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Vitor Vogas

Largada igualitária na corrida eleitoral

Confira a coluna do Vitor Vogas publicada neste domingo (15)

Publicado em 14 de Abril de 2018 às 21:21

Públicado em 

14 abr 2018 às 21:21
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

“Estamos numa largada igualitária na corrida da vida”, disse Paulo Hartung (PMDB), em entrevista a esta coluna, na última quinta-feira. Hartung atribuiu a frase a Abraham Lincoln, de fato um exímio frasista. Não conseguimos comprovar a autoria das palavras declamadas pelo governador, mas não importa. O importante é que, hoje, a expressão “largada igualitária” se aplica perfeitamente à corrida mais decisiva para os capixabas neste ano de 2018: aquela que tem a linha de chegada no Palácio Anchieta. Nessa corrida eleitoral, o próprio Hartung e seu principal oponente, o ex-governador Renato Casagrande (PSB), principiam praticamente juntos, lado a lado.
Essa “largada igualitária”, com os dois tecnicamente empatados nas intenções de voto, é o que mostra a primeira pesquisa eleitoral encomendada pela Rede Gazeta ao Instituto Futura sobre as eleições de 2018. No cenário estimulado, o levantamento indica que, se as eleições fossem hoje, Hartung teria 36,9% da preferência dos eleitores capixabas, enquanto Casagrande teria 36,1%. Como a margem de erro da pesquisa é de 3,5 pontos percentuais para mais ou para menos, o quadro é de empate técnico.
O mesmo equilíbrio se manifesta na consulta espontânea: Hartung é citado por 16,4% das pessoas, enquanto Casagrande registra 15,4%. De novo, um quadro de empate técnico entre os arquirrivais.
E quanto aos outros pré-candidatos? Pois é, também temos outros pré-candidatos. Ocorre que, segundo o levantamento, há praticamente um abismo, neste ponto do processo, entre a dupla que tem polarizado a política capixaba desde 2014 e todos os demais nomes testados, sejam do grupo político de Hartung, sejam da oposição. Nenhum deles chega perto de ameaçar o domínio de Hartung e Casagrande. Isso vale, inclusive, para a senadora Rose de Freitas, que acaba de trocar o PMDB (onde se acotovelava com Hartung) pelo Podemos, justamente a fim de se manter viva no páreo.
Paulo Hartung e Casagrande estão empatado na corrida eleitoral Crédito: Arte | Amarildo
No principal cenário estimulado, com a presença de Hartung (36,9%) e Casagrande (36,1%), Rose tem 7,2% das intenções. Já na medição espontânea – que tem muito mais a ver com o recall político de partida de cada um –, Rose é mencionada por 1,4% dos entrevistados.
Já para medir o potencial de aliados de Paulo Hartung – o governador ainda não confirmou candidatura à reeleição e enfatizou, na última quinta, que pode lançar e apoiar algum nome de seu grupo –, a Futura aplicou dois cenários alternativos. No primeiro, Hartung é substituído na cédula pelo vice-governador César Colnago (PSDB). No segundo, quem ocupa o lugar de Hartung é o ex-secretário estadual de Segurança André Garcia, que acaba de se filiar ao PMDB e de se desligar do cargo a fim de poder participar do processo eleitoral.
No primeiro cenário, com Colnago, o vice-governador chega apenas a 5,5% das intenções. Rose melhora seu desempenho, mas não vai além de 13,1%. Já Casagrande deslancha e alcança mais da metade da preferência (54,6%).
Já no cenário com Garcia no lugar de Hartung, o ex-secretário registra tímidos 4,1%. Rose cresce um pouco mais, chegando a 15% (seu melhor desempenho). Mas, também aqui, Casagrande é quem mais lucra com a ausência de Hartung no páreo, atingindo o pico de 54,9%.
Se não entrar no páreo, Hartung pode perder por W.O
O que esse conjunto de dados nos diz? Em primeiro lugar, que, se a campanha começasse hoje, teríamos provavelmente uma reedição de 2014, isto é, mais uma disputa altamente polarizada entre Hartung e Casagrande – porém, desta vez, com as posições invertidas: Hartung no governo, defendendo a faixa, e Casagrande como seu desafiante.
Em segundo lugar, com base neste retrato de hoje, Rose não faz nem cócegas em Hartung e Casagrande e não representa ameaça real a nenhum dos dois. Pode crescer no processo, mas há um mundo entre ela e a dupla nas cabeças.
Em terceiro lugar, parece muito claro a esta altura que, se Hartung quiser mesmo trocar a candidatura própria à reeleição pelo lançamento de um aliado, terá sérias dificuldades para enfrentar e derrotar Casagrande por intermédio de terceiros – pelo menos com os nomes que estão aí. Ora, sem Hartung no páreo, é o próprio Casagrande quem hoje herda os votos de mais eleitores órfãos do governador.
No caso de Colnago, esta primeira pesquisa confirma uma especulação: o vice-governador aparenta não ter força política suficiente para fazer frente a Casagrande. Não se pode alegar falta de projeção, pois Colnago assumiu o governo mais de 10 vezes, rodou o Estado, deu entrevistas como “candidatável”... Tivesse ele assumido agora o cargo de governador, a história até poderia ser outra. Mas, com Hartung ficando no cargo e relegando Colnago a vice, como pode este crescer mais que isso? Pelo menos deste páreo, o tucano parece cortado.
Quanto a Garcia, ainda está mais para incógnita. Como não fez movimentos como possível candidato ao governo (nem houve tempo para isso), é difícil dizer se é mesmo esse o seu real tamanho. Talvez tenha potencial para crescer nos próximos meses. De todo modo, seu começo está longe de ser espetacular.
Finalmente, nossa última conclusão, resultante das três anteriores, é que Hartung (ainda que no fundo não quisesse e que não fosse este o seu plano A) pode se ver forçado a ir de novo, pessoalmente, para o enfrentamento a Casagrande e para a busca de novo mandato nas urnas. Do contrário – insista-se: se a eleição fosse hoje –, estaria entregando o governo de bandeja para seu principal adversário local e colocando em risco seu legado. Seria quase perder por W.0.
Ou, na feliz síntese cunhada pelo economista José Luiz Orrico, diretor da Futura: “Esta eleição tem dois candidatos. Se um dos dois desistir, o outro ganha”.
O capital de Rose
Está certo, Rose não tem começo dos mais animadores. A questão é: com quem a senadora está politicamente associada? Por evidente, com Casagrande. Por isso, mesmo que Rose a esta altura não tenha muitos “pré-votos”, é um capital político que não pode ser desprezado, mais ainda porque, numa eleição que se anuncia equilibrada, Rose pode ser o fiel da balança a favor de alguém.
Onde ela vai jogar?
O mais interessante a se observar daqui para a frente, então, é qual será o papel estratégico que Rose deverá operar nessa parceria com o ex-governador. O próprio Casagrande tem falado em juntar forças com a senadora talvez já no 1º turno. “Transferência de votos” é algo mais incerto a cada eleição e, hoje, pode-se considerar um dom restrito a figuras carismáticas e populares como Lula, um líder de massas. A conferir, portanto, em que vai dar essa sociedade eleitoral.
Corrida à parte
Correndo numa raia à parte (nem na oposição liderada por Casagrande, nem muito menos na base do atual governo), o advogado André Moreira (PSOL) larga com números modestos: em seu melhor desempenho em cenários estimulados, marca 2,8%. E nem sequer é lembrado na espontânea, onde, diga-se passagem, tanto Colnago como Garcia também praticamente “não existem”.
Trunfos de cada um
Um ativo a favor de Hartung: larga empatado com Casagrande, mas larga, ao contrário deste, com a máquina do governo na mão. Por outro lado, chama a atenção o baixo índice de rejeição com que Casagrande inicia a disputa: o dele não chega a dois dígitos, enquanto o de Hartung é de 22,8%.
A vantagem da planície
Nesse caso, “estar na máquina” pode acabar se convertendo em desvantagem. Enquanto Casagrande passou os últimos anos sem mandato (sem ser vitrine, para o bem e para o mal), Hartung sofre as críticas e o desgaste de quem está no poder. Críticas que podem crescer ao longo da campanha.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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