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O vídeo de Michelle contra Flávio Bolsonaro se voltou contra ela?

Ex-primeira-dama recebe critícas de bolsonaristas por expor conflitos internos e atrapalhar pré-campanha presidencial, mas analistas também vêm ganhos políticos: 'não é briga familiar, é disputa de poder'

Publicado em 27 de Junho de 2026 às 07:35

BBC News Brasil

Publicado em 

27 jun 2026 às 07:35
Imagem BBC Brasil
Crédito: MAURO PIMENTEL/AFP via Getty Images
O ataque direto de Michelle Bolsonaro (PL) ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), em dois vídeos divulgados na quarta-feira (24/5), "caiu como uma bomba" na pré-campanha do enteado ao Palácio do Planalto, conforme reconhecem os próprios bolsonaristas, e está sendo lido como um movimento calculado na disputa pelo espólio político do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
A reação de lideranças bolsonaristas e monitoramentos da repercussão da briga nas redes sociais, porém, indicam que a ex-primeira-dama também sofreu desgaste com o episódio, devido à leitura de parte do campo bolsonarista de que ela teria exposto questões internas e prejudicado as chances de derrotar o PT em outubro (confira os números ao longo da reportagem).
Por outro lado, também há quem veja um saldo positivo para a ex-primeira-dama, fora do núcleo duro bolsonarista. Para Carolina Althaller, diretora executiva do Instituto Update, o episódio mostra que há uma clara "disputa de poder dentro do mesmo campo' que não pode ser resumida a uma 'briga de família'.
"No curto prazo, ela sai com capital político elevado, sem se colocar formalmente como candidata, e com a narrativa de quem foi desrespeitada mesmo sendo leal. Para sua base feminina evangélica, esse frame é muito poderoso", analisa.
Michelle chegou a ser apontada como possível candidata à vice-presidente numa chapa com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Repúblicanos), antes de Flávio Bolsonaro ser lançado ao Palácio do Planalto, com apoio do pai.
A expectativa é que ela concorra ao Senado pelo PL no Distrito Federal. Pesquisas de intenção de voto a colocam na liderança, chegando a marcar mais de 30% nas intenções de voto.
Como presidente do PL Mulher, ela é vista no partido como liderança carismática e importante ativo junto ao público feminino conservador.
Nos vídeos contra Flávio, que somam 27 minutos, Michelle respondeu às cobranças para se empenhar no apoio à pré-candidatura do seu enteado e disse ter recebido uma "punhalada" dele no ano passado, quando a família Bolsonaro viveu uma crise em torno das articulações políticas para as eleições no Ceará.
Enquanto Flávio defende que o PL apoie Ciro Gomes (PSDB) ao governo do Estado, visto com opção mais competitiva para tentar derrotar o atual governador Elmano de Freitas (PT), Michelle diz que essa aliança seria uma traição, já que Ciro sempre fez duras acusações contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), e apoia a pré-candidatura do bolsonarista Eduardo Girão (Novo).
Nos vídeos, Michelle disse ainda que, em novembro passado, quando o desentendimento sobre a eleição do Ceará veio à tona, o senador a "maltratou" e tratou seu apoio como algo "insignificante".
Em resposta, Flávio divulgou um texto em suas redes sociais se desculpando e afirmando que em nenhum momento ofendeu ou teve a intenção de ofender a ex-primeira-dama.
"Se o fiz em algum momento, mais uma vez, peço desculpas. Tenho por ela respeito e reconhecimento pelo trabalho no PL Mulher, pelo cuidado com meu pai e por tudo o que representa para o Brasil", escreveu em uma postagem também na quarta.
A publicação de Flávio, por sua vez, provocou mais uma declaração de Michelle Bolsonaro. "Para ficar claro: eu não tenho raiva de ninguém. Apenas esclareci uma situação que estava sendo deturpada", escreveu a ex-primeira-dama em seu Instagram, na quinta-feira (25/6).
Ela afirmou ainda que todos vão trabalhar juntos "para derrotar o atual desgoverno" e pediu que não tirem trechos de sua fala de contexto.
Imagem BBC Brasil
Michelle publicou dois vídeos que somam 27 minutos com críticas ao enteado Crédito: Reprodução Instagram/Michelle Bolsonaro

As reações negativas nas redes sociais

Segundo monitoramento do instituto Quaest, o assunto gerou 580 mil mensagens no Instagram, TikTok e X entre 20h de quarta-feira, pouco depois dos dois vídeos serem divulgados, até 12h do dia seguinte.
"Desse total, 42% das publicações defenderam Flávio e criticaram a postura de Michelle, argumentando que ela não deveria expor conflitos pessoais durante a campanha eleitoral. Por outro lado, 31% manifestaram apoio à ex-primeira-dama", apontou a Quaest.
"Entre seus defensores, ganhou força o argumento de que Michelle representaria uma alternativa eleitoral mais competitiva e viável. Os 27% restantes corresponderam a manifestações neutras, sem apoio explícito a nenhum dos dois", disse ainda o instituto.
Outro monitoramento, realizado pela AP Exata Inteligência, mostrou que o episódio ajudou Flávio a recuperar o percentual de menções positivas nas redes sociais, após o desgaste causado pela revelação de que ele pediu dezenas de milhões ao Banco Master para financiar um filme em homenagem ao pai — R$ 61 milhões chegaram a ser aportados na produção da obra pela instituição, antes de sua liquidação, devido a fraudes bilionárias.
Segundo postagens monitoradas no Instagram e no X até 14h30 de sexta-feira (26/6), as menções positivas ao senador subiram de 32% para 38,44% após o episódio, alta de 6,44 pontos percentuais e melhor índice dos últimos 45 dias.
A AP Exata utiliza um modelo próprio de inteligência artificial para interpretar o contexto emocional das conversas envolvendo candidatos e temas políticos nas redes sociais. A ferramenta mede sentimentos como confiança, tristeza, alegria e medo para identificar mudanças na percepção do eleitorado no ambiente digital.
Segundo o CEO da AP Exata e cientista de dados, Sergio Denicoli, o sentimento de confiança é um dos indicadores mais relevantes na análise. Esse índice associado a Flávio Bolsonaro também avançou, passando de 11,63% para 13,9%, crescimento de 2,27 pontos.
"A leitura é que Flávio capturou a reação defensiva da base bolsonarista, que o enquadrou como vítima da exposição pública do conflito e ajudou a reduzir o desgaste do episódio", disse à BBC News Brasil.
O levantamento mostra ainda que os vídeos da ex-primeira-dama chegaram a 18 milhões de visualizações e elevaram sua presença no debate presidencial de 5% para 20,9% das menções entre os nomes monitorados.
O aumento de exposição, porém, não rendeu impacto positivo e seus indicadores de imagem ficaram praticamente estáveis. As menções positivas recuaram de 46,5% para 46,11%, queda de 0,39 ponto, enquanto a confiança passou de 18,2% para 17,9%, recuo de 0,3 ponto, aponta a AP Exata.
"Os números indicam que Michelle evitou corrosão relevante de imagem e preservou apoio sobretudo entre mulheres conservadoras e evangélicos, mas sem transformar o episódio em ganho proporcional de popularidade, enquanto Flávio conseguiu ativar sua militância e também perfis moderados, que consideraram a exposição equivocada, entendendo que a ex-primeira-dama expôs um conflito familiar de forma desnecessária", destaca Denicoli.

Direita racha nos grupos de WhatsApp, e esquerda engrossa apoio à Michelle

Já a empresa de análise de dados Palver, que monitora cerca de 100 mil grupos públicos de WhatsApp e 5 mil canais abertos de Telegram, também analisou o impacto da briga.
Segundo Lucas Cividanes, coordenador de Inteligência da Palver, "a direita se dividiu entre apoio a Michelle e apoio ao Flávio".
No geral, Michelle teve mais menções positivas nos grupos, porque também recebeu apoio do campo da esquerda.
O assunto, aponta a Palver, ganhou tração rapidamente nos grupos monitorados e alcançou o pico de 219 menções por 100 mil mensagens na quinta-feira (25/6).
"Entre as mensagens classificadas (excluindo neutros, que representam 44% da amostra da Palver), 67% são desfavoráveis à conduta de Flávio Bolsonaro e 33% são favoráveis. A vantagem de Michelle na disputa narrativa é expressiva", diz o relatório.
"A esquerda se juntou à Michelle no ataque a Flávio Bolsonaro, aumentando o volume de menções contrárias ao pré-candidato. A narrativa dominante é a de traição ideológica: Flávio e André Fernandes [deputado federal do PL no Ceará] teriam ignorado a memória política do pai preso ao buscar o apoio de Ciro Gomes, que historicamente atacou a família Bolsonaro com insultos pesados. Michelle é enquadrada como guardiã dos valores bolsonaristas", continua o documento sobre os resultados do levantamento.
Imagem BBC Brasil
Crédito: AFP via Getty Images

A reação de lideranças bolsonaristas

Entre políticos bolsonaristas, o apoio de maior peso à Michelle partiu da senadora Damares Alves (Repúblicanos-DF), que comentou em um dos vídeos compartilhados pela ex-primeira-dama com críticas a Flávio: "Coerente! Forte! Corajosa! Verdadeira! Amo você, amiga!".
Outras lideranças importantes, porém, manifestaram apoio ao senador. Chamou especial atenção a manifestação da deputada Bia Kicis (PL-DF), que é próxima de Michelle e que hoje é cotada para disputar, ao lado da ex-primeira-dama, as duas vagas do Senado pelo Distrito Federal.
"Foi bom o vídeo? Claro que não. A gente não gostou, o vídeo caiu ali na hora como uma bomba", disse Kicis ao canal CNN Brasil, na quinta-feira (25/6).
"Acredito que a internet não é para isso. Na política, não é bom dar munição para o adversário, mas felizmente eu vejo que esse assunto vai ficar para trás e vai ser superado, tanto que o Flávio e a Michelle hoje trouxeram uma abertura para um diálogo, um entendimento e um posicionamento", completou.
Horas antes de a esposa de Jair Bolsonaro divulgar as gravações em sua conta no Instagram, a deputada havia postado outro vídeo ao lado de Flávio, em que ele levanta a possibilidade de Kicis concorrer como vice em sua chapa presidencial.
O pastor Silas Malafaia, por sua vez, compartilhou o vídeo do pré-candidato em resposta aos ataques com a seguinte mensagem de apoio: "Flávio Bolsonaro dá um show!".
Já o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, tentou se equilibrar entre os dois, tecendo elogios tanto à liderança política de Michelle no PL Mulher, quanto ao peso de Flávio na disputa presidencial, lembrando que ele está quase empatado com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas pesquisas.
As declarações foram dadas à Rádio Gaúcha, no aeroporto de Miami, quando voltava ao Brasil após o jogo da seleção, para tentar resolver a briga.
"Estou indo para São Paulo, antecipei minha viagem porque isso é muito sério (...). Nós temos que acertar isso aí. Se não acertar isso aí, nós já vamos sair perdendo em casa".
Apesar de acenar para os dois lados da briga, Costa Neto disse que Michelle tem que ser "convencida" sobre o arranjo com Ciro Gomes no Ceará.
"O Ciro é um homem sério, que tem muitos defeitos. Ele teve defeitos de atacar todo mundo, mas é o único que tem chance de vencer o PT. Se nós não formos com ele, o governador do Ceará vai ser o PT. Se nós formos com ele, ele ganha a eleição."
Ele também lembrou que outro ponto de disputa está na eleição para o Senado no Ceará. Michelle defende que o partido lance Priscila Costa, vereadora mais votada de Fortaleza em 2024 e vice-presidente do PL Mulher. Seu desejo é que ela dispute uma das duas vagas para o Senado, ao lado de Alcides Fernandes (PL), pai de André Fernandes (PL), deputado federal mais votado no Ceará em 2024 e que perdeu a disputa para a prefeitura de Fortaleza para o PT por margem muito pequena.
Fernandes, porém, defende a aliança com Ciro Gomes, o que significaria apoiar um segundo candidato ao Senado que não seria do PL. Nesse cenário, ele quer que o partido lance seu pai e desista de Priscila Costa, o que irritou Michelle.
"Ela [Priscila Costa] é a vereadora mais bem votada no estado e ela tem chance de ser senadora, assim como o pai do Fernandes tem. Ele [André Fernandes] quase ganhou a eleição. Ele perdeu a eleição por 10 mil votos para prefeito de Fortaleza. Então ele [Alcides Fernandes] tem toda chance do mundo", disse Valdemar Costa Neto.
Imagem BBC Brasil
Michelle Bolsonaro ao lado de seus aliados, o senador Eduardo Girão (Novo-CE) e a vereadora de Fortaleza Pricilla Costa (PL-CE), vice-presidente do PL Mulher Crédito: Edilson Freire/BBC

'Não é briga familiar, é uma disputa de poder'

Carolina Althaller, diretora executiva do Instituto Update, discorda da visão de que o episódio foi majoritariamente negativo para Michelle Bolsonaro.
"Independentemente dos efeitos imediatos, o episódio revela algo mais estrutural: Michelle deixou de ocupar apenas um papel simbólico dentro do bolsonarismo. Ela entrou nessa crise como um ativo político real".
O instituto é uma organização sem fins lucrativos que atua na promoção da inovação política e do fortalecimento da democracia. A organização publicou no ano passado A pesquisa Mulheres em Diálogo, que ouviu 668 mulheres com 16 anos ou mais, de todas as regiões do país, sobre temas políticos, morais e sociais.
No campo político, Michelle foi a mulher mais lembrada espontaneamente pelas entrevistadas.
"Isso ajuda a entender por que sua posição produz tanto impacto, e por que o conflito com Flávio não pode ser tratado como uma briga familiar. É uma disputa de poder entre dois projetos dentro do mesmo campo", continua.
A ex-primeira-dama, ressalta, "vem construindo capital político próprio de forma metódica há pelo menos dois anos — percorrendo estados, formando lideranças, articulando candidaturas pelo PL Mulher".
Na sua leitura, reações negativas imediatas nas redes não são necessariamente indicativas do impacto eleitoral de médio prazo.
"O ponto mais relevante é que Michelle não está disputando a aprovação da base dura de Flávio, mas sim construindo um capital que transcende essa base, voltado para o eleitorado feminino indeciso, para mulheres evangélicas que se identificam com a experiência de ser desrespeitada dentro de estruturas dominadas por homens", nota.
"Para esse público, o vídeo pode ter efeito muito diferente do que nas bolhas bolsonaristas", acredita.
Para Althaller, o principal impacto negativo do episódio ocorre na pré-campanha presidencial de Flávio Bolsonaro.
"Pesquisas recentes mostram que Lula abre vantagem entre as mulheres, enquanto Flávio lidera entre os homens. Michelle era o principal ativo para reduzir esse gap. Com as convenções partidárias previstas para julho e agosto, a campanha agora precisa gerir a crise, reconstruir a relação com Michelle e definir uma chapa — tudo isso sob o holofote público", analisa.

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