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'Fizeram uma lavagem cerebral completa em mim': a seita apocalíptica dos anos 1980 que atraiu jovens modelos

Liderada por uma enigmática figura da alta sociedade de Nova York que afirmava ser um extraterrestre em forma humana, a Eternal Values tinha membros da elite. Agora, um de seus ex-seguidores mais conhecidos conta sua história

Publicado em 26 de Julho de 2026 às 22:35

BBC News Brasil

Publicado em 

26 jul 2026 às 22:35
Imagem BBC Brasil
Frederick von Mierers dizia ser um viajante do planeta Arcturus que havia assumido forma humana Crédito: HBO
Poucas pessoas levaram uma vida dupla como Hoyt Richards.
Na década de 1980, ele, formado pela Universidade de Princeton, de beleza clássica, estrelava campanhas publicitárias para marcas de luxo como Ralph Lauren, Dunhill e Donna Karan.
Embora desde então tenha ampliado a carreira para a atuação, a direção cinematográfica e palestras públicas, Richards ainda é frequentemente descrito como "o primeiro supermodelo masculino do mundo".
Ele parecia a personificação de uma masculinidade serena e confiante, mas, quando não estava viajando para destinos exóticos para ser fotografado por Richard Avedon ou Steven Meisel, Richards era um integrante devoto de uma enigmática seita espiritual chamada Eternal Values ("Valores Eternos", em português).
Essa organização, que foi tema de uma reportagem investigativa publicada pela jornalista Marie Brenner na Vanity Fair em 1990, acabou caindo praticamente no esquecimento.
Suas fascinantes origens em meio à cultura de busca permanente pelo sucesso que predominou em meados dos anos 1980, assim como seu lento declínio ao longo dos anos 1990, voltam agora a chamar atenção em Os Escolhidos da Beleza, uma impactante e inquietante série documental lançada pela HBO no mês passado.
Esta é uma história real que ninguém conseguiria inventar.
O fundador da Eternal Values, o bem relacionado, porém enigmático membro da alta sociedade nova-iorquina Frederick von Mierers, dizia ser uma "entidade extraterrestre alojada em um corpo humano", um ser vindo do planeta Arcturus que havia entrado em um corpo humano para difundir uma mensagem de iluminação na Terra.
Imagem BBC Brasil
A história da seita Eternal Values parece o enredo de um filme Crédito: HBO
Sua missão declarada repetidas vezes era recrutar novos líderes arcturianos entre a raça humana antes que um suposto "deslocamento dos polos" destruísse o planeta em 1999.
Na prática, tratava-se de uma seita apocalíptica revestida de grande charme e glamour.
Mestre em se reinventar e também um incorrigível arrivista, Von Mierers gostava de se cercar de jovens brilhantes e promissores, como modelos e profissionais ambiciosos no início de suas carreiras.
Na verdade, ele não buscava apenas pessoas atraentes, mas qualquer um que pudesse melhorar sua reputação e aumentar sua fortuna.
Nascido como Fred Meyers em um bairro operário do Brooklyn — embora, naquela época, pouquíssimas pessoas conhecessem sua verdadeira identidade —, ele construiu seu séquito de seguidores e a fortuna da seita vendendo "leituras de vida" psíquicas personalizadas gravadas em fitas cassete e assinaturas que forneciam pedras preciosas selecionadas especificamente para cada pessoa.
Os preços eram altos, mas Von Mierers garantia que suas pedras preciosas possuíam propriedades curativas.
Jacki Adams, outra importante supermodelo dos anos 1980 atraída pela Eternal Values, contou a Brenner que entregou ao líder da seita mais de US$ 100 mil para a compra de pedras preciosas e para financiar reformas em um apartamento nas quais ele a estava ajudando.
Imagem BBC Brasil
Hoyt Richards tornou-se o modelo masculino mais bem pago do mundo no fim da década de 1980 Crédito: HBO
Hoyt Richards tornou-se o modelo masculino mais bem pago do mundo no fim da década de 1980.
O modelo Hoyt Richards foi abordado por Von Mierers pela primeira vez em 1978, quase uma década antes de Adams entrar para a Eternal Values, em 1987.
E só conseguiu se desvincular definitivamente em 1999, nove anos após a morte do fundador da organização — a quem Richards chama de Freddie — por complicações relacionadas à aids.
"Quando Freddie morreu, eu diria que a seita morreu com ele", conta Richards à BBC.
"Mas nós seguimos em frente sob a sombra dele, como uma família profundamente tóxica e disfuncional."
Quando Richards deixou a Eternal Values em 1999, com a ajuda do também supermodelo Fabio Lanzoni, a organização havia sido reduzida a um pequeno grupo de seguidores fiéis e desorientados.
No entanto, ainda hoje muitos dos antigos adeptos de Von Mierers se recusam a acreditar que um dia fizeram parte de uma seita.
Richards, hoje com 64 anos, não tem essa dúvida ao reconhecer que foi "vítima de uma lavagem cerebral" promovida pelo carismático líder da Eternal Values.
"Há 25 anos venho percorrendo um caminho que me levou a falar cada vez mais abertamente sobre o que aconteceu, porque acredito que contar essa história tem um valor real", afirma Richards.

Caindo no engano

Imagem BBC Brasil
Hoyt Richards, entrevistado em Crédito: HBO
Grande parte do interesse dessa história está no fato de Richards parecer uma vítima altamente improvável.
Ele cresceu em um ambiente privilegiado e afetuoso nos subúrbios da Pensilvânia, mas sua "relação sectária" com a Eternal Values — como ele mesmo a descreve — o levou a passar 12 anos sem falar com a família.
Ele nunca foi prisioneiro no sentido físico, mas afirma que permaneceu sob o encanto de Von Mierers mesmo enquanto viajava constantemente entre Manhattan e Milão para participar de sessões de fotos.
O diretor da série, Chris Smith — que anteriormente dirigiu documentários sobre o fracassado festival de música Fyre Festival e sobre o controverso guru antienvelhecimento Bryan Johnson — usa a história de Richards como um alerta sobre os perigos da manipulação, destacando o carisma e a astúcia de Von Mierers.
O futuro supermodelo tinha apenas 16 anos quando foi abordado em uma praia de Nantucket, o exclusivo balneário na costa de Massachusetts onde sua família passava os verões.
Como Von Mierers queria projetar uma imagem refinada e própria da velha elite rica, aquele era exatamente o tipo de lugar que também gostava de frequentar.
Embora Richards não soubesse disso na época, Von Mierers o manipulava desde o início.
"Antes de começar uma de suas diatribes espirituais, Freddie me dizia: 'Você é muito inteligente, então vai entender isso'", lembra Richards.
"Então, embora eu na verdade não entendesse bem o que ele estava dizendo, eu não podia questioná-lo, porque antes ele havia feito esse elogio."
Von Mierers, que afirmava ser órfão e ter sangue aristocrático europeu, também começou a afastar Richards gradualmente de seu círculo social.
"Meus amigos o descartavam como apenas mais um excêntrico de Nantucket", lembra Richards.
"Mas ele olhava para eles e me dizia: 'Você não é como seus amigos; você é diferente'. E, quando você tem 16 anos, isso parece uma pergunta legítima que merece reflexão; algo como: 'Será que tenho algo de especial?'. E foi assim que entrei nessa toca de coelho."
Imagem BBC Brasil
Crédito: Cortesía de HBO
Três anos depois, quando Richards ingressou na Universidade de Princeton, em Nova Jersey, para estudar Economia, o apartamento de Von Mierers em Manhattan tornou-se um conveniente ponto de encontro para festas.
"Ele ficou muito empolgado quando soube que eu ia estudar em uma universidade da Ivy League, mas nunca falava sobre seus próprios anos de universidade", conta Richards.
Naquela época, Von Mierers já estava na casa dos 30 anos, mas escondia sua idade e os verdadeiros detalhes de sua biografia porque eles não combinavam com a imagem cuidadosamente construída que projetava.
Mais tarde, Richards descobriria que o homem nascido como Fred Meyers, no Brooklyn, havia aproveitado sua breve carreira como modelo para se reinventar como o deslumbrante membro da alta sociedade nova-iorquina Frederick von Mierers.
Ele nunca falava de um diploma universitário porque não tinha nenhum.
Mesmo assim, durante os 12 anos em que se conheceram, Richards afirma que "Freddie nunca abandonou o personagem nem por um instante".
"Com o tempo, compreendi que pessoas com personalidades narcisistas — que é como eu descreveria Freddie — tendem a se definir em função das pessoas de quem se cercam", afirma Richards.
"Ele sempre exagerava minhas conquistas quando me apresentava a alguém. Acho que fazia isso porque queria que ambos parecêssemos melhores."
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Hoyt Richards desfilou, entre outras marcas, para Donna Karan Crédito: Getty Images
Depois de se formar em Princeton, Von Mierers apresentou Richards a Joey Hunter, uma figura influente da prestigiada agência Ford Modeling Agency, hoje conhecida como Ford Models.
A carreira de Richards decolou de forma espetacular quando Bruce Weber, um dos fotógrafos de moda mais influentes da época, praticamente o tirou do anonimato.
Anos depois, Weber foi acusado de agressão sexual e conduta imprópria por vários modelos masculinos.
O fotógrafo sempre negou as acusações, e todos os processos movidos contra ele foram arquivados ou resolvidos por acordo extrajudicial, sem que isso implicasse qualquer reconhecimento de responsabilidade de sua parte.
Richards admite que se sentia "culpado por seguir uma carreira que não considerava espiritual".
Em meados da década de 1980, quando o movimento Nova Era ganhava popularidade, as crenças espirituais heterogêneas de Von Mierers — que misturavam astrologia com ideias extraídas do misticismo oriental — já não pareciam tão marginais nem extravagantes.
Nesse contexto, ele estava perfeitamente posicionado para explorar as inseguranças de Richards.
"Eu achava que Freddie era um grande mestre e sentia orgulho de gerar dinheiro para o grupo", diz Richards, que calcula ter entregue entre US$ 4 milhões e US$ 5 milhões à Eternal Values.
Segundo Richards, Von Mierers era sempre "a alma da festa", mas acredita que ganhou uma ferramenta adicional para atrair adeptos — a fama — quando apareceu no livro de sucesso Aliens Among Us, de Ruth Montgomery, publicado em 1985.

O crescimento da seita

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Nicholas Galitzine interpretará Richards em um novo filme biográfico Crédito: Getty Images
Nesse livro, Montgomery endossava a extravagante história pessoal de Von Mierers ao afirmar que ele realmente era um extraterrestre altamente evoluído que havia assumido forma humana.
"Eu diria que nos tornamos realmente uma seita quando aquele livro foi publicado", reflete Richards.
"Depois construímos um negócio em torno da seita, vendendo fitas com as leituras psíquicas de Freddie. Naquele momento, recebíamos cartas de pessoas de 45 países."
Apesar das posteriores aparições de Von Mierers na televisão — que Smith incorpora habilmente ao documentário —, Richards calcula que "nunca houve mais de 100 membros plenamente integrados" à seita.
Talvez por causa de sua capacidade de gerar receita, Richards fez parte durante anos do "círculo interno" da organização.
Seus integrantes dormiam lado a lado no chão do apartamento de Von Mierers e levavam um estilo de vida estritamente celibatário, pelo menos no início.
"Todos nós estávamos na casa dos 20 anos e tínhamos os hormônios à flor da pele, então acho que Freddie percebeu que era impossível conter nossos impulsos sexuais", comenta Richards.
Nesse momento, Von Mierers mudou radicalmente de estratégia e ordenou aos membros da seita que começassem a manter relações sexuais entre si.
"Era uma situação tremendamente insalubre, sobretudo para as mulheres naquele ambiente dominado por homens", afirma Richards.
Quem se recusava era duramente repreendido por Von Mierers, que o classificava como "sexualmente reprimido" e incapaz de "separar o espírito do corpo", acrescenta.
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Hoyt Richards conta que foi seduzido para integrar o grupo de Von Mierers quando tinha apenas 16 anos Crédito: HBO
Mais tarde, veio à tona que, durante seus anos de suposto celibato, Von Mierers pagava regularmente a trabalhadores do sexo do sexo masculino.
"Fizeram uma lavagem cerebral tão completa em mim que eu aceitava a versão dele de que os levava ao apartamento para ajudá-los espiritualmente", afirma Richards.
Richards acredita que Von Mierers mantinha seu domínio sobre os seguidores graças à capacidade de "mudar radicalmente de um instante para outro: passar de uma pessoa gentil e protetora a se transformar em uma figura que impunha uma disciplina rigorosa".
O doutor Steven Hassan, especialista em seitas e autor do livro Combating Cult Mind Control ("Como combater o controle mental das seitas", em tradução livre), explica que Von Mierers simplesmente "aplicava o reforço intermitente, uma técnica de condicionamento comportamental muito poderosa".
Na prática, ele mantinha Richards e outros seguidores presos, combinando críticas duras com o incentivo positivo suficiente para deixá-los querendo mais.
Segundo Hassan, a brusca mudança de rumo de Von Mierers — que passou de impor a abstinência a incentivar a promiscuidade — também é uma tática comum.
"Em uma seita, tudo gira em torno da dependência e da obediência ao líder, e não de qualquer princípio específico", afirma.
"E, se você consegue manipular o impulso sexual de alguém, obtém uma grande ferramenta de controle sobre essa pessoa."
Imagem BBC Brasil
Crédito: HBO
Cerca de 48 anos depois de Von Mierers tê-lo abordado em Nantucket, Richards ainda está assimilando o impacto que o líder da seita teve em sua vida.
Felizmente, ele retomou o contato com a família e aceitou o fato de que Von Mierers o ajudou a construir uma carreira de grande sucesso no mundo da moda.
"Não se pode jogar o bebê fora junto com a água do banho, certo?", comenta Richards com serenidade.
Além de Os Escolhidos da Beleza, foi anunciado recentemente um filme biográfico sobre Richards, estrelado por Nicholas Galitzine, com Gus Van Sant em negociações para dirigi-lo.
Ainda não foi confirmado até que ponto o longa abordará a história da Eternal Values, mas, no que diz respeito ao documentário, Richards espera que sua experiência ajude as pessoas a questionar a maneira como se relacionam com pessoas que "as enchem" de atenção ou elogios.
"Quando você entrega seu poder a outra pessoa, consciente ou inconscientemente, eu descreveria isso como uma 'relação sectária'", afirma Richards.
"Nem todas as relações sectárias são abusivas como foi a minha, mas podem ser pouco saudáveis, e acho importante reconhecer que elas parecem fazer parte da condição humana."
Esta reportagem foi publicada originalmente em inglês. Se você quiser lê-la nesse idioma, clique aqui

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