualmente, o local abriga a Escola Municipal Zilma Coelho Pinto.
Deane também ressalta o alcance social da educadora:
“Alunas de Zilma se tornaram professoras voluntárias depois. Apesar de fazer parte de um meio elitizado e privilegiado, ela rompeu barreiras ao alfabetizar milhares de pessoas e oferecer cursos de formação. No entanto, enfrentou consequências e incomodou políticos. Zilma se tornou referência para os excluídos, que a procuravam até mesmo para conseguir atendimento médico ou ajuda para ler uma receita”, relata.
Incansável, familiares lembram que Zilma percorria a cidade a cavalo ou em uma caminhonete, batendo de porta em porta em busca de doações e de pessoas ainda não alfabetizadas. O empenho na causa e a insistência em pedir apoio renderam apelidos curiosos, como “Louca do Itapemirim”.
Ela sonhou com um Brasil sem analfabetos. Fez sua parte sem interesses políticos ou altos salários. Era puro amor ao próximo. Quanta falta Dona Zilma nos faz! Eu fui a neta que mais conviveu com ela. O sonho era que um dos netos desse continuidade à sua obra
Luilma Pinto Mendonça Neta de Zilma Coelho Pinto
Zilma foi casada e teve dois filhos: Maria Luma Coelho Pinto e Carlos Luiz Pinto (já falecido). Décadas depois, o apelido que um dia soou como estranhamento se transformou em símbolo de coragem. Segundo Luilma, nos últimos momentos de vida, a educadora ainda demonstrava apego à missão: “Dona Zilma faleceu aos 76 anos dizendo à minha mãe: ‘Neiva, eu não posso morrer agora, ainda tenho muito o que fazer!’”.
O reconhecimento de seu trabalho ultrapassou fronteiras. Em 1950, a Unesco destacou sua iniciativa na revista Le Courrier, conforme registrado na tese de doutorado de Deane Monteiro Vieira Costa, intitulada “A campanha de educação de adolescentes e adultos no Brasil e no Estado do Espírito Santo (1947-1963): um projeto civilizador”. O texto, assinado por Yvonne Tabbush, trazia o título emblemático: “A louca da escola: campanha contra o analfabetismo no Brasil”.
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