Nas discussões pela internet ou em grupos de WhatsApp impera a impressão de que o país vive o seu pior momento de corrupção generalizada. Se prestarmos atenção, vamos perceber que esse pior momento é uma pauta do passado recente e não do presente ou do futuro. Os maiores casos divulgados são de alguns anos atrás. Claro que alguns casos novos ocorrem, mas a dimensão mudou. Nunca o país passou por um processo tão abrangente contra a corrupção. Muitas pessoas já condenadas e cumprindo pena. Muitas outras aguardando julgamento. Ações periódicas da Lava Jato e de outras operações com conduções coercitivas, delações premiadas, mandados de prisão e buscas e apreensões são efetuadas quase todas as semanas. A prisão em 2ª instância também assusta.
Há também um conjunto de novas legislações que restringem muito as oportunidades de corrupção. A lei da Ficha Limpa, a lei de transparência que obriga os órgãos públicos a publicar tudo, a lei de lavagem de dinheiro e a lei das estatais. Fora isso, acordos internacionais praticamente acabaram com contas secretas em paraísos fiscais e com a profissão de doleiro no Brasil. Sintomática foi a descoberta de 51 milhões em dinheiro em um apartamento, dinheiro que, em outras épocas já estaria em alguma conta secreta. As grandes empresas também implantaram seus sistemas de compliance, com medo de quebrar, como vem acontecendo com as grandes empreiteiras. Tem sido fundamental também a atuação da imprensa investigativa.
Apesar disso, estranhamente, muitas pessoas ainda pensam que só se resolveria a corrupção no Brasil com intervenções militares ou com algum salvador da pátria que chicotearia os corruptos e, num passe de mágica, exterminaria a corrupção. É um raciocínio de um primarismo, que só não chamaria de inocente porque é muito perigoso. A democracia está resolvendo, com suas instituições que, se são criticáveis muitas vezes, mostram um avanço extraordinário sobre a impunidade que imperou até recentemente. As duas tentativas de eleger presidentes com discursos de acabar com a corrupção deram n´água: Jânio, com a vassoura, e Collor, o caçador de marajás. Um acabou em renúncia e outro em impeachment, justamente por corrupção.
Verdade que muitas figuras notórias da corrupção continuam por aí, sendo eleitos, não por marcianos, mas por alguns de nós mesmos. Vamos ter paciência. Muitos países, hoje desenvolvidos, passaram por isso. As séries sobre política americana no Netflix como “House of Cards”, “Designated Survivor” e “Scandal” não mostram um mundo bonito, não. É ficção, mas não teria sucesso se não tivesse a ver com a realidade. A solução é: muita educação, muita informação, muita eleição, muita paciência e... muita prisão também.