Os números não deixam dúvida. Em maio de 2026, a televisão linear respondeu por 63,2% de todo o consumo de vídeo no Brasil, considerando todas as telas. YouTube, TikTok, Netflix e todas as plataformas de streaming somadas dividiram os 36,8% restantes. Os dados são do Ibope Cross Platform View, solução que monitora simultaneamente o consumo na TV e em dispositivos conectados à rede doméstica, em 15 regiões metropolitanas.
Quando o recorte se restringe à tela da televisão, o domínio é ainda mais expressivo. A TV aberta sozinha detém 65,6% do share. Todo o universo do streaming (YouTube, Netflix, TikTok, Prime Video, Globoplay, Disney+ e HBO Max juntos) divide os 25% restantes. O TikTok, que no celular cresce 17,6% ao ano e já alcança 131 milhões de brasileiros adultos, na tela da TV tem presença irrelevante.
Esse contraste revela algo que os números de usuários costumam esconder: ter usuário não é o mesmo que ter audiência. A semana de 1 a 7 de junho, por exemplo, ilustra bem essa diferença. O amistoso Brasil x Egito, transmitido pela Globo, atingiu 28,7 pontos de audiência domiciliar: 8,8 milhões de domicílios sintonizados num único programa, ao mesmo tempo. O Jornal Nacional registrou 24,3 pontos. A novela "Quem Ama Cuida" marcou 21,6. Nenhuma plataforma digital entrega isso.
O mercado publicitário já tirou suas conclusões. Em 2025, o investimento total em publicidade no Brasil atingiu R$ 95,2 bilhões, alta de 8,2% sobre o ano anterior, segundo o Radar AdInsights do Ibope. A categoria que mais cresceu não foi o digital: foi TV e áudio, com alta de 66%. Anunciantes compram onde a audiência está.
O brasileiro de 2026 é um consumidor de múltiplas telas: rola o TikTok no almoço, assiste a uma série no streaming à noite e ainda liga a TV para ver o jogo. Ele não escolheu uma plataforma. Ele usa todas, mas não da mesma forma, nem com a mesma intensidade. O que os dados mostram é que a televisão aberta não perdeu seu lugar central. Ela perdeu exclusividade de atenção, e isso é diferente.
A fatia do vídeo online de hoje era menor há dois anos e será maior daqui a dois. Isso é fato. Mas enquanto nenhuma outra plataforma conseguir reunir o Brasil inteiro na mesma tela ao mesmo tempo (e os dados de 2026 mostram que ainda estamos longe disso), a televisão aberta seguirá sendo o principal meio de comunicação de massa do país.