Celebrar o Dia das Paneleiras de Goiabeiras é homenagear as mulheres que transformaram um saber ancestral em um dos maiores símbolos da identidade capixaba e em um dos mais importantes patrimônios culturais do Brasil.
O ofício das Paneleiras de Goiabeiras, em Vitória (ES), tem origem nas técnicas cerâmicas desenvolvidas pelos povos indígenas que habitavam a região muito antes da chegada dos europeus.
Há mais de 400 anos, esse conhecimento vem sendo preservado e transmitido entre gerações, mantendo viva uma tradição que atravessa os séculos e constitui um dos mais importantes legados culturais do Espírito Santo.
Desde 1987, a Associação das Paneleiras de Goiabeiras (APG) desempenha papel fundamental na organização das artesãs, na valorização do ofício, na preservação da tradição e na divulgação desse importante patrimônio cultural.
Em 1993, a Prefeitura de Vitória instituiu, por meio da Lei Municipal nº 3.944, o Dia das Paneleiras de Goiabeiras, prestando homenagem às mulheres que confeccionam um dos maiores ícones do artesanato e da gastronomia capixaba.
A tradição envolve toda a comunidade de Goiabeiras. Historicamente, os homens participaram principalmente da extração e do beneficiamento do barro, enquanto as mulheres se dedicaram à modelagem artesanal das panelas. Atualmente, o ofício é preservado por artesãs e artesãos comprometidos com a continuidade desse saber tradicional, garantindo que essa herança cultural permaneça viva para as futuras gerações.
A produção continua sendo totalmente artesanal, sem torno e sem forno industrial. O barro é retirado de jazidas autorizadas no Vale do Mulembá, em Vitória, preparado manualmente, moldado com as mãos, seco naturalmente ao sol, queimado em fogueira a céu aberto e recebe o acabamento com uma tintura natural rica em tanino, extraída da casca do mangue-vermelho (Rhizophora mangle), responsável pela característica cor escura, pela impermeabilização e pela grande resistência das panelas.
No acabamento, as artesãs utilizam ferramentas tradicionais, como pedras lisas, cascas de coco e a muxinga, pequena vassoura confeccionada com fibras vegetais utilizada para aplicar o tanino nas peças ainda quentes, preservando técnicas transmitidas ao longo de séculos.
Um importante marco para essa tradição ocorreu com o Decreto Federal nº 3.551, de 4 de agosto de 2000, que instituiu o Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial e criou o Programa Nacional do Patrimônio Imaterial.
Em 21 de novembro de 2002, o Ofício das Paneleiras de Goiabeiras tornou-se o primeiro bem inscrito no Livro de Registro dos Saberes do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), recebendo oficialmente o reconhecimento como Patrimônio Cultural do Brasil.
Em 2021, o IPHAN revalidou esse registro, reafirmando a importância da salvaguarda desse patrimônio cultural e fortalecendo as ações de preservação para as futuras gerações.
Esse reconhecimento protege não apenas a panela de barro, mas principalmente os conhecimentos, as técnicas, a cultura, a memória, a identidade e a história de uma comunidade que mantém viva uma das mais importantes expressões do patrimônio cultural brasileiro.
As tradicionais panelas de barro tornaram-se símbolo da gastronomia capixaba e são indispensáveis no preparo da autêntica moqueca capixaba e da tradicional torta capixaba, contribuindo também para o fortalecimento do artesanato, da economia criativa, da sustentabilidade e do turismo cultural do Espírito Santo.
O Galpão das Paneleiras de Goiabeiras, localizado no bairro Goiabeiras, em Vitória, consolidou-se como um dos principais atrativos do turismo cultural capixaba, recebendo visitantes, pesquisadores, estudantes e turistas do Brasil e do exterior interessados em conhecer essa tradição centenária e acompanhar todas as etapas da produção artesanal.
Como são feitas as panelas de barro de Goiabeiras
1. Extração do barro
O barro é retirado de jazidas autorizadas no Vale do Mulembá, em Vitória.
2. Preparação da argila
O barro é limpo, umedecido e amassado até atingir a consistência ideal para a modelagem.
3. Modelagem
Cada panela é moldada totalmente à mão, sem o uso de torno de oleiro, utilizando técnicas tradicionais preservadas há mais de quatro séculos.
4. Secagem
As peças permanecem em repouso para secar naturalmente, evitando rachaduras.
5. Acabamento
A superfície é cuidadosamente alisada com pedras lisas e cascas de coco, proporcionando resistência, uniformidade e excelente acabamento.
6. Queima
As panelas são queimadas em fogueira a céu aberto, utilizando lenha, processo que garante resistência e durabilidade.
7. Aplicação da tintura
Ainda incandescentes, as panelas recebem uma tintura natural rica em tanino, extraída da casca do mangue-vermelho (Rhizophora mangle), aplicada com a muxinga, conferindo a característica coloração escura, impermeabilização e maior durabilidade.
8. Prontas para o uso
Após o resfriamento, as panelas estão prontas para preparar a autêntica moqueca capixaba, a tradicional torta capixaba e diversos outros pratos da culinária brasileira.
Mais do que produzir panelas, as Paneleiras de Goiabeiras preservam um legado que une história, cultura, identidade, gastronomia, turismo, sustentabilidade, economia criativa e pertencimento.
Celebrar o Dia das Paneleiras de Goiabeiras é reconhecer o trabalho, a dedicação e o talento de uma comunidade que preserva um saber ancestral, fortalece a identidade cultural capixaba e contribui para que a história, a cultura, a gastronomia e o turismo do Espírito Santo continuem sendo reconhecidos e valorizados no Brasil e no mundo.
Nosso reconhecimento e nossa gratidão às Paneleiras de Goiabeiras, verdadeiras guardiãs de um patrimônio que pertence a todos os brasileiros.
Parabéns às Paneleiras de Goiabeiras!