
Henrique Herkenhoff*
Depois dos fatos registrados no último pleito presidencial dos EUA e do que assistimos nas nossas eleições, é inevitável a preocupação com a interferência de notícias falsas, espalhadas pelas mídias sociais. Demandados, especialistas em internet sugerem possíveis soluções, sempre muito preocupados, entretanto, com qualquer possibilidade de limitação da liberdade de expressão nesses meios.
Por outro lado, surgem propostas de reações jurídicas institucionais, como a repressão criminal, todas estratégias ineficientes: é pueril contar com a iniciativa do internauta em conferir a veracidade das postagens; por outro lado, não podemos esquecer que essas notícias se espalham muito mais e muito mais rápido do que desmentidos ou verificações por agências confiáveis; por fim, se dependermos da eficiência e da presteza da punição criminal, a esta altura estaríamos decidindo a quem caberia o mandato exercido pelo Marechal Deodoro. Todas essas soluções incorrem exatamente no erro pretendido pelos autores das fake news: aceitar o desgaste e o desperdício de recursos.
É pueril contar com a iniciativa do internauta em conferir a veracidade das postagens; por outro lado, não podemos esquecer que essas notícias se espalham muito mais e muito mais rápido do que desmentidos ou verificações por agências confiáveis
Em 1982, Jay Conrad Levinson criou a técnica de guerrilha marketing, composta de meios inusitados e indefinidamente renovados de propaganda. Embora não se possa fazer essa afirmação relativamente a todos os boatos que surgem nas mídias sociais, seu uso intencional e intensivo nas campanhas eleitorais nada mais é do que uma radical e pervertida utilização dessa técnica. Vamos, então, primeiro entender nosso adversário, antes de propor derrotá-lo. Não precisaremos ir muito longe: o leitor encontrará facilmente na internet diversas versões do “Manual do Guerrilheiro Urbano”, de Carlos Marighela; basta atualizá-lo para a realidade criada com o surgimento das mídias sociais.
Se você está em franca inferioridade de forças, não desejará enfrentar seu inimigo em condições normais, nem estará preocupado com as leis da cavalaria ou com os crimes de guerra. Seu objetivo não é vencer o inimigo em uma grande e decisiva batalha, mas desgastá-lo e fazê-lo perder tempo correndo atrás de pequenos “grupos de fogo”, ágeis e levemente armados, que agem autonomamente.
É desafiador, certamente, mas precisamos lembrar os fatos históricos sobre Marighella e quase todos os outros guerrilheiros. Não, não sugerimos a utilização de “paus-de-arara” e choques elétricos; estamos em uma democracia e queremos continuar nela. A única esperança é mesmo a utilização de meios tecnológicos e jurídicos legítimos, todavia mediante estratégias de contra-insurgência e contra-inteligência. Sem isso, apenas assistiremos às autoridades e os candidatos correndo de um lado para o outro, combatendo fantasmas e moinhos de vento.
*O autor é professor de mestrado em Segurança Pública da UVV