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Por que alguns dos países mais populosos do mundo são tão ruins no futebol, e vice-versa

Muitas nações com grandes populações raramente participam da Copa do Mundo, enquanto outras com poucos habitantes se destacam no esporte. Quais as explicações?

Publicado em 04 de Julho de 2026 às 17:35

BBC News Brasil

Publicado em 

04 jul 2026 às 17:35
Imagem BBC Brasil
Sem uma seleção na Copa do Mundo, os torcedores de Bangladesh "adotaram" outras nações, como a Argentina. Crédito: Getty Images
Houve um alvoroço na multidão de fãs em 17 de junho, quando o astro argentino Lionel Messi marcou seu primeiro gol na Copa do Mundo da FIFA de 2026, colocando a bola com frieza no fundo da rede, sem chances para o goleiro argelino.
Mas não havia um único argentino na multidão: os torcedores que pulavam e se agitavam – muitos deles vestindo a famosa camisa albiceleste (branca e azul-celeste) – eram moradores locais em uma das muitas festas ao ar livre para assistir ao jogo na capital de Bangladesh, Dhaka.
Cidades na Índia e na Indonésia também foram palco de manifestações de rua igualmente apaixonadas.
Messi e seus compatriotas foram adotados por esses fãs, em parte porque suas próprias nações falharam repetidamente em se classificar para a Copa do Mundo.
Dos 10 países mais populosos do mundo, apenas dois chegaram ao torneio atual (Estados Unidos e Brasil). Outros dois (Rússia e Nigéria) participaram de várias edições anteriores.
China e Indonésia participaram apenas uma vez do evento esportivo mais popular do planeta.
A Índia (a nação mais populosa do mundo), Bangladesh, Etiópia e Paquistão até agora apenas sonham em participar da festa - embora a Índia tecnicamente tenha se classificado para a Copa do Mundo de 1950, no Brasil, mas desistiu menos de um mês antes do início do torneio.
"É simplesmente inaceitável que um país com milhões de fãs de futebol esteja tão atrasado nesse quesito", disse o renomado ator, escritor e fã de futebol de Bangladesh Audite Karim, à BBC.
Então, por que o tamanho da população é um indicador tão ruim para o sucesso no futebol?
Em teoria, quanto maior a população de um determinado país, maior o número de atletas em potencial que podem ser convocados.
Sete das oito nações que já ganharam a Copa do Mundo (Argentina, Brasil, Inglaterra, França, Alemanha, Itália e Espanha) têm populações relativamente grandes.
A única exceção é o Uruguai - mas falaremos mais sobre eles adiante.
No entanto, o tamanho da população é apenas um dos vários fatores importantes, explica o acadêmico e economista britânico Stefan Szymanski.
"O futebol é muito parecido com o funcionamento das economias nacionais. Para prosperarem, precisam de pessoas. Mas também precisam de capital e infraestrutura", diz Szymanski, coautor de Soccernomics, um livro best-seller que analisa dados para examinar o sucesso e o fracasso no esporte.
"No futebol, isso significa instalações de treinamento e a capacidade de encontrar talentos."
Szymanski observa que a grande maioria das nações bem-sucedidas no futebol compartilham outro denominador comum: a riqueza.
Em Soccernomics, Szymanski e o coautor Simon Kuper descobriram que os países normalmente precisam de "uma renda média anual per capita mínima de US$ 15.000 para ganhar alguma coisa".
Mas o Brasil e a Argentina, cuja renda média per capita está bem abaixo desse limite, conquistaram juntos oito títulos da Copa do Mundo.
Isso, segundo o economista britânico, demonstra a importância do terceiro fator: o conhecimento técnico.
"E isso vem com a experiência. As nações que já ganharam a Copa do Mundo são aquelas que dominavam o jogo há 100 anos, antes do fim do colonialismo."

Um jogo de recuperação

Imagem BBC Brasil
Marrocos é um exemplo de um país mais jovem que tenta alcançar as potências estabelecidas do futebol. Crédito: Getty Images
Em termos simples, as nações bem-sucedidas no futebol, incluindo aquelas com participação regular em torneios como a Copa do Mundo, são também as que disputaram mais partidas ao longo de sua história, especialmente em regiões com níveis mais altos de competitividade, como a América do Sul e a Europa.
Isso ajuda a explicar, por exemplo, por que o Uruguai, uma nação sul-americana de 3,5 milhões de habitantes, conseguiu vencer duas Copas do Mundo (1930 e 1950). A primeira partida internacional da Celeste – uma derrota por 6 a 0 para a Argentina – aconteceu em 1902, 12 anos antes de o Brasil disputar seu primeiro jogo.
Nações africanas e do sul da Ásia, que existem há muito menos tempo ou onde o futebol se desenvolveu mais tarde, tiveram que trabalhar arduamente para alcançar o nível dos demais países.
Alguns casos se destacaram: Marrocos, que se tornou independente da Espanha e da França em 1956, tornou-se a única nação africana a chegar a uma semifinal da Copa do Mundo, no Catar, em 2022. A Coreia do Sul tornou-se a única nação asiática a terminar entre as quatro melhores, como coanfitriã em 2002.
"Mas aí vemos outros países como Indonésia, Índia, Bangladesh, e outros, que não estão conseguindo acompanhar o ritmo", observa Szymanski.
O economista afirma que esses países têm enfrentado dificuldades devido à falta de recursos e capacidades. Mas mesmo com mais investimentos, eles ainda teriam problemas com a falta de conhecimento técnico, acredita ele.

Os problemas da Etiópia

Imagem BBC Brasil
A Etiópia esteve perto de sua primeira participação na Copa do Mundo em 2014. Crédito: AFP via Getty Images
A Etiópia nunca se classificou para a Copa do Mundo. Venceu a Copa Africana de Nações em 1962, mas sua melhor chance de chegar ao torneio principal foi nas eliminatórias africanas de 2014: a Etiópia chegou à fase final das eliminatórias, mas foi derrotada pela Nigéria no agregado dos dois jogos.
Atualmente, o futebol etíope enfrenta o que a mídia local descreve como um grave subinvestimento no esporte. Um exemplo disso é a atual temporada da liga profissional do país, que sofre com a escassez de estádios adequados para sediar os jogos.
"Nesta temporada, realizamos mais de 380 partidas utilizando apenas três estádios homologados", declarou Kifle Seife, diretor executivo do campeonato nacional etíope, ao jornal The Reporter em 27 de junho.
A escassez também afetou a seleção masculina, que teve de disputar suas partidas como mandante nas eliminatórias africanas no Marrocos.

O críquete: um obstáculo ou uma desculpa no sul da Ásia?

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Algumas pessoas no sul da Ásia acreditam que a popularidade do críquete impede o desenvolvimento do futebol. Crédito: AFP via Getty Images
Alguns países também são vítimas do seu sucesso em outros esportes: a Índia é uma das nações mais dominantes no críquete no planeta e sua liga profissional, a IPL, é a mais rica do mundo.
Segundo Shyam Thapa, ex-jogador da seleção indiana, isso acarreta sérias dificuldades de recrutamento. O sucesso da IPL, afirma ele, tem levado pais de classe média e média-alta a direcionarem cada vez mais seus filhos para o críquete, em detrimento do futebol.
"Eles [os pais] precisam entender que também é possível ganhar muito dinheiro se eles conseguirem fazer carreira no futebol", disse Thapa à BBC News.
No entanto, o auditor Karim destaca que a Austrália e a Nova Zelândia estão se desenvolvendo no futebol e chegando à Copa do Mundo, apesar de serem potências no críquete.
"A popularidade do críquete é pura desculpa", diz ela sobre Bangladesh, país que também adora o esporte.
"Simplesmente não temos a preparação e a estrutura necessárias para um país disputar a Copa do Mundo [de futebol]."

Será a China um gigante adormecido?

Imagem BBC Brasil
A China perdeu todas as partidas da fase de grupos da Copa do Mundo de 2002 sem marcar um único gol. Crédito: AFP via Getty Images
O caso da China é talvez mais intrigante. Nas últimas décadas, tornou-se um dos países mais bem-sucedidos na história olímpica. Mas suas incursões no futebol masculino não renderam frutos semelhantes.
"Não há razão [em teoria] para que a China não possa produzir jogadores de futebol de nível mundial", acredita Mark Dreyer, especialista em futebol chinês radicado em Pequim.
"O principal problema é que na China tudo é controlado pelo Estado e tudo funciona de cima para baixo. É preciso gente do futebol tomando decisões relacionadas ao futebol, mas há muita interferência política."
A China não retorna à Copa do Mundo desde 2002, apesar do grande investimento no futebol desde a década de 2010, que incluiu a contratação de vários nomes de peso do futebol sul-americano e europeu para sua liga profissional, numa tentativa de elevar o nível do jogo.
Assim como a China, a Indonésia também já participou de uma Copa do Mundo antes – em 1938, quando competiu como Índias Orientais Holandesas, então uma colônia dos Países Baixos.
A equipe do Sudeste Asiático teve um bom desempenho em 2026, chegando à fase final de qualificação.
Mas esse desempenho talvez seja melhor explicado pela decisão de contratar jogadores europeus com ascendência indonésia, em vez de apostar em talentos locais.
"Em certos momentos, havia oito ou nove jogadores nascidos na Europa no time titular da Indonésia", diz Jerome Wirawan, editor de notícias do serviço indonésio da BBC.
Paquistão e Bangladesh foram eliminados das eliminatórias asiáticas na fase de grupos, sem nenhuma vitória em seis partidas. O Paquistão também foi banido do futebol internacional três vezes pela Fifa entre 2017 e 2025 devido a disputas políticas internas na entidade.

Aproveitando a festa - de um jeito ou de outro.

Assim, para os fãs de futebol de muitos países, a glória na Copa do Mundo pode parecer muito distante.
Entretanto, diz Karim, o prêmio de consolação é simplesmente aproveitar a festa.
"Considerando a realidade, não vejo nenhuma possibilidade de ver Bangladesh disputar uma Copa do Mundo durante a minha vida."
"Mas os torcedores de futebol de Bangladesh ainda vão querer vivenciar cada momento de alegria do torneio."

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