Uma ferida na boca que não cicatriza, uma rouquidão persistente ou aquela dor de garganta que não passa podem parecer problemas comuns do dia a dia. No entanto, esses sintomas também estão entre os sinais de alerta para o câncer de cabeça e pescoço.
O cuidado ganha ainda mais importância diante de um dado preocupante: mais de 70% dos pacientes brasileiros com carcinoma de células escamosas de cabeça e pescoço analisados em um estudo chegaram ao diagnóstico com a doença em estágio avançado.
A pesquisa, publicada na revista científica Oral Oncology Reports, analisou mais de 37 mil pacientes atendidos entre 2016 e 2018 nos sistemas público e privado de saúde do Brasil. O levantamento mostrou que a doença localmente avançada predominava no momento do diagnóstico e identificou diferenças no perfil dos pacientes e na localização dos tumores entre as duas redes.
O câncer de cabeça e pescoço não corresponde a uma única doença. O termo reúne tumores que podem atingir diferentes regiões, como boca, garganta, faringe, laringe e orofaringe. Segundo a oncologista Dra. Luana Pescuite, da Unimed Oncologia, o diagnóstico tardio está relacionado tanto às características iniciais da doença quanto ao acesso à informação e aos serviços de saúde.
As neoplasias de cabeça e pescoço englobam um conjunto de tumores a depender da localização anatômica, que seriam, em sua grande maioria, os tumores de orofaringe, cavidade oral, faringe e laringe
Dra. Luana Pescuite, oncologista
Segundo a especialista, muitos pacientes apresentam lesões que acabam não sendo investigadas precocemente. O acesso a atendimento médico ou odontológico especializado, a educação em saúde e a conscientização sobre fatores de risco podem interferir nesse caminho até o diagnóstico.
Sinais podem ser confundidos com problemas comuns
Um dos desafios é que os primeiros sintomas podem ser sutis. Uma lesão ou ferida na boca ou na garganta que não cicatriza, por exemplo, pode evoluir com crescimento, mau hálito, sangramento ou infecção.
"Às vezes, a procura ao médico vem num contexto de 'dor de garganta que não passa', sendo confundida pelo paciente com uma infecção tipo amigdalite", explica Luana.
Outro sinal importante é a mudança persistente na voz. Rouquidão progressiva que não melhora merece atenção, especialmente quando acompanhada por tosse com secreção ou sangue.
Dificuldade ou dor para engolir também pode indicar que algo não vai bem. Com a progressão do problema, o paciente pode começar a ter dificuldade para consumir alimentos mais sólidos, passando a tolerar apenas alimentos pastosos ou líquidos. Em quadros mais avançados, podem surgir nódulos no pescoço.
A orientação da oncologista é procurar avaliação médica diante de feridas na boca ou rouquidão que persistam por mais de duas semanas. Nódulos no pescoço ou na região da mandíbula que persistem ou apresentam crescimento acelerado e dificuldade ou dor progressiva para engolir também precisam ser investigados.
A atenção deve ser redobrada no contexto dos pacientes tabagistas e etilistas
Cigarro, álcool e HPV estão entre os fatores de risco
O tabagismo e o consumo frequente de bebidas alcoólicas estão entre os principais fatores associados aos cânceres de cabeça e pescoço. Segundo Luana, o risco merece atenção principalmente entre pessoas que mantêm esses hábitos diariamente durante muitos anos.
Os dados da pesquisa brasileira reforçam essa associação. Entre os pacientes analisados, 83,2% dos atendidos no sistema público tinham histórico de tabagismo, contra 64,2% na rede privada. O histórico de consumo de álcool também foi maior no setor público: 74,6%, ante 50,3% no privado.
Outro fator que merece atenção é o HPV, o Papilomavírus Humano. A infecção está relacionada principalmente a alguns tumores da orofaringe e pode permanecer no organismo por longos períodos sem provocar sintomas evidentes.
"O HPV nos tumores de cabeça e pescoço é o mesmo vírus que também se relaciona aos tumores de colo uterino e canal anal e está fortemente ligado à transmissão por via sexual desprotegida", explica a oncologista.
Entre os tipos de HPV associados ao desenvolvimento de câncer estão os subtipos de alto risco 16 e 18. Já os tipos 6 e 11 estão relacionados a lesões benignas, como papilomas e condilomas, segundo a médica.
A vacinação contra o HPV é uma importante estratégia de prevenção das infecções causadas pelos tipos de vírus contemplados pelas vacinas e, consequentemente, dos cânceres relacionados a eles.
A exposição solar prolongada sem proteção também entra na lista de fatores de risco, principalmente para tumores de pele da face e dos lábios.
Como é feito o diagnóstico
Quando existe suspeita de câncer de cabeça e pescoço, a confirmação do diagnóstico é feita por meio de biópsia. Segundo Luana, esse é o exame considerado padrão-ouro para identificar a presença do câncer e verificar qual tipo de célula está envolvido.
Nos casos de lesões na cavidade oral, como alterações na gengiva ou na língua, o cirurgião-dentista pode ter papel importante na identificação inicial de anormalidades e no encaminhamento do paciente para avaliação especializada.
O cirurgião-dentista possui um importante papel e pode sinalizar sobre a anormalidade e encaminhar o paciente para o cirurgião de cabeça e pescoço, que é o profissional mais apropriado para a realização da biópsia
Após a confirmação, outros exames são utilizados para determinar a extensão da doença, processo conhecido como estadiamento. Essa etapa ajuda a identificar se o tumor está restrito ao local de origem, se atingiu linfonodos da região do pescoço ou se já se espalhou para outros órgãos.
Quando disponível, um dos exames que podem ser indicados é o PET-CT com FDG, utilizado para investigar metástases regionais ou à distância. Segundo Luana, entre os locais mais frequentes de disseminação à distância estão os pulmões.
Quando o PET-CT não está disponível, outros exames podem ser utilizados, como ressonância magnética ou tomografia do pescoço para avaliação da região do tumor e tomografia de tórax para investigar possíveis metástases.
Prevenção começa com hábitos do dia a dia
Apesar de nem todos os fatores de risco poderem ser eliminados, algumas mudanças de comportamento ajudam a reduzir as chances de desenvolvimento da doença.
Entre as principais orientações da oncologista estão parar de fumar, reduzir ou interromper o consumo de bebidas alcoólicas e adotar práticas sexuais seguras, incluindo proteção durante o sexo oral.
O acompanhamento odontológico também pode contribuir para a detecção precoce, principalmente entre pessoas que fumam ou consomem álcool de forma crônica.
"A visita ao cirurgião-dentista pelo menos uma vez ao ano para os pacientes tabagistas e etilistas crônicos é importante", orienta Luana.
A observação do próprio corpo também faz diferença. Alterações persistentes na boca, na voz, na deglutição ou no pescoço não devem ser ignoradas, especialmente quando surgem em pessoas com fatores de risco.
Julho Verde
As novas estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA) ajudam a dimensionar o problema. Para cada ano do triênio de 2026 a 2028, são esperados 17.190 novos casos de câncer da cavidade oral no Brasil, sendo 12.260 em homens e 4.930 em mulheres.
No Julho Verde, mês dedicado à conscientização sobre os cânceres de cabeça e pescoço, a principal orientação é não esperar que sintomas persistentes desapareçam sozinhos.
"À população geral, primordial atenção a lesões de cavidade oral que não melhoram ou cronificam, alterações na deglutição, rouquidão que não melhora ou aparecimento de 'caroços' ou nodulações em região de pescoço ou abaixo da mandíbula e, caso presentes, procurar imediatamente um médico, principalmente em relação aos pacientes tabagistas ou etilistas crônicos", alerta a oncologista.
A recomendação inclui ainda mudanças no estilo de vida, como abandonar o cigarro e o consumo excessivo de álcool, praticar sexo seguro e manter acompanhamento odontológico periódico quando possível.