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Com novo tarifaço de Trump e déficit fiscal crescente, Brasil chega à eleição mais importante do mundo em 2026 sem margem para erro, diz analista

Em entrevista à BBC News Brasil, estrategista global Ruchir Sharma avaliou que efeitos do tarifaço sobre investimento estrangeiro e, sobretudo, sobre tabuleiro eleitoral de outubro, são complexos de calcular.

Publicado em 17 de Julho de 2026 às 05:35

BBC News Brasil

Publicado em 

17 jul 2026 às 05:35
Imagem BBC Brasil
Segundo Ruchir Sharma, qualquer erro fiscal em um mundo em que o custo do capital está subindo pode fazer um estrago sério na economia brasileira Crédito: Matt Greenslade
Poucos analistas têm acompanhado a ascensão e queda das nações com a profundidade de Ruchir Sharma. Estrategista global, gestor de recursos e estudioso dos ciclos econômicos que definem o destino dos países, ele é chairman da Rockefeller International, fundador da Breakout Capital e colunista do Financial Times.
Autor de obras como Breakout Nations e What Went Wrong With Capitalism, Sharma combina análise macroeconômica com observação direta de campo em países emergentes — uma metodologia construída ao longo de três décadas.
Sua tese central sobre a América Latina parte de um dado que ele considera inconveniente, mas inegável: historicamente, investidores obtêm retornos muito maiores sob governos de direita na região.
É essa dinâmica que explica, em grande parte, o bom desempenho dos mercados latino-americanos nos últimos anos. E é por isso que o Brasil, para Sharma, é a grande incógnita de 2026 — talvez a eleição mais importante do ano no mundo inteiro.
O cenário ficou ainda mais carregado com a decisão do governo de Donald Trump de impor uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. Se a medida entrar em vigor no dia 22 de julho, o Brasil se tornará o segundo país mais taxado pelos Estados Unidos no planeta, atrás apenas da China.
Para Sharma, o impacto direto da medida é mais limitado do que o número sugere, mas seus efeitos sobre o investimento estrangeiro e, sobretudo, sobre o tabuleiro eleitoral de outubro, são mais complexos de calcular.
Em entrevista à BBC News Brasil, ele fala sobre o que essa decisão significa para a corrida presidencial, o risco fiscal sob Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ou Flávio Bolsonaro (PL), a fragilidade estrutural da China, a bolha de inteligência artificial e o impacto das guerras no Oriente Médio e na Ucrânia sobre a economia global.
BBC News Brasil – O governo americano anunciou uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, tornando o Brasil o segundo país mais taxado pelos EUA no mundo. Qual o impacto real dessa decisão?
Sharma – A tarifa de 25% incide sobre produtos que somam cerca de US$ 14,9 bilhões em exportações brasileiras. Mas, consideradas as isenções — pela Seção 232 e outras —, o impacto efetivo é mais estreito do que o número sugere. Em termos diretos, o efeito é limitado.
O risco maior é de segunda ordem: o impacto sobre o investimento estrangeiro direto e o fato de que esta é a segunda tentativa de Trump de usar tarifas como alavancagem sobre o Brasil em 13 meses. Isso sinaliza que a relação está estruturalmente contestada por este governo americano, não se trata de uma disputa isolada.
BBC News Brasil – E eleitoralmente? Essa decisão pode mudar o cálculo da corrida presidencial de outubro?
Sharma – A narrativa de soberania e nacionalismo de Lula pode funcionar a seu favor, algo semelhante ao que aconteceu no México. Mas seus índices de aprovação estão pressionados por causa do custo de vida e do crescimento fraco. Se a economia não reagir, essa vantagem pode não se sustentar.
O governo Lula já sinalizou que não vê caminho para negociação antes de outubro. Uma vitória de Flávio Bolsonaro criaria pressão para concessões rápidas em regulação digital e plataformas de tecnologia em troca da retirada das tarifas — o que tem seu próprio custo político doméstico.
No curto prazo, a leitura política favorece a narrativa de soberania de Lula. Mas a pressão econômica de médio prazo para negociar com Washington independe de quem vença — isso muda mais a postura negociadora do próximo governo do que define quem chega à Presidência em outubro.
Imagem BBC Brasil
Para Sharma, tarifas de 25% anunciadas pelo governo Trump sobre produtos brasileiros têm impacto mais estreito do que o número sugere Crédito: Getty Images
BBC News Brasil – O senhor disse no início do ano que a eleição brasileira poderia ser a mais importante do mundo em 2026. Com o pleito a três meses, como o senhor situa esse evento no contexto global?
Sharma – Os investidores têm olhado para a América Latina com interesse crescente no último ano, mesmo que a região não seja vista como uma potência de inteligência artificial. Um grande motivo é o número crescente de governos de direita chegando ao poder. Independentemente de preferências políticas, o fato é que historicamente os investidores obtêm retornos maiores quando governos de direita assumem na América Latina.
Fizemos pesquisa sobre isso: em dólares, nos primeiros dois anos de um novo governo, quando a esquerda chega ao poder, o retorno tende a ser de cerca de 16%. Quando é a direita, esse número sobe para mais do dobro — cerca de 37%. Essa expectativa de que mais governos de direita vão chegar ao poder está ajudando a América Latina. E o Brasil é central nessa história.
BBC News Brasil – O principal adversário de Lula hoje é Flávio Bolsonaro. Mas, mesmo no campo da direita, há dúvidas sobre o compromisso fiscal. Os investidores podem acabar desapontados de qualquer forma?
Sharma – Sim, isso é correto. Mas a reação inicial dos investidores, pelo menos, será baseada na história: os mercados tendem a se sair bem quando um novo líder chega ao poder, e tendem a se sair bem quando um governo de direita assume na América Latina. Esses são fatos. Portanto, a reação inicial a uma vitória de Flávio Bolsonaro provavelmente seria positiva — e depois teremos que ver quais serão as políticas concretas.
Até agora, onde quer que governos de direita tenham chegado ao poder na América Latina, os investidores reagiram bem, o capital voltou. Parte disso acontece em antecipação, parte depois que o governo já está no poder — e tem sido assim em toda a região.
BBC News Brasil – E se Lula for reeleito?
Sharma – A situação fiscal do Brasil é delicada, especialmente em um momento em que o mundo está prestando mais atenção à dívida dos países. Se Lula for reeleito, a reação inicial dos investidores será negativa. Mas acredito que ele saberá que, se tentar gastar demais ou não colocar o Brasil em um caminho fiscalmente sustentável, haverá fuga de capitais.
A política brasileira também não é simples, porque o controle do Senado e da Câmara importa muito. Mesmo nos últimos três ou quatro anos, alguns dos piores excessos de gastos do governo Lula foram contidos tanto pelos investidores quanto pontualmente pelo fato de a oposição controlar outras instâncias do governo. Mas não há espaço para irresponsabilidade fiscal agora, em um momento em que a atenção global à dinâmica da dívida é muito maior do que era dez ou vinte anos atrás.
Imagem BBC Brasil
Depender demais da China para crescer economicamente é uma estratégia arriscada, na avaliação de Sharma Crédito: Getty Images
BBC News Brasil – O Brasil tem terras raras, petróleo, energia limpa e concentra mais de 40% de todo o investimento em tecnologia da América Latina. O país tem condições de se posicionar nessa nova ordem global e fechar o gap de desenvolvimento?
Sharma – Há sempre possibilidades, mas depende do horizonte de tempo. Para os próximos cinco anos, o Brasil tem ventos favoráveis. Pode haver um impulso reformista com um novo governo. Há um empurrão vindo do ciclo de commodities. O Brasil está se tornando cada vez mais importante nos mercados globais de petróleo. E, no campo tecnológico, o histórico do Brasil não é ruim: o país investe cerca de 1,2% do PIB em pesquisa e desenvolvimento, o que é razoável para um país de renda média. Cerca de 40% de todo o investimento em tecnologia da América Latina acontece no Brasil, e o país já produziu mais de 20 unicórnios (start-ups avaliadas em US$ 1 bilhão ou mais).
O Brasil também tem oferta abundante de energia, o que poderia ajudá-lo a construir data centers e ecossistemas de inteligência artificial. Com a combinação certa de políticas, e dado que as expectativas estão muito baixas, há potencial real de valorização — especialmente se as taxas de juros reais, que são extraordinariamente altas no Brasil, começarem a cair. Mas o resultado é binário. Qualquer erro fiscal em um mundo em que o custo do capital está subindo pode fazer um estrago sério na economia brasileira.
BBC News Brasil – O senhor argumenta que a inteligência artificial não é suficiente para conter o declínio da China. Que forças são mais poderosas do que a IA?
Sharma – O progresso tecnológico da China é notável, e boa parte dele é de origem doméstica. Todo crédito ao ecossistema tecnológico que o país construiu. Mas há outros fatores que considero ainda mais poderosos. A população chinesa está diminuindo. Nenhum país no mundo conseguiu sustentar um crescimento acima de 2% com a população em queda — você precisa que a força de trabalho também cresça.
Depois, há os níveis de dívida muito elevados: a China já vinha dependendo de endividamento para sustentar taxas de crescimento bem acima do seu potencial. O Estado também se tornou muito intervencionista, há tanta incerteza regulatória que os espíritos empreendedores em muitos setores foram sufocados.
E então há essa situação muito incomum: para uma superpotência em ascensão, praticamente ninguém quer ir à China. A proporção de estrangeiros vivendo no país é de 0,1% da população, a mais baixa entre os grandes países do mundo. E, em termos líquidos, o capital estrangeiro está saindo. São sinais de fragilidades que vão muito além da tecnologia.
BBC News Brasil – E o que a trajetória da China significa especificamente para o Brasil?
Sharma – É algo que os brasileiros precisam ter em mente. O comércio do Brasil mudou muito e está cada vez mais dependente da China. Mas você está lidando com uma economia que está fundamentalmente se enfraquecendo, onde a demanda doméstica deve permanecer fraca por causa dos desafios demográficos e de endividamento que acabei de descrever.
Depender demais da China para crescer é uma estratégia arriscada, porque a demanda doméstica chinesa está em declínio. E o incentivo da China é o oposto do que o Brasil precisa: eles querem exportar o máximo de capacidade excedente possível, porque a economia doméstica não é forte o suficiente para absorvê-la. É isso que têm feito. E o resto do mundo está sofrendo com esse dilúvio de exportações chinesas.
BBC News Brasil – Dois grandes conflitos estão em curso: a Ucrânia e o confronto no Estreito de Ormuz. Os investidores têm absorvido esses choques melhor do que muitos esperavam. Eles estão subestimando os riscos?
Sharma – O impulso positivo da inteligência artificial está sobrepujando o efeito negativo dos preços mais altos de energia. O mesmo aconteceu com as tarifas no ano passado — muitos esperavam uma recessão global por causa delas, e não aconteceu, porque o boom da IA foi muito mais poderoso.
Dito isso, os preços do petróleo subiram menos do que muitos esperavam, dado o volume de oferta retirado do mercado. Em parte porque o mundo aprendeu a se adaptar, o consumo de energia como proporção do PIB global caiu ao longo do tempo, e a destruição de demanda aconteceu rapidamente.
O Brasil também desempenhou um papel aqui: a produção de petróleo no país tem se saído bem, e isso ajuda a evitar que a oferta global caia tão abruptamente quanto o fechamento de Ormuz poderia sugerir.
BBC News Brasil – O senhor escreveu recentemente que a IA está remodelando a hierarquia dos mercados globais — nações classificadas quase que exclusivamente por sua posição no ecossistema de IA. Isso é uma nova ordem mundial ou uma bolha prestes a estourar?
Sharma – É uma combinação das duas coisas. A história nos diz que, quanto maior a inovação tecnológica, maior a bolha — desde os canais e as ferrovias, passando pelos automóveis, até a internet. O gasto global com a construção da infraestrutura de IA este ano é algo em torno de US$ 2,5 trilhões, mais de 2% do PIB global só em investimento em IA. As grandes empresas de tecnologia americanas estão gastando cerca de US$ 800 bilhões sozinhas.
O comportamento dos investidores hoje é: ou você tem IA, ou está fora. Mas minha avaliação é que sim, a IA é uma tecnologia muito poderosa, isso está além de qualquer dúvida. Mas a ideia de que o mundo inteiro vai ser moldado apenas pela IA? Não compartilho dessa visão. Ela simplesmente não é consistente com a história do desenvolvimento econômico.
BBC News Brasil – Quando essa bolha estourar, quão dolorosa será a correção?
Sharma – Toda vez que uma bolha estoura, há dor. Mas existem bolhas boas e bolhas ruins. Quando você tem uma bolha em imóveis ou commodities, é uma bolha ruim — ela não deixa nenhum investimento produtivo em seu rastro. Uma bolha liderada por tecnologia ao menos deixa boa tecnologia para trás, mesmo que a bolha financeira estoure.
Dito isso, tenho uma estrutura para identificar bolhas, o que chamo de quatro "O's" [em inglês]: sobrevalorização, concentração excessiva, sobreendividamento e sobreinvestimento. Quando coloco a IA nessa estrutura, ela se qualifica em muitos desses critérios.
Historicamente, bolhas não caem sob seu próprio peso — elas precisam de um catalisador, e a alta das taxas de juros costuma ser esse catalisador. As taxas de juros reais nos EUA ainda estão relativamente baixas. Mas, se o título de dez anos do Tesouro americano romper os 5%, isso seria uma bandeira vermelha. Estamos nos estágios avançados desta bolha e podemos estar próximos do fim, mas, até que essas coisas aconteçam, é muito difícil prever quando.

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