Sentir o intestino “travar” em períodos de preocupação intensa não é apenas impressão. A ciência já reconhece a existência de uma conexão direta entre cérebro e intestino, capaz de influenciar a digestão, o trânsito intestinal e até a composição da microbiota. Por isso, sintomas como prisão de ventre, gases, inchaço abdominal e desconforto digestivo podem ter mais relação com a saúde emocional do que muita gente imagina.
Segundo o nutricionista Lucas Moraro, essa comunicação acontece por meio do chamado eixo intestino-cérebro, uma via que conecta o sistema nervoso central ao trato gastrointestinal. “Hoje sabemos que existe uma comunicação constante entre cérebro e intestino. Quando uma pessoa está ansiosa, o sistema nervoso pode alterar diretamente a motilidade intestinal, a digestão, a produção de secreções e até a composição da microbiota. Por isso, sintomas digestivos costumam ser comuns em períodos de maior tensão emocional”, explica.
A seguir, o especialista lista os principais sinais de que a ansiedade pode estar afetando o funcionamento intestinal.
1. Prisão de ventre frequente
A constipação está entre as queixas mais comuns associadas à ansiedade. “A ansiedade pode alterar a comunicação entre cérebro e intestino, reduzindo a movimentação natural do trato gastrointestinal em algumas pessoas. Além disso, quem está ansioso muitas vezes muda hábitos importantes, como alimentação, hidratação, atividade física e qualidade do sono”, afirma Lucas Moraro.
2. Inchaço abdominal
A sensação de barriga estufada pode indicar que o intestino não está funcionando adequadamente. O sintoma costuma ser mais frequente em períodos de sobrecarga emocional.
3. Excesso de gases
Alterações na digestão e no equilíbrio da microbiota intestinal podem favorecer a formação de gases e provocar desconforto ao longo do dia.
4. Sensação de digestão lenta
Sentir que os alimentos demoram para ser digeridos também pode ter relação com o estresse. O estado constante de alerta provocado pela ansiedade interfere em diversas funções do organismo, incluindo a digestão.
5. Desconforto abdominal recorrente
Sensação de peso, mal-estar ou desconforto frequente na região abdominal merecem atenção, especialmente quando aparecem sem uma causa aparente.
6. Episódios de diarreia em momentos de tensão
Embora algumas pessoas desenvolvam constipação, outras podem apresentar aceleração do trânsito intestinal em períodos de maior ansiedade.
7. Dificuldade para emagrecer
Pouca gente faz essa associação, mas alterações intestinais também podem influenciar o processo de perda de peso. “Problemas intestinais podem influenciar saciedade, inflamação, absorção de nutrientes e até o comportamento alimentar. Além disso, sintomas como estufamento , desconforto abdominal e constipação podem impactar a adesão a hábitos saudáveis e dificultar o emagrecimento”, destaca o nutricionista.
Hábitos para melhorar o funcionamento do intestino
A boa notícia é que algumas mudanças simples de hábitos podem ajudar tanto a saúde intestinal quanto o bem-estar emocional. “Mamão, ameixa, kiwi, laranja com bagaço, além de verduras, legumes, aveia, sementes de chia e linhaça e leguminosas, como feijão, lentilha e grão-de-bico, ajudam a aumentar o volume e a hidratação das fezes, facilitando sua eliminação. Uma alimentação variada, rica em alimentos minimamente processados, costuma favorecer o equilíbrio da microbiota intestinal e o funcionamento adequado do intestino”, orienta o nutricionista.
Além disso, é importante reduzir o consumo de ultraprocessados, como salgadinhos, biscoitos recheados, fast food e produtos ricos em gordura e açúcar, frequentemente associados à piora da constipação. A hidratação também faz diferença. Segundo o especialista, uma orientação geral é consumir entre 30 e 35 ml de água por quilo de peso corporal por dia. Para uma pessoa de 70 kg, por exemplo, isso representa cerca de 2,1 a 2,5 litros diariamente.
Outro hábito fundamental é a prática regular de atividade física. “Exercícios aeróbicos, como caminhada, corrida, bicicleta e natação, apresentam benefícios bem documentados para o trânsito intestinal. O mais importante é a regularidade da prática, mais do que a modalidade escolhida”, orienta.
Atenção redobrada para quem usa medicamentos para emagrecer
O aumento do uso de medicamentos como a tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, também tem chamado atenção para os casos de constipação. “A constipação pode ocorrer especialmente nas fases iniciais do tratamento ou após aumentos de dose. As principais estratégias incluem garantir uma boa ingestão de água , aumentar gradualmente o consumo de fibras, manter atividade física regular e evitar longos períodos sem alimentação”, recomenda Lucas Moraro.
Quando procurar ajuda profissional
Embora alterações ocasionais possam acontecer, alguns sinais exigem avaliação médica. Segundo o nutricionista, a investigação é recomendada quando a prisão de ventre se torna persistente, apresenta piora progressiva ou vem acompanhada de sangue nas fezes, perda de peso involuntária, anemia, dor abdominal importante ou mudanças repentinas do hábito intestinal.
“O intestino não funciona isoladamente. Saúde emocional, sono, alimentação, atividade física e microbiota estão profundamente conectados. Muitas vezes, tratar apenas os sintomas intestinais significa olhar apenas para uma parte do problema. A saúde acontece quando o organismo é visto de forma integrada”, conclui.
Por Adriana Quintairos